Guerra pressiona multimercados, mas fundos macro preservam ganhos do ano; veja quais

Conflito no Oriente Médio põe multimercados à prova, mas alguns fundos seguem com ganhos no ano e ainda superam o CDI

Angelo Pavini

(Foto: Pixabay)
(Foto: Pixabay)

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Março foi um mês desafiador para os fundos multimercados, com a maior parte das posições sendo pressionadas pela guerra entre Estados Unidos e Irã. Ainda assim, algumas carteiras “puro-sangue” de estratégia macro — aquelas que levam em consideração indicadores macroeconômicos — conseguiram preservar ganhos no acumulado do ano e se destacar dentro da classe.

Levantamento do InfoMoney com dados da Economatica mostra que 80 carteiras, entre 200 multimercados macro que não são de crédito privado e têm patrimônio acima de R$ 100 milhões, fecharam março com ganhos em 2026.

Entre os dez maiores rendimentos no ano, a maioria é de fundos de menor patrimônio, mas merece destaque o Verde, um dos maiores do mercado, que não só manteve ganhos no período como também supera o CDI em 2026.

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Tudo isso em um momento desafiador, marcado pela disparada dos juros e queda das bolsas no Brasil e no exterior, enquanto a valorização do dólar pegou gestores dessas carteiras no contrapé, resultando em perdas de até 13% no mês.

O Índice de Hedge Funds da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (IHFA) recuou 3,42%, na maior correção mensal desde os 6,24% de março de 2020, na pandemia de Covid-19. As quedas foram mais intensas nos fundos mais alavancados e de maior volatilidade, enquanto carteiras de crédito privado que usam a estrutura multimercado tiveram ajustes mais limitados.

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Veja abaixo o desempenho da carteiras no mês e no ano:

NomeGestoraPL R$/milhões2026 (%)% CDIMarço (%)12 meses (%)Volatilidade (%)
Parcitas Hedge MasterParcitas      753,517,10208,1-2,0735,1610,80
BB Mult Macro LPBB Asset      513,365,30155,30,7015,343,83
Verde MasterVerde Asset   5.630,805,07148,6-0,1019,894,66
Kondor MasterKondor Asset      119,524,77140,0-0,0418,193,29
BTG Clave Alpha MacroBTG Pactual      512,524,41129,42,1618,305,47
Neo Mult Estratégia MasterNeo Mul.      335,453,0790,00,9615,963,30
Gf MasterM. Safra & Co.      153,292,9686,70,7616,423,11
Bahia Am Maraú MasterBahia Asset   1.043,392,9486,2-0,7517,523,25
Canvas Enduro MasterCanvas Capital      147,062,9385,8-0,6313,846,45
Neo Provectus INeo Mult.      292,532,9285,60,8216,594,95
IHFA*0,05-3,4214,34
Fonte: Economática. Fundos multimercados de estratégia Macro com patrimônio superior a R$ 100 milhões e não focados em crédito privado. Volatilidade em termos anualizados. Rentabilidade no ano até 31 de março de 2026. *Índice de Hedge Funds da Anbima.

Muitas carteiras se recuperaram no fim do mês com a retomada dos mercados, diante de sinais de um possível acordo de paz no Irã feitos pelo presidente Donald Trump, lembra Rodrigo Gatti, sócio da Parcitas Investimentos. O fundo Parcitas Hedge fechou março com perda de 2,07%, mas ainda acumula ganho de 7,10% no ano, superando o CDI em 2026. “Mas este início de ano foi muito ruim para alguns participantes”, admite Gatti.

Segundo ele, no começo do ano o fundo havia detectado maiores oportunidades em ações e fez um balanceamento entre as bolsas local e americana. Com a guerra, houve uma correção maior das bolsas nos países desenvolvidos do que nos emergentes, o que ajudou a melhorar o desempenho do fundo.

“As bolsas de países emergentes ainda seguem positivas e a alocação em Brasil vem gerando alfa [ganho em relação ao retorno médio do mercado], o que permitiu ao fundo ficar acima do CDI”, explica.

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O fundo também tinha posições pequenas em juros no Brasil, o que evitou perdas maiores com a alta das taxas por aqui, como ocorreu com outros gestores. Mais recentemente, o Parcitas Hedge está mais investido em bolsa e equilibrado entre alocação no Brasil e em mercados desenvolvidos, principalmente Estados Unidos.

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“Mantivemos a bolsa americana porque gostamos das teses e, apesar da volatilidade, vamos carregar essas posições por um horizonte mais estendido”, diz Gatti. Ele destaca que é difícil saber quando a guerra vai acabar, por isso é importante ter um portfólio equilibrado e monitorar a evolução dos mercados de perto. Segundo ele, o portfólio mantém um nível de risco constante, para não perder os ganhos que possam vir de uma recuperação dos ativos caso a guerra termine logo.

