Por que as pessoas poupam tão pouco?

Estudo apresentado em seminário no Ibmec sugere que a falta de motivação e de racionalidade das pessoas estaria por trás deste padrão de comportamento

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SÃO PAULO – O hábito de poupar, apesar de fundamental para o desenvolvimento da economia mundial e conseqüente evolução da sociedade moderna, ainda é relativamente pouco difundido entre a maior parte das pessoas; sobretudo em países como o Brasil, onde o baixo nível de renda per capita deixa uma grande parcela da população sem qualquer folga para investimentos.

Esta restrição orçamentária, contudo, embora relevante, não deve ser encarada como o único fator contrário ao aumento da poupança privada da população, uma vez que tendência semelhante pode ser verificada entre as classes de maior poder aquisitivo.

Comportamento influenciando o investimento

Para compreender o porquê da dificuldade das pessoas de abrirem mão de consumir hoje, em troca de maior poder aquisitivo no futuro, o professor da Universidade de Princeton, Harrison Hong, acredita que seja preciso analisar também os fatores comportamentais que regem as decisões financeiras da maior parte das pessoas.

Em seminário internacional, promovido pelo Ibmec São Paulo, nesta terça-feira (7), Harrison Hong afirmou que a análise do impacto destes conceitos psicológicos nos hábitos financeiros das pessoas é particularmente relevante porque leva em consideração o caráter dinâmico, inconstante e pouco racional dos agentes que integram o sistema econômico.

No caso da poupança, o professor acredita que existem basicamente dois obstáculos à prática: a baixa motivação das pessoas de abrirem mão do consumo hoje em favor de consumirem no futuro, e a pouca racionalidade na hora de planejar o futuro financeiro. Ou seja, a decisão dos investidores nem sempre se pauta em informações consistentes, já que, “as pessoas tendem a pensar que sabem mais do que efetivamente sabem”.

Falta educação financeira

O raciocínio é simples: como grande parte da população não tem acesso à educação financeira básica, acabam não compreendendo bem as vantagens de se adiar o consumo presente em benefício de uma renda futura.

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A combinação destes dois fatores aciona uma espécie de bomba-relógio que irá explodir muitos anos mais tarde, gerando prejuízos tanto para o indvíduo quanto para os cofres públicos, visto que, sem qualquer planejamento financeiro ou proteção previdenciária, muitas pessoas acabam necessitando da assistência do Governo para sobreviver.

Pelo fato da maioria das pessoas não demonstrar interesse de poupar no longo prazo, o professor Hong sustenta a tese de que existe a necessidade de um pequeno controle governamental no que diz respeito, ao menos, à garantia de cobertura previdenciária mínima. Na opinião do acadêmico, esta seria a única maneira de “incentivar” a poupança de longo prazo que busque garantir maior tranqüilidade financeira na aposentadoria.
Falta motivação para investir

Na tentativa de comprovar suas afirmações, o professor Harrison Hong apresentou uma pesquisa, baseada em dados do mercado norte-americano, que indica que mais da metade dos funcionários norte-americanos, que participam de algum plano previdenciário corporativo, se aposentaram alocando o mesmo montante aplicado desde o primeiro dia de trabalho.

Os números sugerem que, para essas pessoas, poupança é algo compulsório, e não uma oportunidade de investimento. Mais ainda, ao contrário do que seria de se esperar, as contribuições não aumentaram com o passar do tempo, e com o maior poder aquisitivo do trabalhador no decorrer de sua carreira.

Uma outra pesquisa analisada por Hong confirma a tese da baixa motivação dos trabalhadores no que se refere à formação de uma reserva espontânea de capital. Realizada pelo instituto Public Agenda, a sondagem junto a funcionários norte-americanos mostra que 76% dos entrevistados achavam que deveriam poupar mais, sendo que 35% desejam aumentar suas poupanças imediatamente. Apesar disso, quatro meses após a primeira rodada de perguntas, 86% das pessoas ouvidas não haviam mudado absolutamente nada em seus planos de poupança.

Frente a este cenário, o professor aconselha as empresas a adotarem programas que incentivem a poupança programada por parte dos funcionários, como a adoção de planos de previdência coletivos. Neste sentido, ele defende que a empresa procure definir um patamar elevado de contribuição, o que forçaria um maior nível de poupança. Apesar do comprometimento da renda durante a fase em que estiverem trabalhando, o professor acredita que os trabalhadores irão agradecer uma vez que poderão contar com uma reserva maior ao se aposentarem.

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Intervenção, mas sem “paternalismo”

Na mesma linha de raciocínio de Hong, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo, que também esteve presente ao seminário, defendeu a intervenção estatal, através da contribuição previdenciária, mas não sem uma política de educação do cidadão.

Do contrário, segundo ele, o poder público estaria apenas atuando de forma paternalista, “defendendo as pessoas delas mesmas” e decidindo arbitrariamente o que fazer com o dinheiro privado. Giannetti lembrou também que a formação de poupanças atualmente é ainda mais importante que no passado, tendo em vista a falência generalizada dos sistemas públicos de previdência e a maior expectativa de vida, que custa caro para a população economicamente ativa.

Neste contexto, investir na educação financeira da população será a alternativa mais eficaz para aumentar o planejamento individual, o que viria a reduzir os gastos públicos com pagamento de benefícios assistenciais e previdenciários. Apesar desta defesa explícita da poupança, Giannetti fez questão de salientar que a reserva excessiva de capital pode ser prejudicial à economia de um país, já que a queda no nível de consumo produzida pelo excesso de poupança pode comprometer o crescimento da economia, como sugere o caso do Japão.