Rússia ganha, China sangra — e o Brasil sai ileso do caos no Oriente Médio

Diagnóstico foi apresentado durante live da XP Asset

Osni Alves

Ativos mencionados na matéria

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A Rússia virou do avesso sua posição no mercado de petróleo em questão de dias. De vender o barril com desconto de US$ 15 em relação ao mercado, o país passou a negociar com ágio de US$ 4. O motivo: o fechamento do Estreito de Ormuz, o corredor de 58 quilômetros por onde escoa 20% do petróleo mundial, após os ataques americanos ao Irã. Para Moscou, a desordem é lucro.

“A Rússia é o grande beneficiário dessa história”, afirmou Artur Wichmann, CIO da XP Inc, ao analisar os efeitos do conflito sobre as economias ao redor do mundo. A virada é brutal: num cenário em que o barril chegou a romper os US$ 90 — vindo de uma faixa entre US$ 60 e US$ 70 —, quem exporta petróleo sem depender do Estreito está numa posição radicalmente diferente de quem precisa que ele fique aberto.

O diagnóstico foi apresentado na live mensal da XP Asset, com a participação do economista Thales Maion e do gestor de indexados Danilo Gabriel. O conflito entre Estados Unidos e Irã dominou boa parte do debate — mas o que chamou atenção foi a análise sobre quem sai ganhando e quem leva o choque direto no Produto Interno Bruto (PIB).

Para organizar o raciocínio, Wichmann recorreu ao conceito de “antifrágil”, de Nassim Taleb: há países que se fortalecem com a desordem e países que quebram com ela.

Os que sangram

Na ponta mais exposta, estão China, Índia, Coreia do Sul e Japão. Todo o petróleo que abastece esses países passa pelo Estreito de Ormuz — ou passava, antes do bloqueio. A Europa sofre por outro canal: o gás natural. O resultado foi imediato nos mercados. “O mercado da Coreia caiu 18%”, lembrou Wichmann. Os asiáticos e europeus foram os que mais sofreram na largada, disse, em referência aos mercados na virada do domingo para segunda, no horário de Brasília, antes do presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que a guerra com o Irá será “curta”.

A situação da China preocupa em especial. “Ela está num processo de desaceleração, acabou de revisar sua meta de crescimento para baixo e sofreu um choque de oferta. É exatamente o que ela não precisa a essa altura do campeonato”, disse o CIO. Um choque de oferta negativo empurra preços para cima e produto para baixo — o pior dos mundos para uma economia já em dificuldade.

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Há ainda um elemento geopolítico relevante: o Estreito fechado prejudica a China de tal forma que Wichmann chegou a especular, com ironia, sobre uma possível reação de Pequim. Para ele, não seria de surpreender se destróieres chineses aparecessem na região para garantir a passagem dos petroleiros — mas isso não aconteceu. A pressão sobre Pequim para que o conflito acabe rápido, no entanto, é real.

O livro-texto da macroeconomia diz que choques de oferta transitórios não exigem resposta dos bancos centrais: basta esperar passar. O problema, como a pandemia e a guerra na Ucrânia ensinaram, é quando o choque contamina as expectativas de inflação — e aí a situação muda de figura completamente.