Conteúdo editorial apoiado por

Saiba como investir em ações, renda fixa, fundos e no exterior com Selic em 15%

Antecipando o início do ciclo de cortes, especialistas apontam os ativos que devem se valorizar em 2026

Leonardo Guimarães Élida Oliveira Angelo Pavini

Ativos mencionados na matéria

(Freepik)
(Freepik)

Publicidade

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu, nesta quarta-feira (28), manter a Selic em 15% ao ano. Para o mercado, não há novidade na decisão. Os agentes se concentram, agora, na próxima reunião, em março. Com a expectativa do início do ciclo de cortes, especialistas em investimentos já recomendam mudanças nas carteiras.

Na Bolsa, indicações de small caps e ações cíclicas ficam mais frequentes, enquanto a renda fixa pública ainda oferece uma janela para garantir rendimentos altos. Os fundos de tijolo devem ser beneficiado entre os fundos imobiliários e os multimercado devem se recuperar na indústria de fundos de investimento. 

Confira as recomendações de especialistas para cada classe após a última decisão do Copom:

Não perca a oportunidade!

Títulos públicos 

No Tesouro Direto, o investidor ainda tem a oportunidade de garantir rendimentos altos por mais tempo com prefixados e papéis de inflação. Camilla Dolle, head de renda fixa do Research da XP, afirma que os títulos do Tesouro IPCA+ servem tanto para carrego como para ganho de capital: “tem muita coisa para acontecer nesse ano no mercado e o investidor pode, eventualmente, ter um ganho de capital interessante antes do vencimento”. 

O time da XP recomenda duration de cinco a seis anos nos papéis de inflação. 

A perspectiva de fechamento da curva de juros em breve também favorece a alocação em prefixados. Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset diz que “os papéis com vencimento entre dois e três anos apresentam maior potencial de ganho de curto prazo”. 

Crédito privado 

Nos títulos emitidos por empresas, a preocupação dos especialista está na relação entre risco e retorno. “A assimetria do risco está menos favorável (para o investidor). O potencial de ganho para o crédito está cada vez mais limitado, enquanto o risco permanece igual”, diz Marcelo Soares, sócio da One Investimentos.

Com spreads amassados, a recomendação é focar em empresas posicionadas em setores defensivos, como energia e saneamento básico. “Temos visto boas oportunidades em debêntures incentivadas e fundos de infraestrutura, que permitem alocação em ativos que remuneram em juro real ao mesmo tempo em que mitigam os riscos de crédito, caso haja uma seleção criteriosa”, diz Daniel Pegorini, CEO da Valora. 

Para quem procura retornos maiores, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) surgem como opção. “Apesar de ser uma classe mais high yield, o aumento dos juros também elevou a taxa de desconto dos recebíveis, resultando numa equação positiva, avalia Pegorini.

Continua depois da publicidade

Ações

Para os investimentos na Bolsa, a recomendação é não tentar acertar o momento exato em que a virada de ciclo monetário afetará o valuation das empresas cíclicas. Especialistas dizem que é melhor ter empresas geradoras de caixa como base do portfólio para ter segurança ao investir em companhias consideradas mais arriscadas. 

Nesse contexto, as small caps se destacam. Rafael Espinoso, estrategista da Tivio Capital, explica que, historicamente, existe uma rotação de carteira depois de uma forte valorização do Ibovespa, o que deve favorecer empresas menores. Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital, recomenda a Randon (RAPT3), que, segundo ele, está muito barata, “refletindo um mau momento passado”, e deve ter melhoras “importantes” de balanço ao longo do ano.Bruno Corano, CEO da Corano Capital, aponta a Marcopolo (POMO4) como um destaque entre as small caps para os próximos 12 meses. 

Entre as empresas tratadas como “âncoras de estabilidade”, Fabio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, destaca a Prio (PRIO3) por sua capacidade de crescimento orgânico da produção e pagamento de dividendos. Ele ainda cita a Vale (VALE3) como forte geradora de caixa e Petrobras (PETR4), destacando o pagamento de dividendos e baixa dependência do ciclo doméstico. 

Continua depois da publicidade

Fundos de investimento

A proximidade de um ciclo de flexibilização monetária já altera o comportamento do investidor, que começa a buscar alternativas além do juro nominal elevado. De acordo com Fabio Zaclis, gestor da Daycoval Asset, a expectativa de queda na Selic tem redirecionado o apetite para fundos com estratégias claras e histórico de retorno, como os multimercados, que já registram fluxo em canais de autoatendimento atraídos pela rentabilidade recente.

