Real forte abre janela rara para montar proteção em ativos no exterior

Com a moeda brasileira valorizada frente ao dólar, investidores conseguem montar posições globais a um custo menor e ganhar proteção caso o câmbio volte a se inverter

Osni Alves

O fortalecimento do real frente ao dólar cria uma oportunidade que, segundo especialistas, raramente se repete: comprar ativos internacionais com a moeda brasileira valorizada e, assim, se proteger de uma eventual reversão cambial no futuro. Para quem ainda não tem nenhum investimento fora do Brasil, a mensagem é direta — o momento é agora.

O argumento ganha peso quando se olha para a história. Nos últimos dez anos, o dólar se valorizou consistentemente frente ao real. O período atual, de relativa estabilidade da moeda brasileira, representa uma exceção — e exceções, por definição, não duram para sempre. Quem aproveitar a janela para diversificar internacionalmente sai em vantagem se o câmbio voltar a se mover contra o real.

É esse o recado central que Isabella Nunes, responsável pela área de distribuição da gestora JPMorgan Asset Management, braço de gestão do banco JPMorgan Chase, trouxe ao encerramento da Semana de Renda Fixa, evento promovido pela XP e apresentado pela analista Carol Freitas.

“Não é ou renda fixa global ou renda fixa local. O que estamos promovendo é pensar de forma mais ampla, num mercado infinitamente maior e com muito mais liquidez do que temos aqui no Brasil”

— Isabella Nunes, responsável pela área de distribuição da gestora JPMorgan Asset Management.

A divergência entre os principais bancos centrais do mundo reforça esse raciocínio. Enquanto o banco central americano, o Fed, prefere esperar por mais dados antes de mexer nos juros, o banco central europeu inclina-se a elevar as taxas para conter a inflação.

Esse movimento tende a enfraquecer o dólar frente ao euro e a outras moedas de países desenvolvidos — e faz do ouro uma proteção cada vez mais procurada em momentos de instabilidade.

Juros lá fora voltaram a render

Por muitos anos, investir em renda fixa fora do Brasil era quase sinônimo de sacrifício: os juros nos países ricos estavam próximos de zero — ou até negativos.

Nesse cenário, sair do mercado local significava trocar rentabilidade por proteção cambial, uma troca que poucos consideravam vantajosa.

Esse quadro mudou de forma estrutural. Hoje, dependendo do prazo e da qualidade do título escolhido, é possível obter retornos entre 4% e 7% ao ano em papéis internacionais.

O mercado americano de títulos de alto rendimento, por exemplo, paga cerca de 7% ao ano — uma geração de renda que seria impensável há menos de uma década.

Inteligência artificial

A inteligência artificial fecha o trio de transformações que estão redesenhando o mapa dos investimentos globais.

Ainda concentrada nas grandes empresas de tecnologia, a tecnologia deve se espalhar progressivamente por outros setores — e seus efeitos sobre lucros, empregos e estratégias de negócio ainda estão sendo assimilados pelos mercados.

Outro movimento importante é a descentralização. Se antes o mundo financeiro girava quase exclusivamente em torno dos Estados Unidos, hoje Europa, Japão e países emergentes — especialmente na Ásia e na América Latina — oferecem oportunidades distintas.

A América Latina, especialmente, tende a se beneficiar da alta das matérias-primas, enquanto países asiáticos, mais dependentes da importação de energia, sofrem mais com o encarecimento do petróleo.