Onde Investir 2022

Renda fixa, ações ou ativos globais? Especialistas explicam como montar uma carteira, e não um “catado” de investimentos

Com a volatilidade esperada em 2022, é preciso priorizar objetivos e perfil de risco, em vez de buscar ativos “matadores” ou acertar hora exata da aplicação

Por  Luciana Del Caro -

O ano de 2022 é de grandes incertezas na economia. Mas ao menos uma coisa é dada como certa pelos especialistas em investimentos: é preciso montar a sua carteira a partir dos seus objetivos e do seu perfil de risco. Tentar acertar o momento certo de entrar e sair dos mercados ou buscar os ativos “matadores”, campeões de rentabilidade, é uma atitude que sempre tem boas chances de dar errado – ainda mais em momentos de muita oscilação nos mercados, como este ano promete ter.

“As pessoas em geral acabam tendo excesso de ansiedade e falta de conhecimento, e montam ‘catados’ de ativos, e não carteiras de investimentos. É muito na base de qual é a bola da vez, o ativo da vez, sem técnica, estratégia e disciplina”, afirmou Rodrigo Sgavioli chefe da área de alocação e fundos da XP, durante a live Como montar uma carteira para encarar o ano de eleições, que abriu o evento Onde Investir 2022 – promovido pelo Infomoney, em parceria com a XP Investimentos – na noite de segunda-feira (10).

Em vez de tentar acertar o ativo da vez (o que depende em grande medida da sorte), os gestores de patrimônio olham para o longo prazo para construir as carteiras, baseando-se no perfil dos clientes e nos seus objetivos. Patrícia Palomo, sócia Sonata Gestão de Patrimônio, considera que é necessário montar a carteira de olho em períodos mais longos, buscando identificar, para cada investidor, qual é o retorno suficiente para que ele construa seu patrimônio e realize seus projetos

Isso evita, na visão de Patrícia, que o investidor corra riscos para os quais ele não está preparado. A partir daí, o investidor pode buscar no mercado as alternativas com mais chances de oferecer esse retorno no longo prazo. “A gente sempre está tentando buscar qual é o retorno maior deste ano. Sinceramente, sabe quando a gente vai saber disso? No ano que vem”, afirmou.

Na Taler Gestão de Patrimônio, o ponto de partida para montar a carteira do cliente é o seu momento de vida e o seu horizonte, contou Mari Emmanouilides, sócia e CEO da empresa. Se o investidor precisa complementar o seu fluxo de caixa, por exemplo, é necessário buscar ativos que gerem renda. Já se ele ainda está construindo seu patrimônio, o objetivo é obter ganhos de capital por meio de investimentos de longo prazo. Por isso, a carteira costuma ser dividida em três classes de ativos: líquidos, imobilizados e participações acionárias.

O que se espera da renda fixa?

E o que os especialistas esperam para as principais classes de ativos neste ano eleitoral, com grandes incertezas com relação à política econômica do próximo governo e com a expectativa de elevação dos juros nos Estados Unidos? A renda fixa vem ganhando mais apelo, mas os investimentos em ações, desde que bem escolhidas, também são considerados boas alternativas para aqueles com foco no longo prazo.

Sgavioli considera que, se não houver surpresas negativas vindas do setor elétrico e nem com os preços das commodities energéticas, a inflação brasileira deverá começar a ceder, beneficiando a renda fixa. Isso porque os juros já estão altos e devem subir ainda mais, ao mesmo tempo em que a inflação tende a começar a ceder.

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Com isso, dificilmente deverá se repetir o que aconteceu em 2021, quando todos os ativos brasileiros perderam para o IPCA, fora os BDRs (recibos de ações estrangeiras negociadas na B3) e o Bitcoin.

Ele lembra que investidores ultraconservadores, que investiam apenas em ativos pós-fixados, vêm de momentos duros porque estavam perdendo para a inflação há meses. “Esse investidor vai ter os próximos meses de respiro, vai colocar a cabeça fora d’água”, afirmou Sgavioli. Para ele, para esse perfil, não faz sentido aumentar os ativos de risco porque o momento é de incertezas.

