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O petróleo nunca foi apenas combustível. Nos últimos 150 anos, ele moveu guerras, derrubou governos, criou alianças improváveis e ajudou a lastrear a moeda mais poderosa do planeta.
Hoje, no centro de uma crise climática que exige sua substituição, o óleo cru segue dando as cartas na geopolítica global — do Oriente Médio ao Ártico, da Venezuela ao estreito que pode travar 20% do comércio mundial de petróleo com um único bloqueio.
Essa é a tese central de uma conversa conduzida por Marina Cançado no podcast O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, com a historiadora Mônica Lungov, professora do Colégio Bandeirantes, e o jornalista Jaime Spitzcovsky, ex-editor internacional da Folha de S.Paulo e correspondente em Pequim e Moscou.
Oportunidade com segurança!
A humanidade usa petróleo há quatro mil anos — como impermeabilizante, combustível de tochas e veículo para pomadas medicinais. Mas o salto decisivo veio em 1859, quando um polonês criou o querogênio, derivado do petróleo usado em lamparinas, substituindo o azeite e o óleo de baleia. Um poço de singelos 21 metros de profundidade na Pensilvânia abriu a corrida pelo ouro negro. Dez anos depois, John Rockefeller fundava a Standard Oil.
“Quando é que se percebe que o petróleo é um ativo com o qual se deve contar? Primeira Guerra Mundial”, afirma Lungov. “A Primeira Guerra vai contar com veículos motorizados, sejam automóveis, sejam os tanques, a marinha de guerra, a aviação militar, e nada daquilo funciona sem petróleo.”
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Das Sete Irmãs à OPEP: a virada dos produtores
Já durante a Primeira Guerra, diplomatas britânicos e franceses desenhavam em segredo o redesenho do Oriente Médio. O Acordo Sykes-Picot, de 1916, criou países onde antes havia apenas províncias do Império Turco-Otomano — e garantiu às potências ocidentais o controle das reservas da região. As empresas que dominavam esse mercado eram apenas duas no início: a Persian Oil Company, atual British Petroleum (BP), e a Shell.
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Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o cenário era outro. A Standard Oil havia sido desmembrada por leis antitruste americanas, e o mercado passou a ser dominado por um grupo de sete corporações — as chamadas Sete Irmãs, duas britânicas e cinco americanas. Juntas, controlavam 95% do petróleo mundial e mantinham o preço do barril entre US$ 1,50 e US$ 2,50 — o equivalente hoje a cerca de US$ 15 a US$ 20.
Esse domínio começou a rachar em 1960, com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), proposta pela Venezuela e fundada com Arábia Saudita, Irã, Iraque e Kuwait.
“Pela primeira vez vai haver um grupo de países produtores que vão procurar dar início à defesa dos seus interesses”, explica Lungov
O choque que mudou o Brasil — e o dólar
O grande teste de força veio em 1973, com a Guerra do Yom Kippur. Após a derrota árabe diante de Israel, os países da Liga Árabe usaram o petróleo como arma: o barril saltou de US$ 3 para US$ 12 em poucos meses.
O efeito foi global. “Isso vai promover aquilo que os economistas diziam ser quase impossível, a chamada estagflação — estagnação econômica acompanhada de inflação descontrolada”, diz Lungov.
No Brasil, o choque enterrou o chamado milagre econômico da ditadura militar e deu origem ao Proálcool, programa que buscava reduzir a dependência do Oriente Médio.
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Nos Estados Unidos, o secretário de Estado Henry Kissinger respondeu com uma jogada financeira de longo alcance: em 1974, firmou um acordo com a Arábia Saudita — válido por 50 anos, encerrado silenciosamente em 2024 — pelo qual os sauditas só aceitariam dólares pelo petróleo que vendessem ao mundo. Os petrodólares nasciam ali.
“O petróleo se torna o novo lastro do dólar”, resume Spitzcovsky. “Aquilo que um dia foi o lastro ouro passa a ser lastreado pelo petróleo, porque ninguém mais vive sem petróleo nos anos 70.”
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Mohammed bin Salman e o mapa da guerra atual
Spitzcovsky aponta um fator pouco debatido para entender os conflitos recentes no Oriente Médio: a transformação da Arábia Saudita sob o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que desde 2016 tenta diversificar a economia do país e aproximá-lo de Israel por meio dos chamados Acordos de Abraão.
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“Ele quer criar um Oriente Médio integrado, mais estável, que possa atrair turistas e investimentos”, diz Spitzcovsky.
Essa lógica, porém, ameaça diretamente o Irã. “O regime teocrático iraniano vive do conflito. Um dos pilares ideológicos do regime é a rejeição à influência norte-americana na região. Eles falam abertamente em destruir o Estado de Israel desde 1979”, afirma o jornalista.
Para ele, quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro de 2023, o objetivo iraniano era exatamente este: mergulhar a região em guerra e inviabilizar o avanço dos acordos de paz.
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O Estreito de Ormuz é a principal alavanca desse confronto. Por ali passa 20% do comércio mundial de petróleo — e, para alguns países, esse fluxo representa 90% do que exportam.
“O Irã está usando o estreito para fazer uma guerra econômica e promover uma guerra de desgaste. Eles não têm condições militares de vencer os Estados Unidos, mas quanto mais esticam a guerra e tornam o problema não deles, mas do mundo todo, é uma solução que tem rendido bons frutos”, avalia Spitzcovsky.
