“Somos traders, não freiras”: Xavier, da SPX, explica mudanças e planeja reviravolta

Principal acionista da gestora afirma que ninguém articulou um golpe para derrubá-lo do comando, nem houve troca de socos entre os sócios

Bloomberg

Rogério Xavier, da SPX (divulgação/XP)
Rogério Xavier, da SPX (divulgação/XP)

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Rogério Xavier quer esclarecer algumas coisas.

Em primeiro lugar, ele afirma, ninguém articulou um golpe para derrubá-lo do comando da SPX Capital, a gestora que ajudou a transformar em uma das maiores e mais influentes do Brasil ao longo das últimas duas décadas. E não, nunca houve troca de socos enquanto ele e seus sócios discutiam como reestruturar a empresa e recuperar o desempenho dos fundos, que vinha decepcionando.

Segundo ele, toda essa conversa que circula nos círculos financeiros brasileiros exagera as ocasionais discussões acaloradas entre ele e os sócios. “Falar com veemência às vezes faz parte da nossa natureza — somos traders, não freiras”, afirma. “O fato de haver debate não significa que as pessoas ultrapassem certos limites.”

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Independentemente do que tenha acontecido quando o conselho da SPX se reuniu naquela tarde do início de maio, o que ficou claro é o seguinte: Xavier, o principal acionista da empresa, foi relegado à gestão de uma parcela muito menor do capital após apresentar vários anos de retornos medíocres; a agressiva expansão internacional que ele havia orquestrado, com escritórios em bairros sofisticados de Londres e Manhattan, está praticamente encerrada; e Bruno Pandolfi, sócio desde a fundação da empresa, assumiu a gestão da maior parte do dinheiro dos clientes.

Esse montante em caixa diminuiu constantemente nos últimos anos — de um pico de mais de 80 bilhões de reais (US$ 16 bilhões) para cerca de R$ 49 bilhões – à medida que os retornos abaixo do esperado da empresa afastaram os clientes. Então, em março, a situação piorou drasticamente. As oscilações do mercado desencadeadas pela guerra com o Irã afetaram algumas das operações da empresa, e seu principal fundo, o Nimitz, registrou sua pior perda mensal da história – 5,5%.

Segundo Xavier, a ideia de uma reestruturação que colocasse um único operador claramente no comando já vinha sendo amadurecida há algum tempo, e ele acabou percebendo que era necessária.

“Tivemos três ou quatro anos de desempenho medíocre”, disse Xavier, de 59 anos, em entrevista em Manhattan no mês passado. Ele estava na cidade para algumas reuniões e havia se instalado nos escritórios temporários que a empresa estava usando depois de desistir do contrato de aluguel na Park Avenue para reduzir sua presença na cidade. “Estamos aqui para trabalhar para os investidores. Se as coisas não estão funcionando, então precisam funcionar.”

A crise no SPX reflete a reestruturação mais ampla do outrora próspero setor de fundos de hedge brasileiro. Após anos de rápido crescimento, o setor vem definhando desde que as taxas de juros do país, há muito entre as mais altas do mundo, dispararam novamente para dois dígitos em decorrência da alta inflacionária causada pela pandemia. Grande parte do dinheiro que os investidores haviam aplicado em fundos de hedge em busca de retornos mais elevados foi redirecionada para contas básicas de renda fixa que simplesmente replicam a taxa de referência.

A perspectiva para os fundos de hedge agora é “altamente desafiadora”, disse Samuel Ponsoni, sócio fundador da Outliers Advisory, uma boutique de consultoria em São Paulo. “As altas taxas de juros, a concorrência da renda fixa e os retornos decepcionantes, inclusive em períodos mais longos, continuam impulsionando as saídas de capital.”

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Hoje, essa taxa é de 14,5%, estabelecendo um patamar elevado para os fundos de hedge superarem. O SPX não conseguiu atingir esse objetivo. Seu fundo Nimitz, por exemplo, obteve um ganho de apenas 0,8% nos primeiros cinco meses de 2026, o que o coloca a caminho de ficar abaixo da taxa de referência pelo terceiro ano em quatro. Essa queda incluiu uma perda de 1,5% em 2023, o primeiro ano negativo nos 16 anos de história do fundo.

Xavier reconheceu que merecia parte da culpa pelos baixos retornos e foi severo em sua avaliação da sua abordagem de negociação recente. Ele afirmou estar muito focado no curto prazo e sem a devida atenção, uma combinação que o impediu, segundo ele, de se antecipar a eventos como a alta do preço do petróleo em março.

“Não preciso ter posições o tempo todo. Preciso estar onde acredito que haja uma boa oportunidade de risco-retorno”, disse Xavier. “Caso contrário, acabo com um monte de posições pequenas e ruins, tentando obter 10, 20 ou 30 pontos-base, enquanto uma infinidade de oportunidades que valem 500 pontos-base passam despercebidas porque já estou alocado.”

