Para além das eleições americanas

Onde investir no mercado internacional? Verde, Kinea e Adam compartilham suas apostas para 2021

Setores que ficaram para trás na recuperação das bolsas globais em 2020 tendem a dividir com as gigantes de tecnologia o protagonismo no próximo ano

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SÃO PAULO – Com a iminente descoberta de uma vacina eficaz contra a Covid-19, o ano de 2021 promete ser de forte retomada da atividade econômica global, em um ambiente de juros reais próximos de zero e liquidez abundante, o que deve manter o ritmo pujante de busca por ativos de maior risco.

Nesse cenário, gestoras brasileiras com profissionais que se debruçam sobre os mercados internacionais, como Kinea, Verde e Adam, acreditam que setores que ficaram para trás na recuperação das bolsas globais em 2020, como consumo, infraestrutura e financeiro, tendem a dividir com as gigantes de tecnologia o protagonismo no próximo ano.

Tema que vem dividindo a atenção dos investidores nos últimos meses com a pandemia, a eleição americana no dia 3 de novembro, com o favoritismo do candidato democrata Joe Biden em relação ao republicano Donald Trump, e suas possíveis consequências para os mercados globais, é acompanhada com atenção pelos especialistas.

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De todo modo, seja quem for o eleito, os estímulos fiscais e os juros baixos devem continuar, por isso, a etapa de retomada do ciclo econômico deve ser mais importante do que o resultado do pleito para a composição do portfólio, afirma Gabriela Santos, estrategista de mercados globais do JP Morgan Asset Management.

Por conta da expectativa de que a recuperação da economia vai seguir ganhando tração, já foi possível observar um movimento inicial de rotação do mercado em direção a empresas mais cíclicas, diz Daniel Campion, gestor de ações globais da Verde.

Uma das promessas de campanha do candidato democrata é um pacote que pode alcançar a cifra de US$ 2 trilhões em investimentos no setor de infraestrutura, com um foco voltado para práticas ambientais sustentáveis. A medida deve contribuir para que as ações mais dependentes da retomada da atividade, que ficaram para trás em 2020, tirem parte desse atraso, prevê o especialista.

Entre as empresas no portfólio que se beneficiarão da esperada aceleração econômica de 2021, Campion cita a empresa ferroviária Union Pacific Railroad e a Lowe’s, de materiais de construção e melhorias no lar.

Por conta do favoritismo do candidato democrata, e a provável postura mais diplomática na relação comercial com a China, a Alibaba voltou a fazer parte do portfólio global da Verde nas últimas semanas.

“É uma ação que já compôs a carteira algumas vezes durante os últimos cinco anos”, aponta o gestor, acrescentando que, dentro do setor asiático de tecnologia, tem também ações da Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSM). “A empresa está dois anos à frente da concorrência em relação à qualidade dos produtos.”

Techs voláteis?

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Pela visão de um possível aumento da volatilidade nas ações de tecnologia dos EUA com a vitória democrata, a Verde reduziu o tamanho da posição nas empresas que devem estar no foco do governo em termos regulatórios, diz Campion, referindo-se a Facebook, Google, Amazon e Apple.

Apesar disso, o gestor da Verde ressalta que o setor ainda tem potencial de alta bastante interessante em um horizonte de médio e longo prazo.

A recuperação econômica, afirma ele, tem sido na forma de uma letra “K”, com as empresas do meio digital em momento completamente distinto daquelas que ainda sofrem com o distanciamento social, como de viagens e lazer.

Pelos cálculos da Verde, o lucro esperado para as empresas de tecnologia com ações no S&P 500 deve cair cerca de 4% em 2020. Para as demais empresas de caráter mais cíclico, o tombo deve ser mais próximo de 40%.

Já para 2021, a expectativa é que a diferença seja menor, com os setores que ficaram para trás tirando parte do atraso com a retomada impulsionada pelo socorro do Estado, prevê Campion.

Normalização

Na Kinea, desde meados de abril, o gestor Ruy Alves tem adotado como uma das principais premissas para a carteira contar com uma situação muito mais normalizada em um horizonte de 12 meses. E utiliza como exemplo a Coca-Cola.

