Sócios da gestora Titanium Asset, alvo da PF, fizeram negócio com golpista conhecido como “Rei do Bitcoin”

Os donos da Titanium Asset alegam que também foram vítimas do criminoso

Lucas Gabriel Marins

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Os sócios da gestora de ativos digitais Titanium Asset, que na terça-feira (28) foi alvo de operação da Polícia Federal (PF) contra organização criminosa com estrutura semelhante à pirâmide financeira, fizeram negócios com Claudio Oliveira (o “Rei do Bitcoin”), condenado e preso em 2022 por estelionato e crimes contra o sistema financeiro.

Oliveira foi o fundador do Grupo Bitcoin Banco (GBB), falsa empresa de criptomoedas de Curitiba (PR) envolvida em fraude de R$ 1,5 bilhão. O número de pessoas prejudicadas pelo esquema foi de 7 mil, segundo as autoridades.

Os irmãos Claudio Miguel Miksza Filho e Guilherme Bernert Miksza, sócios da Titanium, tentaram lançar uma criptomoeda chamada LeaxCoin junto com Oliveira, de acordo com depoimento dado à PF em 2019 por Johnny Pablo Santos, antigo funcionário do Grupo Bitcoin Banco e braço direito do Rei do Bitcoin.

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Em transcrição da conversa anexada à investigação da PF contra o Bitcoin Banco, à qual a reportagem teve acesso, o delegado Filipe Pace pergunta a Santos especificamente sobre a relação dos irmãos com o líder do esquema – que, por sua vez, confirma a tentativa do trio de lançar a criptomoeda no passado.

Na época, Santos afirmou que o projeto não havia saído do papel, mas há registros de que o ativo digital não só foi lançado, como foi negociado em exchanges e promovido pelo Bitcoin Banco, antes de o preço evaporar de uma hora para outra, segundo reportagem do site especializado Portal do Bitcoin.

Na época, o preço foi de R$ 3,60 a R$ 0,03, movimento típico de golpes do tipo pump and dump (“inflar e despejar”, em tradução livre), em que golpistas encorajam compradores de um ativo para inflar o preço, e vendem grandes lotes para embolsar os lucros.

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Outro lado

Ao InfoMoney, o diretor jurídico da Titanium, Marcos Antonio Carmo, alegou que os sócios não criaram a LeaxCoin, e que também teriam sido vítimas do esquema do Bitcoin Banco. Afirmou ainda que os irmãos adquiriram 100 milhões de unidades do token de terceiros em uma exchange descentralizada (que não tem controle central), e pediram para Oliveira revender a criptomoeda.

Tudo isso, falou Carmo, foi antes de o Bitcoin Banco se revelar um golpe. “Oliveira começou a vender a moeda LeaxCoin e não pagou nada. Portanto, eles também foram vítimas”, afirmou.

Claudio Miguel, da Titanium, aparece na lista de credores do Bitcoin Banco com um saldo de R$ 156,5 mil a receber. Essa lista existe porque antes de ser apontado como um golpe financeiro pela Justiça do Paraná, o Bitcoin Banco conseguiu convencer o Judiciário a dar aval a um processo de recuperação judicial.

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Em nota, Claudio Miksza diz ter sido “mais uma vítima de Claudio Oliveira, assim como tantos outros que confiaram em suas promessas e acabaram lesados”. Prova disso, diz, é que ele processou Oliveira e conseguiu medida judicial para evitar o “locupletamento indevido da criptomoeda que lançaria”, mas que teria sido copiada ou desviada por Oliveira.

O empresário também nega ter qualquer relação comercial com Oliveira e com as práticas condenadas pela Justiça.

Operação da PF

Ontem, a PF cumpriu 28 mandados de busca e apreensão em São Paulo (SP), Balneário Camboriú (SC), Palhoça (SC), Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS). A Titanium, que fica na Faria Lima, foi uma das empresas visitadas pelos agentes federais.

De acordo com os investigadores, uma organização criminosa que operava estrutura semelhante à pirâmide financeira começou operar no Sul do Brasil e depois alcançou o centro econômico do país na capital paulista.

O esquema, segundo a PF, constituía em captar US$ 1 bilhão de investidores em todo o país por meio de oferta pública de contratos de investimento coletivos (CIC) para aplicação em suposta arbitragem de criptomoedas, sem registro ou autorização dos órgãos competentes.

Para esvaziar o patrimônio da instituição financeira clandestina, esse dinheiro era enviado para diversas contas diferentes de empresas, em um sistema conhecido como “centrifugação de dinheiro”. A PF também informou que há investimentos com possível origem no tráfico de drogas, crimes contra o sistema financeiro nacional e fraudes empresariais e fiscais.

“Os fatos investigados constituem, em tese, os crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro nacional, dentre eles, fazer operar instituição financeira sem autorização, oferta irregular de valor mobiliário, exercício ilegal de assessoria de investimento”, disse a PF.

Em nota enviada à reportagem hoje pela manhã, a Titanium Asset disse que a empresa não está envolvida e ainda não tem informações detalhadas do procedimento investigativo que motivou a operação. Falou também que é a maior interessada em esclarecer todos os pontos e não medirá esforços para colaborar com as autoridades.

Disse ainda que “a midiática operação envolveu empresas que não fazem parte do mesmo grupo econômico, com atuações distintas, todas lícitas, como será demonstrado em breve, tão logo haja acesso à investigação”.

Por causa da operação, a Vórtx, que administra três fundos de criptomoedas da gestora Titanium Asset, suspendeu o resgate de valores dos produtos financeiros e passou a geri-los temporariamente após medida judicial. Carmo, diretor jurídico da gestora, disse que a empresa está entrando com uma medida cautelar para reverter a decisão.

Lucas Gabriel Marins

Jornalista colaborador do InfoMoney