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O mercado de crédito privado brasileiro atravessa um momento de transição. Após um período de intensa captação e apetite voraz por parte dos investidores, o cenário macroeconômico e a dinâmica de preços exigem uma nova postura. Para a Sparta Investimentos, o principal ponto de atenção na carteira deixou de ser apenas o risco de calote para dar protagonismo ao risco de marcação a mercado.
Em entrevista ao InfoMoney, Felipe Vidal, gestor de fundos da casa, detalhou a visão da gestora sobre o momento atual, marcado por prêmios de risco espremidos, desaceleração no fluxo de novos recursos para os fundos e a perspectiva de um mercado primário mais tímido em 2026.
Do risco de crédito para o risco de spread
Com a taxa Selic em patamares elevados, o custo financeiro para as empresas segue sendo um desafio. No entanto, o gestor da Sparta aponta que o foco de preocupação do mercado migrou. “O preço dos ativos está elevado, ou seja, o spread (prêmio de risco) está baixo. O impacto de segunda ordem que nos preocupa hoje é a abertura de spreads por conta de fluxo”, explica Vidal.
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Essa preocupação se justifica pela matemática dos fundos. Como os prêmios estão muito comprimidos, o mercado perdeu o seu “colchão” para absorver oscilações. “Em ativos muito longos com spreads comprimidos, uma abertura de 10 a 20 pontos-base (0,10 a 0,20 pontos percentuais) no mercado faz com que você entregue, naquele ativo específico, um retorno abaixo do CDI naquele mês”, detalha o gestor.
Essa dinâmica tem gerado uma volatilidade à qual o investidor pessoa física não estava acostumado. “De lá para cá (desde o início de 2023), vários probleminhas vêm acontecendo no decorrer dos meses. Nenhum muito grande, mas suficientes para a performance média dos fundos de um mês ficar abaixo do CDI. Isso não assusta tanto, mas incomoda o investidor”, avalia.
O sinal amarelo no fluxo e a posição defensiva
Esse incômodo já começa a refletir nos números. A Sparta notou que uma amostra representativa de fundos de crédito registrou resgates líquidos de R$ 3 bilhões recentemente. Embora o número seja pequeno em termos absolutos, ele contrasta fortemente com o padrão recente, onde a captação líquida superava R$ 20 bilhões mensais com frequência.
“É um primeiro sinal amarelo”, alerta Vidal. “O fluxo deixou de empurrar o mercado. Obviamente, precisamos ver como isso vai se comportar ao longo dos próximos dois a três meses para saber se, de fato, o movimento vira para resgate ou não”.
Diante dessa assimetria desfavorável, onde o risco de perder com a abertura das taxas é maior do que o ganho potencial de um fechamento adicional, a Sparta adotou uma postura defensiva. A gestora mantém o nível de caixa de seus fundos em patamares elevados há mais de um ano.
“Nós achamos que o risco-retorno de alocar no preço atual é ruim. Por isso, preferimos manter em caixa. Não vislumbramos no curto prazo reduzir esse caixa, a menos que haja um movimento de reversão de preços”, afirma o gestor, classificando a liquidez como um “seguro” para atravessar o momento de incerteza.
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Mercado primário “seco” em ano eleitoral
Pelo lado da oferta de novos papéis, a perspectiva da Sparta é de um 2026 menos aquecido. Após um 2025 de emissões recordes, os dois primeiros meses deste ano já se mostraram mais fracos.
Vidal elenca três fatores principais para essa seca. O primeiro é a sazonalidade. O segundo é o fato de que as empresas já aproveitaram a janela favorável do ano passado para captar, recomprar dívidas curtas e alongar seus passivos, reduzindo a necessidade de ir a mercado agora.
O terceiro fator, e talvez o mais volátil, é o calendário político. “Anos eleitorais tendem a ter emissões concentradas no primeiro semestre. À medida que as eleições se aproximam, investidores, bancos coordenadores e as próprias empresas tendem a tomar menos risco, porque o cenário pode mudar muito rápido, ainda mais numa eleição polarizada”, projeta.
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Essa retração na oferta pode ser o fiel da balança para manter o mercado estável. “Se a oferta é menor, ela conversa com uma demanda possivelmente um pouco mais fraca também, o que equilibraria um pouco o nível de preço no final das contas”, conclui o gestor.