Os vícios do investidor brasileiro e como curar-se deles

Os investidores comuns erram nas avaliações das probabilidades de acontecimentos – hoje, inclusive, com os resultados das eleições em mãos, muitos investidores estão comprando papéis que abriram com altas superiores a 20%

Equipe InfoMoney

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 Texto de Tiago e Silva Couto, planejador financeiro pessoal com certificação CFP®(Certified Financial Planner), concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros. Tiago é advogado e economista, sócio da Bahia Partners Agentes Autônomos de Investimentos.

Lembro-me da primeira vez que tive acesso ao mercado financeiro, ao ser apresentado ao home broker de uma corretora que estava dando desconto na correta para clientes menores de 21 anos. Soube que era uma oportunidade interessante para ganhar um dinheiro, pois a bolsa estava barata e que ia subir – havia recebido essa dica quente de um tio que já operava há muitos anos – fiquei entusiasmado com a idéia e fiz meu cadastro, via fax, imaginem…

A primeira imagem que tive do famigerado home broker foi semelhante a de um garoto que visita a cabine do avião à noite – uns números piscando, zero de noção do que representavam, aqueles gráficos – parecia um videogame mais sofisticado – senti que aquilo era algo que eu gostaria de compreender e estudar. Isso faz uns bons 15 anos e, até hoje, aquela vontade ainda persiste.

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Após ter começado como investidor juvenil, estudado bastante, atuado como operador de mercado na tesouraria de um dos grandes bancos, e ter montado uma empresa de agente autônomo de investimentos, ainda vejo que na estrada do mercado, eu tenho muito a andar.

Acompanho muitos investidores, seja via alocação em fundos de investimentos, ou comprando e vendendo ativos na Bolsa, e até mesmo na renda fixa. Infelizmente, percebo que as estatísticas oficiais são alarmantes: o número de CPFs na bolsa de valores não aumenta porque a maior parte dos nossos investidores perdem dinheiro e não querem mais voltar a participar desse mercado.

Com muita frequência, tais perdas são causadas por vícios e erros banais, que são muito bem expostos nos estudos das heurísticas do planejamento financeiro pessoal.

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Os investidores comuns erram nas avaliações das probabilidades de acontecimentos – hoje, inclusive, com os resultados das eleições em mãos, muitos investidores estão comprando papéis que abriram com altas superiores a 20%…. Ora, teoricamente, a compra foi na sexta feira, hoje é o dia da realização do lucro… Um estudo mais profundo da probabilidade dos resultados da eleição, verificar-se-ia que a chance de ganho na compra de sexta-feira era superior a chance de perda, pois já estava em parte precificado Aécio com 20% dos votos, e não 34%, ou inclusive uma potencial vitória de Dilma no 1º turno. A confirmação está aí, alta de 10% na Bolsa no fato.

Vícios na conduta dos investidores são muitos, já vi casos de erros de alavancagem, em que o investidor erra na dose, tornando o remédio em veneno. Muitas vezes, causado por um otimismo exacerbado que dá errado, mercado vira, e perde muito mais que o suportável. É comum em situações de muita alavancagem, o cliente deixar o psicológico tomar as rédeas do processo decisório, e as chances de perder aumentam. Erro clássico, em que quando o cliente “stopa” a operação, na sequência o papel volta a seguir na tendência que era favorável inicialmente, e fica aquela dor que podia ter ganhado, e acabou perdendo.

Prosseguindo nos vícios, na alocação de fundos de investimentos, vejo muitos clientes desejando entrar no fundo com maior rentabilidade no ano, aquele que já subiu 30% em 6 meses. Muitos sequer se dão ao trabalho de saber como o fundo atingiu um retorno tão expressivo em tão pouco tempo. Investem naquele fundo e depois têm uma desagradável surpresa. Já vimos dezenas de casos iguais a esse no mercado, em que o queridinho do ano passado, vira o grande vilão desse ano. O mesmo fato ocorre com ações, câmbio e inclusive renda fixa. Em 2014, os fundos de índice norte-americanos foram os grandes captadores de recursos. Será que eles continuarão com as mesmas performances? E os fundos de inflação, que em 2012 tiveram retornos superiores a 25% e em 2013, foi aquela catástrofe… Cuidado ao investir num produto apenas pela performance passada, isso não garante o futuro, meu caro amigo.

Bom, poderia me alongar aqui bastante ainda, contando alguns dos muitos erros e vícios que os investidores cometem. Lembro dos clientes que “investem” em títulos de capitalização, ou naquele fundo DI que tem taxa de administração superior a 4%, dentre outros. Mas, não gosto de apontar erros, quando todos nós também somos passíveis de erros.

Hoje, depois desse tempo de mercado, quando me recordo na dica quente do meu querido tio, e lembro que depois daquela primeira compra de ações, vi meu capital derreter, vejo que no mercado financeiro, os vícios são muitos, e custam dinheiro. Vou apenas repassar alguns mecanismos que aprendi na prática que hoje, me tornam um investidor mais escaldado.

Antes de investir, conheça no que você está investindo e defina uma estratégia. Verifique se o seu perfil de investidor está de acordo com aquele produto de investimento e seus objetivos. Diversifique. Aliás, ter dinheiro disponível com liquidez D-0, é sempre um grande negócio, pois num belo dia, oportunidades aparecem. Ainda, não fique todo dia trocando de ações e mudando sua carteira, os custos irão comer sua rentabilidade. Brigue por taxas, pois ter um CDB que rende 90% CDI é mal, pois você consegue coisa melhor apenas por estudar um pouco mais. E, ao final, peço desculpas aos meus amigos gerentes de banco, mas tenho que falar: o gerente do banco não é seu amigo – ele tem um patrão e tem que bater meta.

Ahh, quase ia esquecendo, salvo o caso do seu tio for o Ministro da Fazenda, ou Presidente do Banco Central ou influente no partido, a dica nunca, nunca será quente – no máximo morna, pra não dizer, uma gelada…

PS: Não comentei sobre as pirâmides financeiras (outro vício do investidor brasileiro), pois isso não é investimento, é estelionato. Portanto, se te oferecerem um “investimento” com taxa de retorno sem risco muito superior ao mercado em si, algo do tipo dobre o capital em 3 meses – CUIDADO! Isso é estelionato. Até hoje não entendo como que as pirâmides no Brasil conseguiram captar tanto dinheiro, com um apelo tão frágil.

O texto reflete as opiniões do autor. O Infomoney não se responsabiliza pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Gostou das explicações? Tem mais dúvidas sobre investimentos e planejamento financeiro? Mande um e-mail para o Tiago: tiago@bahiapartners.com.br