Mercado se anima com possível disparada da Bolsa pós-eleições: como surfar?

Especialistas defendem dedicar fatia pequena para o trade tático e diversificar a carteira, de olho na limitação do risco de o trade dar errado

•

Ativos mencionados na matéria

Publicidade

A quatro dias do primeiro turno, parte do mercado trabalha com a hipótese de que o resultado da eleição presidencial provoque um movimento forte na Bolsa brasileira: uma vitória da oposição desencadearia um rali, enquanto a reeleição provocaria perdas, mas em menor proporção. Quem quer fazer uma aposta direcional no pleito, porém, precisa dimensionar bem a posição e saber como se proteger caso o cenário esperado não se confirme.

Na semana passada, Luís Stuhlberger, gestor do fundo Verde, um dos maiores multimercados do País, disse que a Bolsa pode subir 30% em caso de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Ninguém tem ação, se entra uma onda de gente comprando sobe muito”, disse o gestor. Outros especialistas também veem esse potencial, ressaltando que a alocação em ações brasileiras está na mínima histórica.

“Qualquer movimentação de fundos quantitativos pode levar a uma alta na Bolsa”, afirma Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, para quem o estrangeiro pode ver no Brasil um trade eleitoral, como ocorreu na Colômbia e na Argentina. Já na queda, a magnitude não seria a mesma. “Como pouca gente tem, não tem quem venda”, explica.

“Não é o caso de partir para o tudo ou nada”, diz, reforçando que a pergunta certa é quanto o investidor quer ter em ações dentro do seu planejamento financeiro. “Se, no seu planejamento, você tem que ter 20% em ações, hoje é o momento de ter 20% em ações.”

O estrangeiro retirou R$ 38,26 bilhões da Bolsa entre maio e agosto, segundo dados da Elos Ayta. Para Max Bohm, estrategista de ações da Nomos, esses recursos podem voltar com uma vitória de Flávio, pela expectativa de maior disciplina fiscal. No entanto, ele dá preferência para uma carteira diversificada que pode ir bem em qualquer cenário, com nomes defensivos e de qualidade que tenham bom potencial de valorização, e cita os setores de saneamento, energia elétrica e telecomunicações.

Anderson Moreira, especialista de investimentos da DEX, é mais cauteloso. Para ele, o potencial de volatilidade é alto se o resultado destoar das pesquisas, mas “é difícil cravar que a Bolsa vai subir X% ou cair Y%” conforme o vencedor, já que as tensões geopolíticas também pesam sobre os preços. Diante disso, sugere separar uma parcela tática de até 5% do patrimônio a uma estratégia direcional, “desde que o investidor entenda os riscos e os cenários possíveis”.

Continua depois da publicidade

Para quem aposta num setor específico, ele indica ETFs setoriais. Já para quem não quer escolher, a alternativa são ETFs amplos, como o BOVA11. “É melhor capturar o comportamento médio do mercado, entre posições vencedoras e perdedoras, do que apostar alto numa tese direcional e o resultado esperado não se concretizar”, diz.

Já uma vitória de Lula traria uma queda na Bolsa que atingiria quem aumentou a posição apostando na oposição, dizem os especialistas, que veem um movimento concentrado no curto prazo, com recuperação posterior de algumas ações. Eles apontam as empresas sensíveis a juros e consumo como as mais expostas, ao passo que as exportadoras, beneficiadas por um dólar mais forte, seriam as mais resilientes.

Passero projeta uma queda de 10% a 15% nesse cenário, mas ressalta que o inverso também vale: uma eventual alta com a vitória de Flávio pode ser seguida de correção.

Continua depois da publicidade

Leia também: “Índice do medo” brasileiro chega à sua máxima histórica pré-eleição

Como limitar a perda

Se a aposta direcional não for bem-sucedida, a proteção mais simples, segundo Moreira, é ter ativos atrelados ao dólar e descorrelacionados da eleição, como ETFs de ações americanas ou globais negociados na B3, que têm custo e complexidade baixos e boa liquidez. Comprar opções de venda de ETFs do Ibovespa ou vender contratos futuros do índice também protege a carteira, mas, segundo ele, exige mais conhecimento e pode gerar perdas maiores que as estimadas, principalmente com alavancagem.

Moreira defende a diversificação internacional como estrutural, e não só para o ano eleitoral. Como o Brasil responde por menos de 2% do mercado global, uma fatia de 15% a 30% no exterior já dilui o risco, afirma. O custo aparece se Flávio vencer e o dólar cair, o que pesa sobre ETFs sem hedge cambial, embora a alta do índice de referência [do ETF?] possa compensar a perda.

Continua depois da publicidade

Bohm tem outra leitura sobre as opções. Para ele, a pessoa física pode usar esses instrumentos como hedge “tranquilamente”, considerando o tamanho e o perfil de cada investidor. Ainda assim, sugere buscar proteção dentro da própria Bolsa, com empresas que ganham com o dólar mais alto, como Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3) e Embraer (EMBJ3).

Passero sugere combinar ações brasileiras com a bolsa da Coreia do Sul, que, segundo ele, tem a menor relação preço/lucro (P/L) projetada entre os principais mercados e complementa o Brasil pelo peso de tecnologia e chips.

Leia também: Gigantes americanas estão pagando até 7% em dólar; veja como investir

Continua depois da publicidade

Quando entrar e quando sair

Com o primeiro turno no próximo domingo (4) e um eventual segundo turno em 25 de outubro, Bohm defende estar posicionado desde já, sem apostar no vencedor.

Moreira propõe escalonar as compras quando a decisão de ter ações brasileiras vai além da eleição. A ideia é definir antes o tamanho máximo da posição e dividi-la em etapas (antes do primeiro turno, entre os turnos e depois do resultado), com frações que reflitam a perda tolerada. Isso reduz a dependência de um único preço de entrada, mas não assegura um preço médio melhor. “Esperar a votação elimina uma incerteza, mas não garante comprar antes de uma alta”, afirma. Já comprar toda a posição antes do pleito concentra o risco.

Em caso de alta forte na Bolsa, Bohm considera interessante realizar parte do lucro. Moreira sugere vender apenas se a fatia de ações passar muito do limite definido para a carteira, o que considera mais consistente do que tentar acertar o topo.

Leia também: “O pior já passou”: gigante asiático vê avenida para ouro disparar 47% em 1 ano

O risco do Tesouro IPCA+

Para quem prefere a renda fixa, o Tesouro IPCA+(NTN-B) pode se valorizar se os juros reais caírem, mas os especialistas alertam que não se trata de uma alternativa sem risco. Para Bohm, nos vencimentos longos o risco é similar ao da Bolsa, e as taxas devem subir com uma vitória de Lula, gerando perdas na marcação a mercado.

Passero é mais pessimista e vê assimetria negativa nas NTN-Bs. Com Lula, diz, as taxas voltariam a IPCA + 8% e haveria muitos vendedores, já que as carteiras estão carregadas desses títulos. Com Flávio, faltaria comprador adicional, porque o estrangeiro tenderia a migrar para as ações. “A NTN-B pode ser uma aposta ruim”, afirma.

Autor avatar
Leonardo Guimarães
Onde Investir | Economia | Mercados