Tecnologia e economia devem estimular fusões no setor de FIDCs, indica estudo

Fundos enfrentam juro alto, desaceleração e necessidade de investir em modernização

Angelo Pavini

(Foto: Christian Dubovan/Unsplash)
(Foto: Christian Dubovan/Unsplash)

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Os fundos de investimento em direitos creditórios, FIDCs, que compram empréstimos de bancos e financeiras, acumulam captação neste ano de R$ 54,9 bilhões até novembro, bem abaixo dos R$ 143 bilhões de 2024, segundo dados da Anbima Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. Apesar disso, o número de fundos saltou de 3.077 no fim do ano passado para 3.761 carteiras em novembro deste ano, o que reflete entre outros fatores o maior interesse das pessoas físicas por esse tipo de investimento, liberado para todos os perfis de investidores em outubro de 2023 pela Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Além da captação mais modesta, esses fundos enfrentam desafios de conjuntura econômica e tecnológicos que devem levar a consolidações e concentração nos próximos anos. É o que mostra um estudo da empresa especializada em serviços para o segmento, a Celcoin, que consultou profissionais de nove grandes diferentes instituições atuantes do mercado e detectou os principais problemas e oportunidades para as gestoras de FIDCs.

“O mercado de administradoras de FIDCs trabalha com margens um pouco mais apertadas e tem uma estrutura um pouco mais antiga, ao mesmo tempo que tem de se adaptar para trabalhar com novas modalidades de crédito e maiores volumes”, afirma Rodrigo Claudino, diretor de Operações de Crédito da Celcoin.

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Peneira após explosão

No estudo da Celcoin, 66% dos executivos ouvidos mencionaram a “explosão” no número de FIDCs no ano passado, de 2.382 no fim de 2023 para 3.077 em dezembro de 2024, um crescimento de 29% após a CVM liberar os investimentos de pessoas físicas, com muitas empresas criando seus próprios veículos.

E muitos executivos alertam que a “peneira” do mercado, que deve filtrar os administradores mais preparados, ainda não ocorreu. Eles lembram que esses fundos têm uma estrutura complexa e exigem alto grau de especialização.

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A percepção geral, segundo os executivos ouvidos no estudo, é que os fundos que mais se destacam são aqueles que estão investindo em tecnologia, automação e conhecimento técnico.

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Verticalização

Por conta dessa necessidade de maior estrutura tecnológica e maiores investimentos, Claudino vê um movimento de consolidação no mercado de administradoras de FIDCs, com algumas empresas que são mais do mercado tecnológico comprando administradores mais antigos para trazer essa inovação. “É um movimento natural, dada essa necessidade de cada vez mais ter de acompanhar o dinamismo desse mercado, e que deve levar a uma verticalização do setor”, afirma.  

Claudino observa que há uma demanda grande por investimentos em tecnologia no setor para poder modernizar suas plataformas. O mercado vem crescendo muito, com volume grande de operações de alta frequência de crédito, crédito massificado, pulverizado, e isso vem exigindo muito desenvolvimento por parte desses administradores. Ele lembra que, no início, os FIDCs eram mais voltados para compra de créditos de empresas, e hoje há muito crédito consignado, de valores menores, voltados para pessoas físicas, que exige maior agilidade na aquisição e no controle dos recebíveis.

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Recuperações judiciais preocupam

O levantamento mostra ainda que 44% dos entrevistados apontavam para o aumento das recuperações judiciais como fator de apreensão no setor, ao lado da inflação, da instabilidade política e do endividamento crescente das famílias e empresas agravado pelo juro ainda alto.

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Ao mesmo tempo, muitos reconheceram que há uma demanda consistente por crédito para pequenas e médias empresas e mesmo pessoas físicas que não são atendidas pelos grandes bancos, o que amplia o potencial de crescimento desse segmento e o aumento de participantes.

Entre os executivos ouvidos, 55% consideram que os grandes bancos não conseguem atender empresas com profundidade, ou seja, com uma análise mais criteriosa, o que abre espaço para os FIDCs.

