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Microsoft, juros nos EUA e “uma pitada” de HASH11: confira as apostas na carteira em que Abilio Diniz investe

Criada há sete anos para gerir os investimentos da família do empresário, O3 Capital abriu fundos multimercados para terceiros em maio

Abilio Diniz
(Crédito: Amanda Perobelli / Agência Estado)

SÃO PAULO – Desde que as primeiras notícias sobre a eficácia da vacina contra a Covid-19 começaram a ser conhecidas, no fim do ano passado, ativos de caráter mais cíclico, como de commodities, consumo e do setor financeiro, entraram no radar de investidores em busca de preços descontados.

Após o desempenho destacado apresentado pelo grupo ao longo do primeiro semestre de 2021, contudo, uma redução da alocação em ativos com esse perfil já começa a ser observada no mercado.

Ao menos é essa a tática que tem sido adotada nos multimercados da gestora O3 Capital, que tem preferido voltar o foco um pouco mais para negócios de tecnologia e da área de saúde.

Criada há sete anos para fazer a gestão dos recursos proprietários do empresário Abilio Diniz e de seus familiares, a O3 abriu as portas em maio para receber também o aporte de terceiros.

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Do total aproximado de R$ 1,8 bilhão sob gestão, cerca de R$ 1,5 bilhão é dinheiro do empresário. A O3 tem dois fundos multimercado macro disponíveis aos investidores. Ambos seguem a mesma estratégia, mas o veículo para o público geral tem a limitação de 20% de investimento no exterior, enquanto no produto para investidores qualificados a alocação global pode chegar a 40%.

Abilio Diniz tem assento no conselho de administração da gestora e participa das decisões relativas aos rumos do negócio, mas não tem qualquer tipo de influencia na gestão dos fundos.

Daniel Mathias, CIO da O3, conta ter hoje nas ações globais a maior aposta para entregar retorno aos cotistas. Do risco assumido pelo fundo por meio dos investimentos que tem hoje em carteira, a classe corresponde a cerca de 85% do total.

No universo da renda variável internacional, a preferência recai especialmente sobre a tese de crescimento, que tem nas empresas de tecnologia dos Estados Unidos as maiores expoentes.

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Microsoft, Amazon e Salesforce estão entre as principais apostas no setor. “Acreditamos que o melhor lugar para colocar dinheiro neste momento é na classe de ações globais. Os juros seguem ainda muito baixos lá fora”, afirma o gestor.

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O conglomerado chinês Ali Baba também está na carteira, ainda que o aumento da regulação na região, bem como uma possível desaceleração no ritmo de expansão do crédito pelo governo local, tenha levado o gestor a reduzir a aposta nas ações.

O CIO acrescenta que fatores demográficos, tais como o envelhecimento populacional, e a utilização crescente de ferramentas digitais, faz do investimento em saúde um dos preferidos na O3, que reflete a visão positiva por meio de ações de empresas como Danaher e Thermo Fisher Scientific.

Embora o debate sobre a alta dos juros nos Estados Unidos e a volatilidade nas ações de tecnologia andem de mãos dadas, Mathias diz que tem priorizado empresas em um estágio já mais avançado em seus modelos de negócios, com geração de caixa robusta e mais resilientes aos impactos gerados por essa discussão.

Ele afirma ainda que tem posições tomadas nos juros americanos, que ganham conforme os rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos avançam, mas que não vê o risco de aperto monetário pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) com preocupação.

Isso porque uma alta dos juros significa que a economia da região estará indo muito bem, obrigado. “Não vemos a subida da taxa de juros pelo Fed como um movimento necessariamente ruim às ações.”

Reabertura econômica no preço

Por outro lado, entre os investimentos que perderam atratividade no radar do gestor para o segundo semestre, estão os ativos mais cíclicos, como commodities, industriais e ações small caps.

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“O processo de vacinação e reabertura já nos parece bem precificado”, afirma Mathias, que conta ter diminuído – embora ainda carregue – uma posição no cobre, e também no urânio, frente ao aumento de demanda esperado para os próximos anos.

O gestor diz que não trabalha com uma queda expressiva para o preço das commodities, mas entende que, após a forte performance recente, a relação entre risco e retorno já não é mais tão atraente.

Ele afirma também que em ambientes de alta da inflação, como o atual, as empresas com ações de menor capitalização são as que costumam ter maior dificuldade de fazer o repasse de preços.

Por esse motivo, a exposição que os multimercados mantinham em índices de small caps na primeira metade do ano, como o Russell 2000, foram desfeitas mais recentemente.

Já empresas bem estabelecidas em seus respectivos ramos de atuação, que geralmente acabam até ganhando participação de mercado em momentos de fragilidade da concorrência, caso de nomes do porte de Nike, Louis Vuitton, L’Oréal e Diageo, são ativos que o CIO da O3 vê com bons olhos e tem na carteira. “São marcas difíceis de serem substituídas.”

Lançado em dezembro de 2020, o fundo O3 Retorno Global – voltado para o investido geral – tem valorização de 3,05% neste ano até 23 de julho, contra o rendimento de 1,56% do CDI. Na opção para os investidores qualificados, o rendimento é de 3,19% no mesmo intervalo.

Brasil e criptomoedas

No mercado local, Mathias afirma ter algumas ações das quais gosta e enxerga bom potencial de apreciação, mas que têm tamanho reduzido atualmente dentro do portfólio, de 5% a 10% do risco, pela percepção de que as oportunidades globais são mais atraentes.

De todo modo, o setor de saúde, por meio de Hapvida e Rede D´Or, além de BTG Pactual e Petz, estão entre as preferências na Bolsa local.

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O CIO da O3 afirma ainda que o fundo tem também uma posição em criptomoedas, por meio do ETF da Hashdex, o HASH11.

A posição é pequena, perto de 0,25% do risco total do portfólio, porém, na avaliação do gestor, não estar atento e aberto a compreender o potencial das novas tendências pode ser mais perigoso do que experimentar gradualmente uma primeira e pequena alocação.

“Negar a existência das coisas é um convite para ser atropelado”, afirma Mathias, acrescentando ainda que, pelo que pôde estudar até aqui a respeito do universo cripto, enxerga uma proposta de valor mais interessante na Ethereum do que no Bitcoin.

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