Sinalização de corte da Selic pode ditar o fim dos juros gordos no Tesouro IPCA+?

"Para quem ainda não investiu nos títulos, a hora é agora", diz especialista

Leonardo Guimarães

(Foto: Freepik)
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Há meses, o mercado aguardava um arrefecimento das taxas do Tesouro IPCA+. Após algumas previsões de queda que não se concretizaram, o Banco Central finalmente sinalizou o início do ciclo de corte de juros e investidores se perguntam se este será o fim da janela de oportunidade para garantir retornos robustos nos títulos públicos de inflação. 

No último dia 14 de outubro, o Tesouro IPCA+ 2029 entregava juro real de 8,09% aos investidores. Nesta sexta-feira (30), o prêmio estava em 7,61%. Nos títulos mais longos, a tendência também de queda: o papel com vencimento em 2050, que pagava IPCA + 7,12% em 14 de janeiro, hoje entrega IPCA + 6,85%. 

Para Antonio Pontes, diretor de estratégia e sócio da The Hill Capital, a mudança de postura da autoridade monetária é fundamental, mas faz parte de um contexto maior. Segundo ele, “a sinalização do BC representa um catalisador importante, mas, historicamente, a queda das taxas reais depende de múltiplos fatores convergindo simultaneamente”. 

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Pontes diz que os fundamentos econômicos separam o cenário atual de momentos anteriores. “A diferença agora é que temos dados concretos de desaceleração econômica, como a desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto), o que pode finalmente criar as condições para uma queda mais consistente (nas taxas do Tesouro IPCA+)”. O especialista reforça que o nível atual de prêmio é atípico: “gestoras como a Kinea classificam os níveis atuais como ‘insustentáveis'”, pontua.

Para Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimento, o comunicado do BC “é o gatilho que faltava, mas com cautela”. Ele é enfático ao dizer que a janela de oportunidade está ficando estreita: “quem conseguiu travar taxas acima de 7% pegou uma oportunidade ótima. E já estamos vendo o fechamento dessa janela”. 

Ele aconselha agilidade: “para quem ainda não investiu e quer comprar, a hora é agora, garanta a taxa alta enquanto ela existe”.

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Contudo, a tese de queda generalizada das taxas encontra resistência técnica. Harrison Gonçalves, analista CFA, argumenta que a ação do BC não resolve tudo sozinha. “Não acho que seja o suficiente, e a justificativa é estritamente técnica: a política monetária tem a capacidade de impactar a taxa de juros mais curta e intermediária. Essa, sim, deve ter um fechamento importante”, explica. 

No entanto, para os prazos mais longos, a dinâmica é outra: “o movimento das taxas de juros mais longas depende muito da agenda política do próximo presidente da República”.

Felipe Almeida, sócio do Clube do Valor, reforça essa cautela, lembrando que a Selic atual não é o único driver. “É importante explicar que a queda da taxa real no Tesouro IPCA+ depende, no curto prazo, muito mais dos juros futuros do que de quanto a Selic está hoje”, afirma. 

O especialista destaca que o risco fiscal e o calendário político impedem uma queda abrupta: “os juros futuros consideram também os riscos que vemos no mercado — como o fiscal e o fato de ser um ano de eleição — o que impede que a curva caia de forma rápida ou permanente agora”.

Outro fator que sustenta as taxas elevadas é a expectativa de inflação, como aponta Victor Alcantara, analista da Victrix Capital. “A sinalização do BC é importante, porém, isoladamente, não é suficiente para provocar uma queda consistente das taxas reais”, avalia. 

Ele explica que o mercado ainda exige prêmio porque “as projeções de inflação para 2026 giram em torno de 4%, acima da meta de 3%. Isso sustenta a demanda por um prêmio real mais elevado”.

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O que fazer agora?

Diante desse cenário incerto, a estratégia de manutenção dos ativos torna-se crucial. Patzlaff é enfático ao desencorajar uma venda antecipada por impulso. “Para quem já tem o título, o mais inteligente é não vender agora, se você comprou um título com taxa alta e os juros de mercado caírem, o preço do seu título sobe”, explica, referindo-se à marcação a mercado. 

Antonio Pontes complementa essa visão, lembrando que a volatilidade de curto prazo não anula o ganho contratado. “O importante é entender que a marcação a mercado pode gerar oscilações significativas no curto prazo, mas o retorno real está garantido para quem mantém até o vencimento”.

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Para quem está planejando alocação, Felipe Almeida sugere prudência e diversificação, evitando concentração excessiva em vencimentos muito longos. “Não indicamos colocar tudo na curva longa, pois quanto mais longo o título, mais arrojado, volátil e arriscado ele é”, alerta. Ele defende que “o comportamento do investidor não tem que mudar de acordo com a taxa, mas sim de acordo com a estratégia dele”. 

Harrison Gonçalves concorda com a seletividade nos prazos mais distantes, condicionando o sucesso desses papéis à responsabilidade fiscal do governo: “essa janela de juros reais mais equilibrados e alinhados com o resto do mundo depende de como o próximo governo vai se posicionar em relação à dívida pública”.