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A bandeira branca foi levantada entre governo e Banco Central nesta terça-feira (7). Pelo menos é o que dá a entender a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que detalhou as discussões do encontro realizado nos dias 31 de janeiro e 1° de fevereiro, quando foi mantida a taxa básica de juros em 13,75%. No parágrafo 16 da Ata, o BC comenta explicitamente que o pacote fiscal anunciado no mês passado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode ter um efeito benigno para as expectativas de inflação.
“O Comitê manteve sua governança usual de incorporar as políticas já aprovadas em lei, mas reconhece que a execução de tal pacote atenuaria os estímulos fiscais sobre a demanda, reduzindo o risco de alta sobre a inflação”, diz o trecho do comunicado.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a a ata do Copom veio “mais amigável, extensa e analítica, falando sobre o trabalho do Ministério da Fazenda”.
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, defendeu hoje a autonomia do BC e afirmou que visa principalmente desvencilhar o ciclo de política monetária do ciclo político, porque os dois ciclos têm “diferentes lentes e diferentes interesses”. Em meio às críticas do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a autonomia do BC, o nível dos juros e das metas de inflação, Campos Neto também argumentou que a independência aumenta a eficiência da política monetária e, assim, reduz o custo da alta de juros para a população.
“Acho que é muito importante por diferentes razões. A principal razão, no caso da autonomia do BC, é desconectar o ciclo de política monetária do ciclo político, porque eles têm diferentes lentes e diferentes interesses. Quanto mais independente você é, mais efetivo você é, e menos o País vai pagar em termos de custo-benefício da política monetária”, disse Campos Neto, em palestra no evento 2023 Milken South Florida Dialogues, em Miami (EUA), após ser questionado sobre os benefícios da autonomia.
No cenário externo, o presidente do Fed, o Federal Reserve, Banco Central dos Estados Unidos, deu hoje ao mercado boas projeções e alguns alertas. Ele afirmou que o payroll (relatório de empregos dos EUA) veio mais forte do que esperado e que todo processo de desinflação vai levar um tempo. Mas disse esperar que 2023 seja um ano quedas significativas da inflação. A boa notícia, disse, é que a desinflação começou sem danos ao mercado de trabalho.
Às 16 horas, o Ibovespa acelerava perdas e caía 1,18%, aos 107.441 pontos; já o dólar reduzia queda, para menos 0,02%, a R$ 5,172 na compra e a R$ 5,173 na venda.
No Tesouro Direto, às 15h18, o mercado de títulos públicos opera com queda mais expressiva nas taxas, movimento visto desde manhã, de até 21 pontos-base (0,21 ponto percentual), caso do Tesouro Prefixado 2029, em que a remuneração era de 13,36%, bem abaixo dos 13,48% da véspera.
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No caso de papéis atrelados à inflação, o juro real máximo era de 6,44%% ao ano, valor que era pago pelo Tesouro IPCA+ 2045. Na sessão anterior, o percentual oferecido pelo título era de 6,50%.
“É possível perceber hoje o movimento de queda de juros. Vamos levar em conta a entrevista de Jerome Powell, que não trouxe um discurso mais duro do que já havia sido dito. O mercado está lendo isso com um certo alívio”, afirma Luciano Costa, economista chefe e sócio da Monte Bravo Investimentos
Segundo ele, no Brasil, o foco é a divulgação da ata do Copom, que manteve a mensagem principal, de que os juros provavelmente têm que ficar parados ao longo do ano. “Há preocupação bastante elevada com relação ao risco fiscal mas o Banco Central começou a fazer uma ponte de diálogo com o resto do governo, reconhecendo que algumas medidas do Ministério da Fazenda”, detalha o especialista.
Confira os preços e as taxas dos títulos públicos disponíveis para a compra no Tesouro Direto na tarde desta terça-feira (7):
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Ata do Copom
As atenções na cena local estão voltadas para a ata do Copom. De acordo com o documento, a conjuntura particularmente incerta no âmbito fiscal, com expectativas de inflação se distanciando da meta em horizontes mais longos, demanda maior atenção na condução da política monetária.
“O Comitê avalia que tal conjuntura eleva o custo da desinflação necessária para atingir as metas estabelecidas pelo CMN. Nesse cenário, o Copom reafirma que conduzirá a política monetária necessária para o cumprimento das metas”, afirma.
Os diretores do BC explicaram na ata da reunião que, para atingir as metas estabelecidas, uma vez observada a desancoragem das expectativas, é necessário se manter ainda mais atento na condução da política monetária e assim reduzir o custo futuro da desinflação.
Na avaliação de Caio Megale, economista-chefe da XP, o Comitê trouxe uma mensagem final hawkish (inclinada ao aperto monetário) e clara de que o Copom irá “atuar para garantir que a inflação convirja para as metas”.
Para o economista, o documento sugeriu ainda que os riscos de inflação estão assimétricos para cima e, portanto, o Copom vê pouco espaço (se houver) para flexibilizar a política monetária até o início do ano que vem. “A ata é consistente com nosso cenário de taxa Selic estável pelo menos até o fim de 2023”, completa.
Mais do que as preocupações com a inflação, o documento representou um aceno de trégua, segundo análise feita por Roberto Lira, para o InfoMoney. No parágrafo 16 da Ata, o BC comenta explicitamente que o pacote fiscal anunciado no mês passado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode ter um efeito benigno para as expectativas de inflação, ressalta o jornalista.
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A comunicação da ata veio um tom abaixo do comunicado pós-decisão do Copom, que deu ênfase no balanço de riscos à “elevada incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e estímulos fiscais adicionais que impliquem sustentação da demanda agregada, parcialmente incorporados nas expectativas de inflação e nos preços de ativos”.
O recado duro foi mal recebido tanto pelo presidente Lula como pela equipe de Haddad. Lula aumentou as críticas à política monetária. Havia um temor no mercado de que as tentativas de diálogo entre os formuladores das políticas fiscal e monetária tinham voltado à estaca zero.
Na véspera, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a mencionar certo descontentamento e que esperava ‘tom mais generoso’ do comunicado do Copom diante das medidas anunciadas pelo governo. Além disso, disse que estava em conversas com Campos Neto e levando nomes para as diretorias do BC para Lula, de quem é a prerrogativa da escolha.
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Nesta terça-feira, Roberto Campos Neto, presidente do BC, profere palestra no evento 2023 Milken South Florida Dialogues, em Miami, Estados Unidos. Já Lula tem café da manhã com a mídia independente e alternativa, como consta em sua agenda. As falas de ambos serão monitoradas de perto pelos investidores em meio ao aumento da tensão entre governo e BC.
Powell
Em evento em Washington, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, projetou novos aumentos das taxas, mas enxerga inflação reduzindo em 2023 e 2024. Ele disse que vê como uma boa notícia o fato do mercado de trabalho continuar forte, e mais forte do que o esperado, enquanto o processo de desinflação já começou. Ponderou que isso se dá graças a uma economia forte, como é a dos EUA. Alertou que vai levar tempo para a inflação chegar à meta, que vai seguir aumentando as taxas e que tudo depende dos dados. Se o mercado de trabalho seguir forte e desequilibrado ou a inflação não ceder, pode aumentar as taxas mais do que o precificado. Por outro lado, acredita que a inflação deve chegar próxima da meta já no ano que vem, mas voltou a ressaltar que depende dos dados, alertando que o setor de serviços segue uma preocupação. “A inflação não vai cair rapidamente e sem dor, levará algum tempo para baixá-la”, reforçou.
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