Mercado performa bem no ano

Os dados dos multimercados reforçam que março foi um mês de aversão ao risco global, afirma Rafael Garcia, gerente de investimentos da ZIIN Investimentos. Com isso, multimercados que estavam menos posicionados em bolsa e com posições aplicadas em juros reais curtos e com proteção em moedas tiveram desempenho relativamente superior. Já estratégias com maiores posições direcionais em bolsa acabaram sofrendo.

No acumulado do ano, porém, o mercado brasileiro performou bem, principalmente o Ibovespa, com alta superior a 16%, e o CDI, com retorno interessante de 3,41% até agora, enquanto o S&P 500 cai quase 10% no ano. “Assim, fundos que até o momento estão indo bem no ano devem ter aumentado a exposição ao Brasil — com bolsa e juros curtos — e reduzido ou protegido exposições no exterior”, afirma Garcia.

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Outro ponto importante é que esses fundos com melhor performance devem ter atuado de forma mais tática e flexível.

Daqui por diante, o cenário segue com alta dispersão entre classes e mercados, diz Garcia. O Brasil ainda tem desempenho relativo favorável, mas a volatilidade permanece como fator de atenção. “Esse ambiente deve ser propício para gestores ativos, ampliando oportunidades em juros, bolsa e arbitragem”, afirma. Para ele, os multimercados seguem como importante ferramenta de diversificação, com potencial de geração de valor em cenários complexos como o atual. “Mas é preciso fazer seleção criteriosa e adequada ao perfil do investidor”, alerta.

Ele lembra que o IHFA apresenta retorno praticamente nulo no ano, o que mostra uma dispersão grande entre os gestores. Segundo Garcia, dos 276 fundos que compõem esse índice — que inclui fundos de crédito privado — apenas 73, ou 26%, superaram o CDI no ano. “Nesse contexto, se torna mais importante o processo de seleção e curadoria desses fundos, para avaliar e encontrar gestores e estratégias com maior consistência de entregas ao longo do tempo”, diz.

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Teste após choque

Março foi um mês de ruptura para a indústria de multimercados, afirma Rafael Meyer, portfolio manager da SWM Multi Family Office. O impacto da escalada do conflito envolvendo o Irã sobre os ativos de risco foi rápido e severo, e pegou boa parte dos gestores posicionados no lado errado. Na média, o alfa da indústria ficou próximo de -2,5%, configurando uma das piores perdas mensais da história da classe no Brasil.

Segundo Meyer, o cenário ficou mais complexo, mas não necessariamente menos favorável para os multimercados macro no médio prazo. O aumento da volatilidade global que prejudicou os gestores em março também cria oportunidades de entrada e de realinhamento de posições com prêmios mais atrativos.

Ele chama a atenção para o aumento da correlação entre fundos multimercados e os índices de juros e bolsa nos últimos meses. Isso significa que, pelo menos no curto prazo, a diversificação que a classe deveria oferecer ficou comprometida. E uma eventual recuperação das cotas tende a ser mais lenta do que a queda, já que muitos gestores precisaram zerar posições e reconstruirão sua exposição de forma gradual.

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Sobre se os multimercados são uma boa opção para o investidor, Meyer observa que depende do fundo e do horizonte de tempo — “e março é um bom lembrete disso”, diz. Ele lembra que a classe não é homogênea. “O investidor que trata todos os multimercados como equivalentes tende a se surpreender em momentos como o que vivemos”, afirma.

Meyer acredita que a classe tem um papel legítimo em portfólios bem estruturados, especialmente para investidores com horizonte de dois a três anos e capacidade de tolerar volatilidade de curto prazo. “Para quem tem isso, o ambiente atual, com prêmios de risco mais abertos após o choque, pode representar um ponto de entrada mais interessante do que o início do ano”, afirma.

Diante da continuidade da turbulência geopolítica, os multimercados seguem sendo uma opção atrativa para o investidor que busca retorno absoluto em ambiente de alta volatilidade, afirma Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital. Diferentemente de fundos de ações ou de renda fixa pura, eles têm mandatos amplos e podem se ajustar com agilidade aos cenários, alternando entre proteção e risco conforme o vento muda.

Uarian lembra que, historicamente, após quedas fortes como esta, a categoria costuma entregar retornos acima do CDI nos meses seguintes, graças à habilidade dos gestores em capturar oportunidades que surgem no pós-crise. Quem resgatar agora pode perder a recuperação que costuma vir depois das quedas.

Para o investidor de longo prazo, especialmente aquele que já tem reserva em renda fixa e busca diversificação além da Selic, os multimercados continuam fazendo sentido, desde que o horizonte seja de pelo menos três a cinco anos e a alocação respeite o perfil de risco. O ano de 2026 ainda tem potencial, mas exige paciência e seleção rigorosa de gestores, diz Uarian.

