De “bater o mercado” ao controle de risco: livro detalha a nova lógica dos gestores

Giuliana Napolitano, coautora da série Fora da Curva, traz os bastidores e os principais aprendizados extraídos das entrevistas com alguns dos nomes mais influentes do mercado financeiro

Osni Alves

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O mercado financeiro brasileiro viveu, nos últimos anos, um processo acelerado de sofisticação. Estratégias antes restritas ou inexistentes ganharam espaço, gestores se tornaram mais especializados e o discurso fácil de “bater o mercado” deu lugar a uma obsessão quase unânime: controle de risco. Esse é o pano de fundo mais quente do novo volume da série Fora da Curva, que reúne histórias de investidores e empreendedores capazes de atravessar diferentes ciclos econômicos mantendo consistência de resultados.

Ao contrário da imagem romantizada do investidor genial que sempre acerta, os relatos revelam trajetórias marcadas por erros, perdas relevantes e decisões difíceis. O diferencial, segundo os próprios personagens, está menos em prever o futuro e mais em sobreviver aos períodos adversos. Em um ambiente cada vez mais competitivo, gerar retorno passou a exigir conhecimento profundo, leitura apurada de riscos e capacidade emocional para suportar volatilidade extrema.

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Essa mudança de perfil também reflete a transformação do próprio mercado. Fundos focados apenas em ações ou multimercados dividiram espaço com estratégias de infraestrutura, special situations, legal claims e investimentos altamente especializados. O investidor brasileiro, antes concentrado em poucas classes de ativos, passou a conviver com uma indústria mais complexa e técnica.

É nesse contexto que o programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, recebeu a jornalista Giuliana Napolitano, coautora da série Fora da Curva, para discutir os bastidores do projeto e os principais aprendizados extraídos das entrevistas com alguns dos nomes mais influentes do mercado financeiro.

Da “nova curva” à especialização extrema

O mais recente volume, batizado de Fora da Nova Curva, se diferencia dos anteriores justamente por retratar esse novo estágio da indústria. “O mercado se sofisticou muito e os gestores se especializaram. Estratégias que eram inexistentes ou muito pequenas quando começamos o projeto hoje são relevantes”, afirmou. Segundo ela, a obra busca mostrar não apenas trajetórias pessoais, mas também como esses profissionais geram retorno em nichos pouco explorados.

Entre os exemplos citados estão gestores que apostaram em infraestrutura ou disputas judiciais complexas como fonte de retorno. “São práticas que, às vezes, não têm nada a ver uma com a outra, mas que mostram como a especialização virou um diferencial competitivo”, disse. Para a jornalista, esse movimento também evidencia a maturidade do mercado brasileiro.

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Um dos trechos que mais chamaram sua atenção vem de Daniel Goldberg, da Lumina Capital. “Ele diz que não acredita em gerar retorno sendo apenas mais inteligente que os outros. O mercado está povoado demais para isso. O diferencial está no conhecimento único e na especialização”, relatou Giuliana. A mesma lógica aparece em casas tradicionais que migraram parte do capital para estratégias quase exclusivas.

Essa diversidade de abordagens amplia a visão do investidor, acostumado durante anos a ouvir basicamente histórias de ações e multimercados. “O livro ajuda a abrir a cabeça para novas formas de investir e entender como o retorno pode ser construído”, afirmou.

Controle de risco: o traço comum entre vencedores

Apesar das diferenças de estratégia, um ponto aparece de forma recorrente em todos os volumes da série: a obsessão pelo controle de risco. “Isso vale para todos os livros. É quase unânime”, disse Giuliana. Segundo ela, os gestores reconhecem que correr risco é inevitável, mas defendem que nenhuma aposta pode comprometer a sobrevivência do investidor.

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Ela citou o caso de André Jakurski, conhecido por investimentos extremamente concentrados quando tem convicção. “Ele defende entrar com tudo quando encontra uma grande oportunidade, mas, ao mesmo tempo, é obcecado por não correr um risco que possa acabar com o patrimônio”, explicou. Para os entrevistados, perder tudo significa sair definitivamente do jogo.

Outro gestor citado foi Léo Linhares, que resume essa mentalidade em uma frase marcante: “Só os paranóicos sobrevivem”. A ideia é estar constantemente atento aos riscos macroeconômicos, setoriais e operacionais para entregar retorno consistente ao longo do tempo.

Giuliana também destacou que o livro foi produzido em um momento em que a gestão de recursos enfrentava desconfiança, com investidores preferindo títulos públicos e ativos isentos. “Isso é uma fotografia de um período curto. Quando você olha a história desses gestores, são pessoas que geraram retorno consistente em vários ciclos diferentes”, afirmou.