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Cada pregão é uma batalha: as estratégias dos gestores em meio ao vaivém do mercado

Novus Capital aproveita pregão para aumentar exposição à bolsa, enquanto Absolute Investimentos acrescentou proteções cambiais por conta das incertezas

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(Shutterstock)

SÃO PAULO – A tranquilidade tem passado longe da vida de gestores e analistas financeiros neste início de ano. Se janeiro foi marcado pelo excesso de otimismo, agora um clima de maior cautela toma conta do mercado financeiro, em meio ao aumento das incertezas.

A novela política que se desenrolou a partir das discussões públicas travadas entre a equipe do novo governo e o Congresso, resultando em maior preocupação com a aprovação da reforma da Previdência, tem forçado investidores a encarar todo pregão como uma nova batalha.

Pelo menos neste mês de março, não houve espaço para descanso. O aumento da volatilidade tem exigido sangue frio do mercado e alguns gestores têm aproveitado oportunidades de curto prazo para rever suas posições. Este é o caso da Novus Capital, que aumentou ontem (28) sua exposição no mercado de ações.

“Por preço, estamos preferindo bolsa. Achamos que esse é o ativo com maior upside se o cenário melhorar”, diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor de portfólio de renda fixa da Novus. 

Atualmente, 50% do risco do fundo da Novus está alocado em bolsa e o pregão está sendo oportuno para a gestora se posicionar no mercado via índice, diante da queda dos últimos dias.

Depois de o Ibovespa bater no intraday a marca emblemática dos 100 mil pontos no dia 18 de março, a bolsa tem sido pressionada pelo ambiente político e chegou, inclusive, a perder os 91 mil pontos. Nos últimos oito pregões, o principal índice da bolsa brasileira só subiu em dois deles.

“Com as coisas se acalmando, voltaremos a ter a carteira focada em infraestrutura e nas próprias estatais. Mas como estamos num ambiente muito volátil, é bom simplificar”, assinala Portella.

Na avaliação do gestor, embora os eventos mais recentes atrapalhem a confiança na aprovação da reforma, eles não representam uma ruptura. “É uma negociação que se estressou nos últimos dias, mas cujo auge pode ter sido hoje.”

Acalmada nos ânimos

Depois de mais uma troca de farpas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o presidente Jair Bolsonaro tentou amenizar os ânimos. Em solenidade de aniversário da Justiça Militar, Bolsonaro disse ontem que o problema entre os dois foi apenas uma “chuva de verão”.

O presidente afirmou ainda que o atrito que teve com Maia é “página virada” e fez um aceno ao presidente da Câmara. Página virada, um abraço, Rodrigo Maia. O Brasil está acima de todos. Acontece, é uma chuva de verão, disse o presidente.

Por ora, a Novus mantém a expectativa de nova queda dos juros neste ano, com quatro cortes de 0,25 ponto percentual da Selic a partir de junho, embora Portella reconheça que, nas duas últimas semanas, diminuiu a probabilidade de a discussão em torno da reforma ser feita em ritmo mais acelerado.

De toda forma, a casa se expõe a juros em sua carteira apenas por meio de opções, posição que não teve um bom desempenho em fevereiro, com uma marcação a mercado negativa, nas que a casa acredita será revertida nos próximos meses.

A Absolute Investimentos também permanece com a aprovação da reforma da previdência e um movimento adicional de corte de juros como cenário-base para o Brasil, e tem igualmente se surpreendido com o desenrolar das negociações políticas.

Conforme Renato Botto, sócio responsável pela área de renda fixa da casa, as perspectivas para a inflação e para o crescimento da economia em 2019 continuam muito baixas, em 3,7% e 1,5%, respectivamente, tendo a segunda um viés de baixa. Por isso, ainda que a reforma da Previdência seja aprovada, a necessidade de mais uma mudança da Selic permanece.

E se a reforma demorar mais tempo para ser aprovada, com um caminho mais turbulento, Botto diz esperar um reflexo sobre o crescimento brasileiro, o que também tende a garantir uma atuação do Banco Central nos juros.

“Perde-se a certeza da aprovação da reforma, mas o hiato do produto [diferença entre o crescimento do PIB e seu potencial de expansão] segue abrindo, o que gera desinflação futura”, pontua o gestor.

A Absolute prevê a Selic a 6% ao fim do ano, mas não elevou sua exposição em juros diante da elevação dos prêmios, dado o aumento das incertezas e o risco de descontinuidade. “A assimetria está grande hoje, não justifica um aumento de risco”, diz Botto. A gestora, inclusive, acrescentou proteções cambiais por conta das incertezas.

Depois de uma abertura do dia com nova alta dos prêmios de risco, o mercado de juros futuros passou a registrar um pregão de ajustes na quinta-feira, com forte queda das taxas.

Fim da lua de mel

Para a equipe do banco suíço Julius Baer, a volatilidade no mercado brasileiro deverá continuar elevada nos próximos meses. “Permanecemos neutros por ora, mas observamos que os valuations estão cada vez mais atraentes”, escreveram os analistas Mathieu Racheter e Alejandro Hardziej, em relatório.

Já no segmento de renda fixa, o banco enxerga pouco espaço para mais reduções dos prêmios, dado o forte desempenho dos títulos soberanos e corporativos brasileiros nos últimos 6 meses, e não vê surpresas na alta das taxas dos últimos dias.

Na visão da casa, o período de lua de mel do novo governo parece estar chegando a um fim abrupto, diante do movimento de "sell-off" (de vendas) que continuou no mercado de ações nesta semana, com as tensões entre Bolsonaro e membros do Congresso.

Ao citar as manchetes negativas que têm pesado sobre o ambiente, como a prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco, o provocativo tuíte de Carlos Bolsonaro endereçado ao presidente da Câmara e a queda de índices de aprovação de Bolsonaro, Racheter e Hardziej chamaram atenção para a queda de 14% do MSCI Brasil desde que o índice atingiu sua máxima.

Em relatório, o banco indicou que os preços dos ativos já apontam para uma aprovação de reforma previdenciária atrasada e um pouco mais diluída no segundo semestre, o que está mais em linha com sua avaliação.

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