Zaclis observa, contudo, que essa migração ainda enfrenta cautela em outros segmentos: “Quanto aos fundos de ações, apesar da excelente performance da classe em 2025, não observamos fluxos significativos. Os investidores parecem aguardar um cenário de juros mais próximos de um dígito ou evento eleitoral”, afirma o gestor, destacando que a alocação em multimercados torna-se ainda mais estratégica em anos de volatilidade.

Essa transição de ativos exige uma análise técnica distinta entre as classes de crédito privado e renda variável. Pedro Claudino, analista da Empiricus Research, explica que os fundos de crédito privado vivem um cenário de forças opostas: se por um lado a queda dos juros melhora o fundamento das empresas ao aliviar balanços e reduzir o risco de default, por outro, gera um efeito técnico de saída de recursos.

Continua depois da publicidade

“Há uma possibilidade de saída de fluxo de recursos do crédito privado para outros ativos de risco. Esse movimento acontece tanto porque os ativos de risco ganham atratividade, mas também por conta de uma redução na taxa nominal dos títulos privados”, pontua Claudino. Para mitigar o risco de resgates imediatos, o analista nota que muitos fundos de crédito já operam com caixa elevado e maior liquidez.

Já no universo dos multimercados e ações, a lógica é de antecipação e ajuste às expectativas. Enquanto os fundos de ações tendem a se beneficiar diretamente do menor custo de dívida das companhias e do fluxo redirecionado, os multimercados atuam de forma “agnóstica” ao cenário nominal.

Segundo Claudino, esses fundos não operam a queda de juros em si, mas o diferencial entre a realidade e o que o mercado precifica. “O importante é lembrar que os fundos multimercados operam, principalmente, as expectativas do mercado. Se um gestor multimercado acreditar que o ciclo de cortes vai ser mais intenso do que o mercado está precificando, ele monta operações aplicadas”, explica.

Continua depois da publicidade

Assim, a capacidade de gerar lucro dependerá da precisão dos gestores em ler se o corte projetado para março e o ciclo que se seguirá será mais ou menos agressivo do que o consenso atual.

Ações internacionais

A decisão de manutenção dos juros nos Estados Unidos não deve ser o principal vetor para as ações americanas no curto prazo, avalia Marcos Vinícius L. Laplechade de Oliveira, economista e analista sênior da ZIIN Investimentos. Por lá, o que vem fazendo preço e deve continuar fazendo é o contexto geopolítico. As novas escaladas do presidente americano Donald Trump, com ameaças tarifárias, têm contribuído para a desvalorização do dólar no mundo e colocado em curso o movimento conhecido como “Sell America”, com pressão vendedora sobre os mercados americanos e maior direcionamento de recursos para mercados emergentes e para commodities de forma geral.

Além disso, as tentativas de pressionar o Federal Reserve a reduzir os juros acabam contribuindo para um ambiente de maior incerteza institucional em relação à economia americana, o que tende a aumentar a aversão ao risco e pressionar ainda mais o mercado de ações por lá, afirma Oliveira.

A decisão do Fomc não trouxe surpresas, diz André Rosenblit, gestor de ações globais da Nest Asset Management. Assim, o impacto nos mercados tende a ser relativamente neutro. Os juros de longo prazo devem continuar precificando um corte apenas a partir de junho, enquanto as bolsas também devem reagir de forma contida à decisão. O dólar pode apresentar uma leve alta, já que a atratividade dos juros americanos permanece elevada.

Segundo ele, nesta reunião, o comunicado foi mais relevante que a decisão em si. Uma sinalização mais dovish, indicando cortes já em março ou maio, tende a impulsionar as bolsas globais e provocar queda nos juros e no dólar. O mercado também deve acompanhar atentamente a reação de Donald Trump. Exageros nas críticas, ameaças à independência do Fed ou ataques mais contundentes podem impactar negativamente os ativos. Além disso, não se pode descartar surpresas relacionadas ao debate sobre o futuro sucessor de Jerome Powell.

Para Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, o mercado americano estava sedento por sinais de que os cortes de juros podem começar nos próximos meses. Se isso acontecer, a reação tende a ser positiva especialmente para ações de crescimento, tecnologia e setores sensíveis ao custo de capital, como o varejo e a construção.

