Previdência privada ultrapassa R$ 1,7 tri e vira motor de investimento sofisticado

O setor passou por duas grandes viradas nos últimos anos

Osni Alves

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A indústria de previdência privada no Brasil vive uma transformação silenciosa, mas de proporções históricas. Com mais de R$ 1,7 trilhão sob gestão — número que salta para R$ 3 trilhões quando somado aos planos fechados —, o setor já representa 30% do Produto Interno Bruto do país e deixou para trás a imagem de uma poupança turbinada para se tornar um dos veículos de investimento mais completos do mercado.

A avaliação é de Samer Serhan, sócio e diretor de investimentos de Crédito Privado, Infraestrutura e Previdência da JiveMauá, gestora com mais de R$ 1 bilhão alocado em produtos previdenciários. Para ele, o setor passou por duas grandes viradas nos últimos anos — uma do lado do investidor e outra do lado dos gestores —, e o resultado é uma indústria irreconhecível em relação ao que existia há uma década.

Serhan participou da “Semana de Previdência”, programa da XP Investimentos apresentado por Leandro Bezerra, do time de parcerias da plataforma de fundos da corretora, e pela analista Clara Sodré. No bate-papo, os especialistas detalharam as mudanças regulatórias, os riscos do cenário atual de crédito e as oportunidades que estão surgindo dentro dos planos PGBL e VGBL.

Oportunidade com segurança!

“A previdência era uma poupança com um grau a mais de sofisticação, ou então era um instrumento de planejamento tributário para famílias ricas. Isso mudou. Hoje ela é um instrumento de investimento para manter poder de compra, gerar renda e ganho patrimonial”

— Samer Serhan, sócio e diretor de investimentos de Crédito Privado, Infraestrutura e Previdência da JiveMauá.

As leis que mudaram o jogo

Do lado do investidor, Serhan destacou duas resoluções publicadas pelo Conselho Nacional de Seguro Privado (CNSP) — órgão equivalente ao Conselho Monetário Nacional no universo de seguros —, a CNSP-363 e a CNSP-364. A mudança central foi permitir que o participante do plano defina como vai receber sua renda apenas quando se aproximar da aposentadoria, e não mais no momento em que assina o contrato, às vezes décadas antes.

“Com 30 ou 40 anos de antecedência, quando você começa a contribuir para o PGBL ou o VGBL, você não tem a menor ideia de como vai estar o mundo, a sua vida, se você vai querer renda ou distribuição de patrimônio”, explicou o gestor.

Já para os gestores, o marco foi a resolução 4.444, de 2015, que aproximou os planos previdenciários dos fundos de investimento convencionais e abriu espaço para o que o mercado chama de arquitetura aberta — ou seja, a possibilidade de o investidor escolher entre produtos de diferentes gestoras, e não apenas os oferecidos pelo seu banco.

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“Antes de 2015, a previdência era basicamente um produto para comprar no banco. O gerente de conta dizia: ‘faz um plano de previdência que vai te render 72% do CDI pelo resto da vida’. Era essa a única opção”, lembrou Serhan.

Crédito estruturado ganha espaço

Em 2022, uma nova consolidação regulatória — a resolução 4.993 — reuniu em um único documento todas as normas que regiam os investimentos dos fundos previdenciários, dividindo as classes de ativos em cinco categorias: renda fixa, ações, imóveis, câmbio e outros. Para Serhan, a medida deu mais clareza aos gestores sobre o que podem ou não fazer com o dinheiro dos segurados.

Hoje, a JiveMauá ocupa ao máximo os limites regulatórios em classes como os Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs) — que têm teto de 25% da carteira — e debêntures de infraestrutura, ativos que o gestor considera os mais adequados para o perfil de longo prazo da previdência.

“O passivo mais comportado com viés de longo prazo da previdência combina muito bem com debêntures de infraestrutura, que têm durações mais alongadas, estão normalmente indexadas à inflação e conectadas a projetos com receitas estáveis por décadas”, disse Serhan.

Ele defende, no entanto, que há espaço para avançar. O limite de 25% para FIDCs, por exemplo, poderia subir para 50%, com controle por emissor em vez de limite global para a classe. “Essa é uma inovação que a indústria já está pedindo. Os FIDCs se provaram um instrumento de securitização muito resiliente, com baixíssima volatilidade mesmo nos ciclos mais negativos de crédito.”