Na renda fixa, para as carteiras conservadoras, Sgavioli vem recomendando os títulos pós-fixados – os Tesouro Selic negociados no Tesouro Direto – com vencimentos de 2024 até 2027, e emissões privadas a 110% do CDI e prazos não muito longos.

Outra recomendação tem sido a de títulos que pagam IPCA acrescidos de spreads (Tesouro IPCA ou emissões privadas), mas não nos vencimentos mais longos. Ele considera que ainda é cedo para aumentar as alocações em prefixados, mas que isso talvez possa ser feito em dois ou três meses, quando o cenário para a inflação estiver melhor definido, se os títulos estiverem pagando por volta de 12% ao ano.

Já Patrícia, da Sonata, vem recomendando títulos públicos ou privados que pagam IPCA mais juros, que garantem retorno acima da inflação – eles são a maior parte da alocação em renda fixa. Ela considera que manter uma parcela em prefixados também pode ser interessante, uma vez que, se a inflação cair, os juros também podem ser reduzidos no futuro.

Embora a indicação seja a de que a inflação ainda vai persistir por algum tempo, ela considera que há sinais de que o IPCA deverá recuar em algum momento. “Não adianta migrar 100% da carteira hoje para os pós, porque se o remédio der certo, vai poder ser tirado”, afirmou.

Ou seja, se a alta dos juros funcionar para reduzir a inflação, o movimento futuro pode ser na direção contrária – de redução dos juros, o que turbina o rendimento dos prefixados. Se o investidor deixar para fazer isso mais tarde, no entanto, os preços dos prefixados já não estarão tão atrativos como agora.

Ações brasileiras ou investimentos internacionais?

E quanto à Bolsa? Mari, da Taler, disse que no ano passado a recomendação foi para fazer reduções táticas na renda variável, mas não sair dela, e que espera ir aumentando aos poucos as posições ao longo desse ano.

“Quando o mercado retoma, retoma em velocidade muito grande, e há trabalhos estatísticos que mostram que, se você não estiver alocada, vai perder o melhor momento para fazer a volta para esse mercado”. Além disso, há a questão dos preços: no atual patamar, e para aqueles com foco no longo prazo e com perfil condizente, ela considera que investidores poderão fazer ótimos negócios.

Para aqueles com maior propensão a risco, a recomendação feita por Sgavioli em 2021 foi para aumentar a participação em ações no exterior e reduzir na bolsa local. Agora, ele avalia que os retornos esperados para a renda variável internacional são menores do que o prêmio de risco do mercado local (uma vez que nossa bolsa está em patamares baixos). Para ele, o investimento em ações locais não deve ser no Ibovespa, e sim em uma seleção de empresas que vão se beneficiar e sobreviver no ambiente de juros mais elevados.

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Ou seja, a melhor estratégia seria a de stock picking (seleção de ações), já que há analistas e gestores que conseguem identificar ações com valores atrativos e potencial de valorização alto. “Acredito no poder de escolhas de boas empresas para a renda variável”, afirmou.

Mari considera que o desejável num portfólio de liquidez é que de 30% a 40% esteja alocado no mercado internacional, mas diz que essa alocação deve ser feita aos poucos, uma vez que é muito difícil acertar o momento mais vantajoso para o câmbio. A executiva ressaltou que é importante atentar para a diversificação, evitando, por exemplo, aplicar no exterior, mas apenas em títulos de empresas brasileiras.

Vale investir em criptomoedas?

Com relação às criptomoedas, na Taler e na Sonata não há indicação desses ativos para os investidores. Na Taler, o assunto é acompanhado, mas a ausência de regulamentação desse mercado é um fator que o afasta dele. Na Sonata, a preferência é por investir em empresas que dão suporte a essa tecnologia (como prestadores de serviços), mas não nas criptomoedas em si.

Na XP, a partir do mês que vem, a carteira sugerida de investimentos para os perfis mais arriscados e com horizonte de investimento mais longo (de quatro anos) terá um percentual de 1% a 3% em criptoativos. Sgavioli disse que a sugestão será a de investir por meio de ETFs (fundos de índices listados na Bolsa) ou de fundos de investimentos regulados pela Instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários que invistam também em ativos reais.

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