As vendas do refresco caíram drasticamente por conta do distanciamento social provocado pela pandemia, já que boa parte de seu consumo ocorre fora dos lares. “Mas quando as pessoas retomarem as rotinas, o consumo de Coca também vai voltar”, prevê o gestor da Kinea, que entende que os preços de empresas de consumo com esse perfil ainda não refletem essa volta.

Ele cita dentro da mesma tese as ações do cassino Las Vegas Sands e da Dufry, rede de “duty free” presente nos aeroportos, além de empresas do setor aeroespacial, como Airbus e Boeing.

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O setor de tecnologia também tem diversos representantes na carteira global da Kinea, como as gigantes do Vale do Silício.

Do grupo apelidado pelo mercado de “FAAMG”, formado por Facebook, Apple, Amazon, Microsoft e Google, o gestor não carrega no momento apenas a fabricante de smartphones, por entender que o preço não está atraente frente ao crescimento esperado para os próximos anos.

A avaliação é a de que, no nível atual, o valuation do setor como um todo ainda está “bastante razoável”.

América First?

Mesmo com a alta expressiva das bolsas americanas nos últimos meses impulsionada pelas “big techs”, Campion, da Verde, entende que os EUA ainda despontam como um dos melhores mercados para se estar.

“Quando abrimos o celular, na tela inicial geralmente tem o aplicativo do Google, do Facebook, a reunião que estamos fazendo é pelo Teams. São todas empresas americanas, as grandes ganhadoras globais são elas.”

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Com visão semelhante, Fábio Landi, da Adam Capital, destaca que os EUA são o país que ostenta a maior capacidade de manter um programa de estímulo monetário agressivo sem gerar pressão inflacionária de curto prazo.

“A grande dúvida é até onde essa política pode ir”, diz o sócio da Adam, que entende que o fim só deve se aproximar quando o mercado americano voltar ao pleno emprego.

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Após o pico de 14,7% em abril, a taxa de desemprego nos EUA ficou em 7,9% no mês passado.

Como dificilmente o indicador vai recuar 50% em pouco mais de 12 meses, mantendo os juros baixos e os estímulos fiscais por mais algum tempo, a Adam tem mantido boa parte da alocação global nas bolsas dos EUA, diz Landi. Ele aponta como exemplos os setores de tecnologia, pelo potencial de crescimento nos próximos anos, e o financeiro, por conta dos preços convidativos.

No ambiente de retomada global esperado para 2021, a gestora também enxerga com bons olhos as oportunidades em mercados emergentes que ganham com a alta das commodities, como México e Brasil.

Real em alta

Uma das principais posições atualmente é a comprada na moeda brasileira. “O real teve uma desvalorização maior que outros emergentes com características econômicas até piores do que o Brasil, e achamos que tem um espaço significativo para um retorno à média”, afirma André Salgado, sócio da Adam.

No livro de moedas, a gestora também tem apostas no dólar contra o euro, e compradas no peso mexicano e no won sul-coreano. “O dólar deve continuar se valorizando contra a moeda europeia pelo diferencial de crescimento entre as duas regiões”, prevê Landi.

Hora do embarque

Gabriela Santos, estrategista de mercados globais do JP Morgan Asset Management, reconhece que existem no cenário algumas dúvidas de curto prazo relacionadas à definição das eleições americanas, aos riscos trazidos pela segunda onda da pandemia e também sobre quando novos estímulos econômicos serão de fato aprovados nos EUA.

Ela ressalta, contudo, que é preciso ficar esperto para não perder o bonde. “Comparo a situação com um dia de neblina no aeroporto. Não adianta querer ficar no terminal esperando-a passar, porque o avião vai partir sem você.”

Na avaliação da especialista, ao formar um portfólio global de investimento, o ideal é que o investidor combine uma alocação de caráter mais estrutural, em setores que devem seguir em crescimento no longo prazo, como tecnologia, saúde ou energia limpa, com posições de caráter mais tático, em oportunidades de curto prazo com preços descontados, como as bolsas de mercados emergentes.

Além disso, diante da vulnerabilidade do mercado a riscos completamente inesperados, como foi a própria Covid-19, ter algum tipo de proteção na carteira como títulos soberanos de países desenvolvidos, moedas fortes como dólar, iene e franco suíço, ou ouro, também vem bem a calhar, defende Gabriela.

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