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Quando vale a pena investir em estatais? Guilherme Affonso Ferreira, da MOS Capital, e Pedro Chermont, da Leblon Equities, respondem

Investidores participaram de live durante o evento Melhores da Bolsa 2021

SÃO PAULO – Pelo risco intrínseco de ingerência política ao qual estão submetidas, as ações de empresas estatais, de modo geral, negociam nas bolsas com algum desconto em relação aos pares privados, historicamente.

Em determinadas ocasiões, em o que o preço dos papéis dessas empresas parece em nível excessivamente descontado, mesmo para uma estatal, podem surgir boas oportunidades para ganhar dinheiro com o investimento.

Esse, contudo, não parece ser o caso agora. Ao menos com base na percepção de Guilherme Affonso Ferreira, investidor e sócio da gestora MOS Capital, e de Pedro Chermont, sócio e CIO da Leblon Equities.

Durante participação em live na noite desta terça-feira (29) no evento Melhores da Bolsa 2021, do InfoMoney, para debater o investimento em ações de companhias estatais, ambos disseram que, a priori, não enxergam grande valor em alocar capital em companhias cujo controlador é o governo.

“Em geral, [as estatais] são excelentes empresas, com bons quadros, e um péssimo dono. A resultante disso tudo cada um é que vai ter que concluir. Acho que um dono ruim dificilmente toca um negócio bem”, afirmou Affonso Ferreira, que fez parte do conselho de administração da Petrobras de 2015 a 2018.

Na mesma linha, Chermont assinalou que, pela filosofia de análise fundamentalista com horizonte de longo prazo com que trabalha, encontra grande dificuldade de ter estatais no portfólio dos fundos, por se tratarem de negócios que, por motivações políticas de distintas naturezas, nem sempre visam maximizar o retorno aos acionistas.

“Como investidor de longo prazo, [ao investir em estatais] você acaba ficando à mercê do controlador da ocasião”, afirmou Chermont. “Tenta-se blindar, mas, na prática, quem manda na empresa é o presidente da República”, acrescentou o CIO da Leblon Equities

Janelas de oportunidade

Isso não significa que não possa haver exceções de caráter mais tático em situações pontuais, disse Chermont, que citou como exemplo o fim do governo Dilma Rousseff, em meados de 2016.

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Na ocasião, com a visão de adoção de uma agenda de viés liberal pelo novo governo, e com os preços das estatais na Bolsa em níveis considerados excessivamente descontados, Chermont entendeu que valia a pena abrir espaço para ter algumas dessas companhias na carteira dos fundos.

O investimento em ações de Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras, recordou o gestor, chegou a representar cerca de 25% dos portfólios da casa naquele momento.

Chermont ainda carregava, até o início de 2021, os papéis da petroleira e do banco estatais, já com uma fatia menor da carteira, ao redor de 10%, mas acabou optando por se desfazer completamente das duas posições em meio ao aumento do risco político percebido ao longo dos últimos meses.

“Quando tem um controlador que tem opiniões fortes, que não necessariamente vão levar a empresa ao melhor caminho do ponto de vista de geração de valor para o acionista, e dado que entendemos claramente que quem manda é o acionista controlador, o presidente da República em última instância, e é muito difícil fazer uma avaliação do nível de racionalidade desse acionista controlador, acho que passa a ser um risco que não dá para administrar”, afirmou o gestor da Leblon Equities.

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Já Ferreira, da MOS Capital, observou que, apesar do risco de desmandos políticos que sempre acompanha as estatais, tem percebido o peso da opinião pública cada vez mais presente, dando sua contribuição para o desenvolvimento dessas companhias na direção correta. “Em uma democracia, o controlador das estatais é muito suscetível à opinião pública”, afirmou.

O investidor salientou ainda que, para ser bem-sucedido na Bolsa, não necessariamente é preciso selecionar qual será a melhor empresa do mercado nos próximos anos, mas sim aquela que, frente às perspectivas de crescimento para o seu negócio, está com as ações mais baratas. “Tudo tem seu preço”, disse Ferreira, acrescentando não haver estatais nas carteiras dos fundos da MOS neste momento.

Por fim, questionado se prefere comprar uma estatal barata ou uma empresa privada cara, Chermont disse que fica com a segunda opção, e usou uma frase atribuída a Warren Buffett ao justificar o raciocínio. “É muito melhor comprar uma empresa maravilhosa por um preço razoável, do que uma empresa razoável por um preço maravilhoso.”

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Em 2021, até maio, o fundo Leblon Ações FIC de FIA rende 4,1%, contra a alta de 6% do Ibovespa no período. Em 12 meses, a valorização da carteira é de 33,9%, ante 44,4% do benchmark.

Já o MOS FIA marca 0,2% negativo no acumulado do ano, com ganhos de 16,2% em 12 meses.

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