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O que pode ter impacto sobre o seu dinheiro em junho - e onde vale a pena investir

Em clima de cautela, gestores de fundos e de patrimônio recomendam maior posição em Bolsa; na renda fixa, papéis prefixados lideram preferências

Investimentos gráficos
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Sobrevivemos ao fatídico mês de maio. Mesmo com eventos que levaram o Ibovespa a cair 4,6% até o dia 20, o índice conseguiu reduzir as perdas nos último dias e encerrou o período com leve alta de 0,70%. Esta foi a primeira vez em dez anos que o Ibovespa conseguiu ter ganhos em maio. Em 2019, o índice acumula valorização de 10,40%, enquanto o CDI, referencial das aplicações de renda fixa, tem variação de 2,59%.

Nos primeiros cinco meses do ano, uma maior sensibilidade tomou conta dos ânimos dos investidores e a política local teve papel crucial no dia a dia dos mercados. Passamos por uma onda de grande otimismo após as eleições, com um embalo que levou o Ibovespa aos 100 mil pontos em março, em parte ofuscado pelos maiores embates entre o Executivo e o Legislativo, que acirraram as preocupações. No exterior, China e Estados Unidos seguem em uma guerra comercial que ainda não encontrou seu desfecho e que tem contribuído para um ambiente de maior insegurança.

Dentre os destaques de 2019, a renda variável continua a prevalecer como classe de ativos. O Idiv, índice de dividendos, acumula valorização da ordem de 15%, enquanto o SMLL, que representa ações do tipo small caps, têm alta de 11,5%.

Em meio a um forte desempenho do mercado de ações americano e da alta de 1,7% do dólar, também chama atenção o desempenho dos Brazilian Depositary Receipts (BDRs, equivalentes a recibos de ações de companhias estrangeiras negociados no Brasil), com ganhos de 11,89% do índice BDRX no ano, mesmo com a queda de 6,59% apenas em maio.

Já no mês passado, o índice IMA-B, referência de desempenho de títulos atrelados à inflação (Tesouro IPCA+), foi o que mais se destacou, com valorização de 3,66%. Com a quedas das taxas, alguns títulos públicos apresentam retornos extremamente atrativos. É o caso do Tesouro IPCA+ 2045, que tem alta de 29% no ano. Nos últimos 12 meses, os ganhos superam os 60%.

Confira a seguir o desempenho dos principais investimentos no Brasil em maio, no ano e nos últimos 12 meses:
RENDA VARIÁVEL Maio 2019 12 meses
Ibovespa 0,70%  10,40% 26,42%
Idiv (Dividendos)  3,14%  15,08% 37,08%
BDRX (BDRs) -6,59% 11,89% 9,45%
SMLL (Small Caps)  1,97% 11,47% 27,61%
Ifix (Fundos Imobiliários)  1,76% 8,55% 15,29%
Dow Jones  -6,69% 6,38% 1,64%
S&P 500   -6,58% 9,78% 1,73%
Dólar  -0,12% 1,70% 5,45%
Ouro* 1,36% 3,79% 5,12%
RENDA FIXA   - - -
CDI 0,54% 2,59% 6,37%
Poupança**  0,37% 1,87% 4,55%
IMA-B   3,66% 11,06% 23,73%
IRF-M   1,77% 4,72% 13,33%

Fontes: Economatica e Bloomberg.

*Cotação na B3.

**Com a meta para a taxa Selic abaixo de 8,50% ao ano, o rendimento da poupança equivale a 70% da Selic anualizada mais a variação da Taxa Referencial (TR), atualmente igual a zero.

E o que vem pela frente em junho?

Com férias de verão no hemisfério norte, o que diminui a liquidez dos mercados, o investidor brasileiro segue de olho na tramitação da reforma da Previdência no Brasil e em novos indicadores de tendência da economia. No exterior, a reunião do G20 no Japão nos dias 28 e 29 de junho deve ser monitorada de perto, diante da expectativa de novidades em relação à guerra comercial entre EUA e China.

Apesar de um discurso ainda otimista, com a percepção de melhora na relação entre o Congresso e o governo, gestores de fundos de investimento e de patrimônio não contam com a retomada da economia no curto prazo. O caminho tende a continuar sinuoso, o que vai exigir nova rodada de paciência por parte do investidor.

Em compasso de espera, os gestores seguem com muita cautela, equilibrando uma confiança na Bolsa com posições mais "defensivas" e optando, em grande parte, por posições "táticas". Na renda fixa, os papéis com retornos prefixados foram apontados como fonte de oportunidade.