O que fez a diferença neste ano não foi a direção dos mercados, mas a capacidade de adaptação dos gestores, afirma Marcelo Boragini, sócio e especialista em renda variável da Davos Investimentos.

Olhando para frente, Boragini lembra que o ambiente continua desafiador, mas abre uma janela de oportunidade. “A combinação de inflação pressionada por conta do petróleo, bancos centrais mais cautelosos e incerteza geopolítica tende a manter uma volatilidade muito alta ainda em abril, o que favorece a gestão ativa, mas aumenta a dispersão de resultados dos fundos.”

Ele lembra também que a taxa de juros em 14,75% aumenta o custo de oportunidade para o investidor sair da renda fixa, e o multimercado deixa de ser uma escolha trivial, exigindo maior seletividade.

Olhar apenas o desempenho no mês ou no ano é uma janela muito curta para avaliar se um multimercado é melhor ou pior, até porque essa é uma classe bastante diversa e ampla, afirma João Arthur, diretor de Investimentos da Suno Consultoria, que adota uma visão crítica sobre esses fundos.

Segundo ele, os multimercados deveriam atuar como hedge, ou seja, como proteção, e não apresentar correlação relevante com classes de ativos de maior risco, como ações e crédito privado. “E o que se vê é que, quando a bolsa cai e o risco privado abre, o multimercado cai junto”, afirma. “Então, é algo que deveria servir para diversificar a carteira e acaba não diversificando”, acrescenta.

Desempenho dos grandes fundos

Entre os dez fundos multimercados macro com maior patrimônio, o desempenho em março foi pressionado, mas alguns ainda conseguem manter resultado positivo no ano, como o Verde e determinados fundos da Legacy, da Absolute e do Opportunity.

NomeGestoraPL R$/milhões2026Março12 mesesVolatilidade
Capstone Macro MasterCapstone                 11.595-2,25-6,3212,567,25
Kapitalo K10 MasterKapitalo Ciclo                    7.503-1,67-7,0620,209,61
Verde MasterVerde Asset                    5.6315,07-0,1019,894,66
Spx Nimitz MasterSpx Capital                    5.113-1,75-5,489,475,08
Kapitalo ZetaKapitalo Ciclo                    4.401-5,13-13,0516,1113,22
Legacy Capital MasterLegacy Capital                    3.1910,13-3,4016,645,17
Ibiuna Hedge St MasterIbiuna Macro                    2.737-4,10-10,727,377,51
Legacy Capital Alpha MasterLegacy Capital                    2.459-3,28-8,2417,0810,12
Absolute Vertex IIAbsolute Gestão                    2.4072,65-0,8811,685,09
Opportunity Total MasterOpportunity                    2.2291,01-2,7915,6511,45
Fonte: Economática. Fundos multimercados Macro com maior patrimônio líquido em 31 de março de 2026. Volatilidade anualizada.

Durante evento do Bradesco Investimentos, Bruno Corteiro, sócio da Kapitalo Investimentos, disse que março foi um dos períodos mais desafiadores para o fundo K10 e explicou que a gestora readequou o portfólio, mantendo a visão de ganhos na parte longa da curva de juros e a aposta em preços mais altos do petróleo. “Temos parte relevante da carteira comprada em petróleo e diesel”, afirmou.

“Achamos que o nível de destruição (da infraestrutura de produção do Irã e outros países) até o momento está mal precificado nos mercados para daqui dois ou três meses no mercado de petróleo e o que isso pode causar nos mercados financeiros”, afirmou, ao alertar para o risco de desorganização nos mercados de petróleo e gás, com potencial de gerar um quadro de escassez de produto.

“Compramos bastante diesel e petróleo para dois, três meses, achando que se conflito não se resolver em 30, 60 dias, o petróleo vai mudar de patamar”, concluiu. André Raduan, da Genoa Capital, diz que a gestora aposta também na continuidade da alta do petróleo, mas mirando a queda das moedas e na alta dos juros de países asiáticos, que sofrem mais com a alta do produto.

Já Rodrigo Azevedo, da Ibiúna Investimentos, chamou atenção no mesmo evento para os riscos da crise de crédito privado nos Estados Unidos, que pode afetar a economia e levar o Federal Reserve, o banco central americano, a cortar menos os juros ou até mantê-los nos níveis atuais. Ele afirma que a Ibiúna vem buscando outras oportunidades, como na Hungria — onde o primeiro-ministro Viktor Orbán pode perder o cargo na eleição deste fim de semana — e na Colômbia, que pode eleger um presidente mais alinhado à direita no meio do ano.