O mercado americano está mais confortável com a ideia de juros elevados por mais tempo, desde que haja uma previsibilidade, sem novas surpresas inflacionárias, diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável e sócio da Davos Investimentos.

Há o receio de um cavalo de pau do Fed, de ter de elevar novamente os juros. Mas o Fed não deve ter pressa em cortar os juros até mesmo porque haverá a troca do presidente do banco central americano este ano. Isso pode manter a tendência de favorecer a rotação dentro da bolsa americana, de trocar de crescimento e tecnologia por empresas companhias mais geradoras de caixa.

Ainda há dois cortes de juros pelo Fed no radar este ano, por isso Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, não vê grande impacto da manutenção das taxas hoje. Os juros estáveis devem manter a rotação de ativos já vista nos últimos meses, com muito fluxo estrangeiro sendo captado por países emergentes como Chile, Colômbia e Brasil.

Assim, ele não vê uma conjuntura tão positiva para as ações americanas por conta dos juros. Mas ele lembra que nesta semana começa a temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 das grandes empresas de tecnologia americanas, as Sete Magníficas e isso sim pode dar uma balançada um pouco maior nos mercados.

Fundos imobiliários

Os fundos imobiliários devem continuar oscilando na expectativa de cortes na taxa de juros em março, após o Copom deixar a Selic em 15%, avaliam analistas. Mesmo com a manutenção dos juros, uma leitura mais construtiva do comunicado, de quedas próximas, pode levar a um apetite maior para fundos imobiliários, diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável e sócio da Davos Investimentos.

Isso seria positivo principalmente para os chamados fundos de tijolos, que têm uma maior sensibilidade a juros de longo prazo. Boragini acredita que pode ocorrer uma reprecificação dos ativos mesmo antes da queda da Selic, esperada para março.

Já para os chamados fundos de papéis, o comportamento deve ser mais equilibrado, afirma Boragini. Eles seguem atrativos pelo rendimento, mas com menor potencial de ganho de capital imediato quando comparado aos fundos de tijolos.

Para Marcos Vinícius L. Laplechade de Oliveira, economista e analista sênior da ZIIN Investimentos, a decisão de hoje não altera a dinâmica de curto prazo para os fundos imobiliários, com o mercado mais focado na comunicação do Banco Central e em entender quando os cortes de juros irão começar e com que intensidade esse ciclo deve se dar.

Para os fundos imobiliários, esse ponto é particularmente relevante, afirma Oliveira. O índice Ifix, que reúne os fundos negociados em bolsa, já acumula valorização de cerca de 28% nos últimos 12 meses, e a continuidade desse movimento pode ganhar força caso o Banco Central sinalize cortes mais intensos do que o atualmente precificado.

Além disso, um fator-chave para essa classe é o comportamento dos juros reais, que hoje seguem em patamares extremamente elevados, acima de 7,5% ao ano. Uma eventual queda desse juro real tende a ser um catalisador importante para uma valorização mais acentuada dos fundos imobiliários, dado o alto grau de correlação entre essas variáveis, explica Oliveira.

No caso dos fundos imobiliários, as atenções estão mais concentradas nos juros futuros longos, diz Isabela Perez, head de RI da Rio Bravo Investimentos. “Temos notado um movimento de queda das taxas longas nos últimos dias e podemos observar essa tendência caso não haja estresse”, diz.

A continuidade da queda seria bastante positiva, diminuindo o prêmio de risco do país, o que tende a valorizar os ativos de risco, como os fundos imobiliários. Olhando para frente, Isabela acredita que esses fundos continuam sendo negociados no mercado secundário com descontos expressivos em relação aos seus valores patrimoniais e, em muitos casos, muito abaixo do custo de reposição de seus ativos. Dessa forma, os fundos imobiliários ainda possuem muito espaço para apreciação. “Em 2026, acreditamos que o segmento de tijolo deve se destacar, diante das expectativas de cortes futuros de juros e dos indicadores consistentes do setor”, diz Isabela.

Uma queda nas taxas de juros neste ano já foi meio que contratada pelo mercado de fundos imobiliários, diz Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. “Provavelmente a gente vai enxergar um movimento de redução da diferença entre o valor das cotas e seu valor patrimonial nos fundos de tijolos, com uma certa cautela em fundos de lajes corporativas”, diz, acrescentando que vê mais espaço para ganhos em galpões logísticos e shopping centers, apesar de já terem subido bastante no segundo semestre de 2025.