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Desde outubro do ano passado, a Encore Asset Management passou a receber mais investidores estrangeiros – eram pelo menos quatro reuniões por semana, narra João Luiz Braga. “Um monte de gente vindo me perguntar sobre o Brasil, um interesse que não vejo há muitos anos”, diz o sócio-fundador e analista da casa.
As conversas esfriaram com o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, no fim de fevereiro, mas voltaram nas últimas semanas. Braga não trata a agenda como acaso, mas como sinal de uma terceira onda de investimento estrangeiro no Brasil.
Ele vai contra a ideia de que a eleição de outubro é a variável que decide o ano da Bolsa brasileira e de que o dinheiro estrangeiro que entrou no início do ano era o teto do investimento gringo aqui.
Banheira x piscina olímpica
Para ilustrar a tese, Braga usa a imagem de uma piscina olímpica: “se você tira cinco baldes de água dela, não faz diferença; mas, se joga esses baldes numa banheirinha chamada Brasil, é água para todo lado”. Se a piscina é o mercado americano, a banheira é a B3, que vem encolhendo com recompras e fechamentos de capital, alerta o especialista.
O que mudou na piscina, segundo ele, foi o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA. “Não importa se você gosta ou não do Trump. O que importa é o jeito que o Trump trabalha: adiciona volatilidade. Ele vai lá, bota uma tarifa, tira uma tarifa, e o investidor não gosta de incerteza”.
Com isso, a primeira onda de investimento estrangeiro, em 2025, veio de fundos que já conheciam o Brasil e aproveitaram o estresse do fim de 2024, com o dólar acima de R$ 6 e a curva de juros esticada. A segunda foi a de janeiro – R$ 26,3 bilhões líquidos em um único mês, o maior fluxo mensal da série da B3 iniciada em 2022, e mais do que os estrangeiros aportaram em 2025 inteiro. Essa onda, diz Braga, foi feita por quem não fez conta nenhuma, já que o estrangeiro veio para o Brasil via Ibovespa.
A terceira onda, que ainda não aconteceu, é diferente. “É a galera que não tá com o trabalho feito, tá estudando, mas que já esteve no Brasil”. Demora mais e não tem a amplitude da segunda, argumenta, mas dura. “Esse cara, quando entrar, é muito influente. Ele coloca nos gestores”. Por isso, o stock picking [escolha de ações individuais com potencial] será ainda mais importante, segundo o argumento de Braga.
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O gatilho que falta
O que atrai esse investidor, na leitura de Braga, não é retorno, é descorrelação. “O ideal na alocação é achar dois investimentos que você gosta e que são descorrelacionados. Se são correlacionados, você só tem um trade”.
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Com o índice de emergentes “contaminado” por IA em mercados como Coreia do Sul e Taiwan, a diversificação para o investidor global ficou mais difícil. E é aí que o Brasil pode ganhar: “o Brasil é velha economia. A gente é uma grande fazenda com uma operação de minério”.
Para o fluxo voltar com força, Braga aponta para um conceito conhecido no mercado global: o “dólar smile”. Quando a economia americana vai muito bem, o dólar ganha força e o dinheiro fica lá. Quando vai muito mal, como em 2008, o dólar também fica forte, porque ninguém arrisca. O ponto ideal para emergentes é o meio.
Era ali que o mundo estava antes da guerra, diz ele, com payroll e inflação americanos piorando na margem, sem sinal de recessão. O conflito no Oriente Médio, que completou cinco meses na última terça-feira (28/07), mudou a conta: “o mercado está com receio de que a qualquer momento a economia americana entre em recessão; com isso, terminar a guerra voltou a ser um gatilho para a entrada de fluxo estrangeiro no Brasil”.
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Os juros brasileiros também são importantes para a decisão de investir (ou não) no Brasil. “Todo gringo adora olhar para quando um ciclo de alta termina”. Por isso, a reunião da próxima quarta-feira (5) será importante para o mercado.
Sobre a eleição, Braga separa a leitura local da estrangeira. Para o gestor de fora, diz, ela pesa menos do que se imagina: “muita gente que está fora interpreta a eleição como mais do mesmo ou algo melhor. Sob a ótica do fundo estrangeiro, eu não vejo a eleição como uma coisa que mudaria o cenário”.
“O maior desconto que eu já vi”
“Estou há 26 anos no mercado financeiro e vejo o maior desconto que eu já vi na minha vida”, afirma Braga. Ele comenta a diferença entre Ibovespa e SMLL, que negociam próximos a 8,5 vezes o lucro projetado para 12 meses, quando a média histórica para o índice principal fica entre 11 e 12 vezes e é ainda maior para as small caps: “não faz o menor sentido o SMLL mais barato do que o Ibovespa”, diz, argumentando que o Ibovespa carrega empresas cíclicas e bancões, que sempre negociaram a múltiplos baixos.
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Braga diz que, no atual cenário, “não é na Vale que você vai ganhar dinheiro, mas nas domésticas”.
A carteira da Encore
Seguindo a máxima, a maior posição da Encore hoje é a Smart Fit (SMFT3). Braga argumenta que o mercado leu o TotalPass ao contrário. “Antigamente, o mercado achava que o TotalPass atrapalhava a operação porque tirava margem”, diz. Para ele, o serviço amplia a rede sem custo de capital e está fechando o desconto de preço em relação ao balcão.
O risco da tese, diz Braga, é um só: competição. Nas contas dele, a ação negocia a nove vezes lucro e nove vezes geração de caixa, com crescimento na casa de 30%.
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A segunda maior posição da casa é o Nubank (ROXO34), onde a tese também se baseia no que Braga classifica como um erro de leitura do mercado. “Lá fora, vencederam ações de software por causa da IA e o Nubank foi junto, mas quero ver você pegar sua IA e montar um Nubank”.
Braga projeta crescimento de 50% no lucro do segundo trimestre e diz que o papel negocia a 11 vezes lucro. “Um banco brilhante, de pessoas brilhantes, que cresce super bem, que era queridinho e deixou de ser”.
A terceira maior posição é a Localiza (RENT3), com uma tese baseada na estrutura de custo. “Todo mundo acha que é uma locadora de carro, e não é. A Localiza é o jeito mais barato de ter um carro”, diz.
Como o custo de propriedade dela é menor que o de qualquer outro modelo, segundo Braga, ela define onde o preço fica. “Se ela quisesse, matava (a concorrência), mas aí eu acho que o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) não ia gostar muito.”
O que ela faz, argumenta, é precificar de modo a manter competidores vivos com retorno marginal próximo de zero sobre o custo de capital, enquanto opera com spread positivo. A companhia reportou ROIC (Retorno Sobre o Capital Investido) ajustado de 14,6% em 2025, com spread de 4,7 pontos percentuais sobre o custo da dívida depois de impostos.