Operações ainda manuais

Segundo Claudino, há uma variação grande nas estruturas dos FIDCs do mercado. Alguns investem bastante em tecnologia e conseguem disponibilizar sistemas para fazer integração de seus dados, mas a grande maioria ainda trabalha com troca de arquivos e alguns ainda têm processos manuais. “Grandes arquivos de dados são trocados sem grande tecnologia, o que demonstra um atraso para o setor”, diz.

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Maior risco de fraudes

A essa dificuldade, soma-se o fato de os fraudadores estarem cada vez mais ativos, tentando contratar crédito e explorando as fragilidades das empresas, o que aumenta a necessidade de o administrador ser mais efetivo para aprovar os empréstimos e para montar os pacotes comprobatórios, que garantem a identidade do tomador e as informações prestadas.

“Muitas vezes para aprovar uma operação de crédito você manda a identificação, todo kit de assinatura com selfie, fazendo live, comprovante de desembolso provando que transferiu o dinheiro para o tomador do crédito”, descreve Claudino.

“Imagina você recebendo milhares desses kits sem ter uma tecnologia por trás que ajude a fazer a validação, é um gap grande que o setor tem”, diz.

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Birôs e fontes alternativas de informação

Uma saída usada por muitas administradoras de FIDCs sem acesso a novas tecnologias é lançar mão de estruturas externas, usando os birôs de crédito como Serasa, SPC, Boavista ou Quod, para avaliar as operações adquiridas pelas carteiras. Mas isso encarece a operação, explica Claudino.

“O custo é muito alto e o que vemos agora são empresas buscando se apoiar em outras fontes de informações públicas, redes sociais ou dados que são oferecidos por outras empresas”, diz ele, citando como exemplo as companhias de telefonia, como Claro ou Vivo, que têm acesso a dados de seus usuários. “Essas empresas sabem onde você passa o dia, onde você mora, e elas têm como passar esses dados de maneira legal”, afirma.

Com isso, ajudam as administradoras de FIDCs a fugir dos birôs de crédito, trazendo dados alternativos tanto para baratear como para melhorar a qualidade da análise, complementando os dados dos birôs para evitar fraudes ou inadimplência futura. O Brasil tem um nível de inadimplência alta e esse risco pode comprometer os ganhos com as operações, diz o executivo.

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Preocupação também com a cobrança

O uso de novas tecnologias não se limita, porém, à concessão, explica Claudino. Há também um movimento para trabalhar também na ponta da cobrança. “Vemos investimentos para saber como eu recupero esse dinheiro que eu emprestei, com trabalho forte de dados, de trazer essa inteligência para saber qual o melhor momento para mandar uma cobrança para o cliente, por exemplo” diz.

“Você consegue saber que o devedor recebe o salário em determinado dia do mês, então já me programo para mandar o boleto ou o SMS dizendo que ele está em atraso ou propondo uma renegociação”, diz.

Crédito do Trabalhador

Claudino espera que o setor de FIDCs tenha um novo impulso no ano que vem com o Crédito do Trabalhador, uma linha de consignado criada em março pelo governo, que permite empréstimos com garantia no salário dos trabalhadores com carteira assinada ou microempreendedores individuais.

Ele lembra que há quase 40 milhões de trabalhadores do setor privado com carteira assinada que podem migrar dos grandes bancos para outras instituições e para os FIDCs. “Isso vai ajudar muito na descentralização bancária”, afirma.  

Mas essa linha exigirá também maior eficiência das financeiras e administradoras de FIDCs. “Saímos de um mercado muito confortável, do crédito garantido pelo FGTS ou pelo INSS, que praticamente não tinham inadimplência, e vamos para um de risco maior”, explica. Se o devedor for demitido ou trocar de emprego, quem comprou os créditos terá de se esforçar para cobrar a dívida, com menores garantias.

“Esse vai ser o produto do momento, mas vai exigir uma boa análise, mais rigorosa na concessão, tanto da pessoa física quanto da empresa em que ele trabalha, e na hora da cobrança, pois não haverá garantia como no FGTS caso o devedor perca o emprego”, afirma.