Prefixados como “bola da vez”

Os papéis prefixados de médio prazo, como os com vencimento em cinco anos, estão entre os preferidos dos gestores entrevistados. “São os melhores ativos para se estar no momento”, afirma Marco Mecchi, gestor da MZK Investimentos, que coloca essa classe de ativo à frente da própria Bolsa.

A exposição pode ser feita por meio de fundos ou diretamente via títulos públicos. “Em um ambiente de atividade econômica fraca, há espaço para os juros caírem e a posição prefixada tem se mostrado bastante lucrativa”, destaca Marcos Mollica, da gestora de recursos do Opportunity.

Atualmente, os títulos prefixados à venda na plataforma do Tesouro Direto têm vencimentos em 2022, 2025 e 2029, este último com juros semestrais. As taxas oferecidas, por sua vez, variam de 7% a 8,4% ao ano. No ano, o maior destaque parte do Tesouro Prefixado 2025, com valorização acumulada de 8% em cinco meses.

Mais redução das taxas de juros também é esperada por Valter Police, coordenador da empresa de investimentos Fiduc, que cita um cenário favorável para os títulos públicos com a aprovação da reforma da Previdência e a inflação sob controle: “Dá para se aproveitar disso e ter ganhos nos prefixados.”

Já Helena Veronese, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, prefere ficar fora dos prefixados. "É um risco-retorno que não vale a pena", diz. Segundo ela, as taxas até podem cair mais um pouco, porém o cenário à frente é muito incerto. Caso a reforma previdenciária fique mais desidratada do que o esperado, as taxas podem voltar a subir, o que levaria o investidor a ter prejuízo com os papéis.

Na edição de maio do Barômetro do Poder, a pesquisa mostrou que, apesar da deterioração precoce nas relações entre Executivo e Legislativo, analistas políticos mantêm otimismo com proposta. Confira a reportagem completa aqui.

Em renda fixa, a preferência da Azimut está em ativos de crédito, como Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRAs), Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e fundos de crédito. "Se o investidor não quer se expor muito à renda variável, ele pode encontrar taxas interessantes no crédito", afirma. Veronese reforça, porém, a importância de uma seletividade dos papéis, de forma a reduzir ao máximo o risco.

Bolsa ainda está atrativa?

Mollica, do Opportunity, está otimista com Brasil e afirma que vê um cenário mais benigno para o lado político no curto prazo. O gestor destaca as manifestações de domingo (26) como positivas para a agenda de Jair Bolsonaro e disse que iniciou a última semana do mês aumentando em 50% as posições em Bolsa.

João Paulo Aveiro, sócio responsável pela área de análise macroeconômica da Pacífico Gestão de Recursos, destaca no curto prazo a aprovação de reformas como a administrativa como um termômetro importante para acompanhar a relação do Congresso com o Planalto.

De toda forma, diante da maior volatilidade, a gestora tem se mantido cautelosa, optando por se posicionar de forma mais “tática”, carregando menor exposição a risco e com mais caixa, de forma a ter liquidez para aproveitar oportunidades.

Para Aveiro, uma melhora substancial de prêmio de risco na Bolsa depende principalmente de uma evolução da relação entre Congresso e governo. “Está difícil compreender como o novo modelo de articulação política vai funcionar – e se vai funcionar.”

“O mercado está receoso, mas tem espaço para a Bolsa voltar”, diz Mecchi, da MZK Capital. “Estamos focados em Brasil, porque acreditamos que tem bastante prêmio, então estamos buscando oportunidades por aqui.”

A Moat Capital, especializada na gestão de fundos de ações, também segue otimista com a renda variável. Segundo o sócio Adriano Leite, a assimetria está muito favorável para a classe de ações em termos de múltiplos, fundamentos e aspectos técnicos, uma vez que muitos investidores já reduziram o risco.

O economista Roberto Luis Troster endossa a avaliação e considera que a Bolsa é o ativo com melhor risco-retorno no momento, com os setores de bancos e varejo como os mais atrativos.

Veronese, da Azimut, tem sugerido a seus clientes o aumento da exposição em renda variável, seja diretamente via ações ou por meio de fundos de ações e multimercados. "Temos um cenário positivo para o final do ano, mas o caminho é delicado", diz.

Mas nem todo mundo do mercado financeiro está tão otimista. A SPX está adotando uma postura mais neutra em relação às ações domésticas e não vê os papéis tão baratos. “Não acreditamos que o Brasil vá quebrar, mas também, não será um passeio no parque: entraremos na zona cinzenta”, afirmou Beny Parnes, economista-chefe da maior gestora independente do Brasil, à Bloomberg. “Eu não vejo um grande impulso de confiança vindo.”

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