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Xavier estará à procura de grandes oportunidades a partir do seu escritório em Cascais, uma cidade turística costeira nos arredores de Lisboa. A SPX já tinha uma pequena presença em Cascais há anos, e Xavier decidiu torná-la a sua base permanente, uma vez que o escritório de Londres estava a ser encerrado.

Ele havia se mudado para aquele escritório no exclusivo bairro de Mayfair, em Londres, juntamente com Pandolfi e Daniel Schneider, o terceiro cofundador da SPX, em 2016, para mostrar ao mundo dos investimentos que a SPX havia se tornado mais do que apenas uma empresa brasileira. Quatro anos depois, eles abriram seu escritório em Manhattan.

Por um tempo, a estratégia de investimento no exterior funcionou. A empresa atuou nos mercados de taxas de juros no México , entrou em conflito com a Citadel de Ken Griffin na Hungria e acertou em cheio com uma grande aposta na alta das taxas de juros nos EUA, acumulando, no processo, retornos anuais de 12%, acima da média do setor, nos sete anos até 2022.

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Quando as coisas começaram a piorar no ano seguinte, ironicamente, foi uma série de apostas equivocadas no Brasil que colocou a empresa em apuros. Xavier, o presidente do conselho, escreveu uma carta de mea culpa aos clientes – “precisamos melhorar” -, mas os retornos medíocres continuaram se acumulando e a angústia dentro da SPX aumentou.

Pandolfi está agora se mudando de volta para o Rio de Janeiro, onde comandará a estratégia macro da empresa. Ao ser contatado para comentar, ele descartou a ideia de que haja tensão entre ele e Xavier. “Nossa parceria de décadas continua sólida”, afirmou.

Como parte da reestruturação, dois outros sócios seniores, Marcelo Castro e Marcella Libardoni, deixaram a firma. Schneider, por sua vez, pretende se mudar para Abu Dhabi, o único novo escritório que a firma está criando — para atender clientes do Oriente Médio — mesmo enquanto reduz suas operações em outras regiões.

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Segundo Xavier, o plano para Abu Dhabi ilustra o compromisso da SPX em manter uma presença internacional. “Não acho que a estratégia estivesse errada”, afirmou. O fechamento do escritório de Londres “não significa que não voltaremos no futuro”.

Começo improvável

Filho de um carteiro e uma professora, Xavier teve uma introdução incomum ao mundo das finanças – através da Playboy. Ele folheava um exemplar da revista que um amigo havia trazido para a escola quando se deparou com uma matéria sobre um investidor que ganhou milhões apostando em moedas asiáticas. Ficou imediatamente fascinado.

Ele estudou administração na Universidade Católica do Rio e, em 1985, ingressou no Banco Garantia, o banco de investimentos fundado pelo bilionário Jorge Paulo Lemann. Após alguns anos lá, transferiu-se para o Banco BBM, um dos bancos mais antigos do país, e galgou posições ao longo de duas décadas, chegando a chefiar a unidade de gestão de ativos da instituição.

Foi no BBM que ele trabalhou pela primeira vez com Pandolfi e Schneider. Os três deixaram o banco em 2010 e, ainda naquele mesmo ano, decidiram fundar a SPX no Rio, com Xavier ficando com a maior participação acionária.

À medida que os fundos da SPX geravam retornos extraordinários naqueles primeiros anos, transformando-a na maior gestora independente de fundos de hedge do Brasil, a reputação de Xavier crescia nos círculos financeiros.

Status de estrela

Em conferências de investimento , ele dividia o palco com Luis Stuhlberger, o “Padrinho” da indústria brasileira de fundos de hedge, e distribuía opiniões sem filtro sobre economia e política, tendo inclusive criticado duramente os planos orçamentários do governo enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estava na plateia.

“As pessoas não têm coragem de ir até o ministro e dizer: ‘Olha, ministro, este não é o plano que gostaríamos de ver, nem um que nos dê confiança.’”

Isso foi no início de 2023, e o SPX, ainda em alta após o sucesso obtido no mercado de taxas de juros dos EUA, continuava em valorização.

Agora é Xavier quem se vê em busca de um plano para reconquistar a confiança dos investidores. Ele reconhece que eles expressaram frustração com a piora do retorno dos fundos. Os clientes estrangeiros, em particular, criticaram a estrutura de poder dispersa da empresa.

Em uma organização “onde várias pessoas tomam as decisões”, diz ele, “ninguém realmente decide nada”. Daí a decisão de colocar Pandolfi no comando da maioria dos gestores de portfólio da empresa.

“Quando cometemos um erro, acreditamos que temos a obrigação de admiti-lo”, diz Xavier. “É isso que nossos investidores esperam de nós.”

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