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Avanço para além dos bancos

Previdência: novos planos de gestoras independentes, como Verde, SPX e Sparta, somam R$ 36 bilhões

Tamanho dos fundos, limites de alocação e liquidez ainda são apontados como desafios para o mercado, apesar da maior flexibilização de alocação

(Shutterstock)

SÃO PAULO – Enquanto o sistema previdenciário brasileiro caminha para uma mudança de peso depois de longo processo de tramitação no Congresso brasileiro para aprovar uma reforma ampla, o mercado de previdência complementar – de planos vendidos por bancos e gestoras independentes – passa por significativa transformação.

Em meio a mudanças nas regras feitas ao fim 2015, que flexibilizaram as normas de alocação de planos de previdência privada, as gestoras independentes, ou seja, que são desvinculadas dos maiores bancos brasileiros (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú, Santander e Safra), têm apostado nesse filão para crescer em um segmento que tem espaço de sobra para a concorrência.

Um estudo feito pela provedora de informações financeiras Economatica revela que, desde 2016, as gestoras independentes lançaram R$ 36 bilhões em previdência. É pouco perto do que lançaram as grandes instituições (R$ 157 bilhões no mesmo período), mas muito em relação ao que as independentes faziam no passado.

O estoque total dos planos de previdência chegou a R$ 823 bilhões no fim de outubro, dos quais R$ 743 bilhões, ou 90%, ainda concentrados nos grandes bancos.

Não à toa, boa parte do crescimento das casas independentes desse mercado tem acontecido a reboque de uma transferência de recursos dos grandes bancos, facilitada pela simplicidade da portabilidade e também pelo modelo de distribuição, a partir das plataformas.

Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que, desde o fim de 2016 até outubro de 2019, o volume de pedidos cedidos de portabilidade aumentou em 114%, para cerca de R$ 25 bilhões. Em termos de quantidade, o número disparou, de 87,5 mil para quase 690 mil portabilidades em agosto (último dado disponível).

Dentre as estratégias, é notório o crescimento da oferta de fundos multimercados e, em menor escala, de ações. Pelas regras atuais, investidores podem aplicar em fundos de previdência com alocação de até 70% em ações, fatia que aumenta para 100% no caso de qualificados, isto é, aqueles com pelo menos R$ 1 milhão em ativos financeiros.

No grupo dos maiores lançamentos feitos por gestoras independentes desde o início de 2016, figuram a Verde, de Luis Stuhlberger, com R$ 7,9 bilhões; a SPX, de Rogério Xavier, com R$ 3,6 bilhões; e a Sparta, focada em renda fixa, com R$ 3,5 bilhões.

Já na lista dos grandes bancos, as primeiras posições em termos de planos de previdência lançados eram ocupadas de longe pela BB DTVM, do Banco do Brasil, com R$ 87,3 bilhões; e pelo Itaú Unibanco (com a Kinea incluída), com quase R$ 58 bilhões. O Santander ocupa a terceira posição, com R$ 6,6 bilhões. Em termos de estoque, a Bram, do Bradesco, lidera, com cerca de R$ 210 bilhões em previdência ao fim de outubro deste ano.

Para o cálculo, foi considerado o patrimônio de todos os fundos de previdência ativos, com a exclusão do total alocado em cotas de outros fundos (para evitar a dupla contagem), com exceção de fundos estruturados (fundos imobiliários, FIPs e FDICs).

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No grupo das casas desvinculadas das grandes instituições financeiras, a Brasil Capital está nessa nova leva do setor previdenciário. A gestora lançou seu primeiro fundo de previdência (Brasil Capital 70 XP Seg Advisory Prev FIM) em agosto, com aplicação mínima de R$ 10 mil.

Segundo o sócio Felipe Graner, a ideia é refletir a carteira do fundo de ações Brasil Capital 30 FIC FIA, mas com até 70% em Bolsa e sem investimento no exterior, limitação imposta a fundos de previdência. “Mas como nosso foco é em ações de empresas brasileiras, a questão fica meio irrelevante”, diz Graner, que indica que a gestora tem planos de lançar um fundo 100% voltado para investidores qualificados, com maior flexibilidade de alocação.

Limitações na previdência

Marcelo Giufrida, sócio e CEO da Garde, avalia que, apesar dos avanços, a legislação ainda segue um pouco restritiva, sem a mesma liberdade de atuação dos gestores nos fundos que não são de previdência. “Os produtos precisam se adaptar e ficam um pouco ‘sub ótimos’ em relação à indústria de fundos como um todo. Você não tem um produto só de ações, há limitações do porcentual de exposição e de alavancagem”, pontua.

O problema, contudo, poderá ter soluções com o tempo, a partir do desenvolvimento da indústria e com avanços também da fusão entre Susep e Previc, assinala o ex-presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais). “Talvez daqui a um tempo tenhamos uma legislação de previdência mais em linha com a CVM.” A Garde lançou seu primeiro fundo de previdência, o Aramis, em agosto de 2018.

Outro desafio do setor, apontado por Sergio Silva, sócio da AZ Quest, diz respeito ao tamanho dos fundos. “A previdência não pode fechar, apenas para novos cotistas, o que pode trazer algumas travas mais à frente”, observa. “Se o mercado crescer muito, vai ser um desafio de gestão também para os independentes.”

Um dos responsáveis pela estratégia macro da Az=Z Quest, Silva vê na portabilidade uma chance para investidores olharem para bons gestores do segmento, com acesso a produtos de mais qualidade e maior volatilidade. Hoje a AZ Quest tem fundos de previdência nas estratégias de renda fixa e multimercado e, segundo Silva, é muito provável o lançamento algum produto de Bolsa também.

Além dos limites de alocação e das preocupações com relação ao tamanho que os fundos de previdência podem atingir, Ulisses Nehmi, CEO da gestora de crédito privado Sparta, aponta um terceiro elemento: a liquidez. “Hoje você não consegue fazer um fundo de previdência com prazo D+30”, assinala, destacando o engessamento das estratégias, dada a possibilidade de resgate diário pelos cotistas.

(Colaboraram Mariana d’Ávila e Pedro Ladislau Leite)

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