Maioria das estratégias dos multimercados tem perdas no mês

Perda média dos fundos Macro era de 1,40% e recuperação vai depender da estratégia e da duração da guerra

Angelo Pavini

Imagem gerada com IA/Amanda Garcia
Imagem gerada com IA/Amanda Garcia

Publicidade

Os fundos multimercados apresentam perdas em março em quase todas as estratégias, menos nas de Juros e Moedas e Balanceados, mostram os dados diários da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. Até dia 10, das 11 estratégias, 9 apresentam perdas médias que variam entre 1,56% nos multimercados Long and Short Neutro a 0,02% dos Capital Protegido (ver tabela).

MultimercadosMarço (%)Ano (%)Captação março R$/milhões
Balanceados0,122,30-8,2
Dinâmico-0,202,40-35,8
Capital Protegido-0,020,82-9,5
Long and Short Neutro-1,56-1,227,2
Long and Short Direcional-0,542,86-10,2
Macro-1,401,86-24,7
Trading-0,103,0929,2
Livre-0,251,99-265,9
Juros e Moedas0,442,35-420,2
Estratégia Específica-0,052,71382,1
Investimento no Exterior-1,001,111.073,0
Fonte: Anbima. Rentabilidade média da estratégia no mês e no ano até 10 de março. Captação em R$/milhões.

Já os Juros e Moedas e os Balanceados, que costumam incluir multimercados que aplicam também em renda fixa e crédito privado, o ganho médio em março é de 0,44% e 0,12%, respectivamente. Os multimercados de estratégia Macro, mais tradicionais, que costumam se posicionar mais e antecipar os movimentos da economia e de juros, câmbio e bolsa, apresentam perda de 1,40%. Já os multimercados Investimento no Exterior, que têm o maior patrimônio, R$ 740 bilhões, perdem 1,00% no mês.

Leia mais: Raízen e Pão de Açúcar: como fica o investimento em CRI, CRA, fundos e debêntures?

Apesar dos prejuízos, os fundos multimercados registram captação líquida no mês, de R$ 717 milhões, segundo a Anbima, puxada pelos Investimento no Exterior e Estratégia Específica. Mas Juros e Moedas e os Livres têm os maiores resgates.

Para avaliar o impacto da turbulência nos multimercados, é preciso verificar como os gestores estavam posicionados, diz Bruno Maueler, Co-CIO e Diretor de Soluções de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management. Acompanhando as últimas cartas de gestão e relatórios, Maueler diz que a maioria dos gestores Macro, que tomam posições mais direcionais, estavam muito concentrados em posições pró-risco e com teses consensuais, como a questão da diversificação de ativos americanos, com investidores saindo do dólar e bolsa americana e indo para emergentes. “Esses são os mais afetados pela fuga do risco atual”, diz. Muitos vinham pegando carona nesse fluxo para emergentes, que puxou a bolsa brasileira no fim do ano passado e neste ano, e ganharam também com juros, o que mudou a partir da guerra do Irã.

Outro impacto sobre os multimercados veio nas apostas em commodities. Muitos gestores estavam apostando na queda do petróleo e foram pegos de surpresa pela disparada do produto. Havia também os que apostavam em ouro, diante da desvalorização do dólar, e até como proteção, mas o metal acabou caindo depois do início do conflito, que voltou a fortalecer a moeda americana. “Talvez a queda do ouro tenha sido efeito também de desalavancagem, o mercado havia comprado muito e teve de diminuir posições”, explica Maueler.

Continua depois da publicidade

O impacto nas cotas dos fundos foi bastante negativo, com perdas de até 5% e quedas em geral neste mês. “Nada ajudou, foi tempestade perfeita, e alguns tiveram de desfazer posições que estavam muito consensuais”, diz Maueler.

Daqui para frente, o desempenho dos multimercados vai depender da crise e das estratégias dos gestores. “Alguns por regra, após uma perda, têm de reduzir risco, param tudo para refletir sobre o cenário e montam uma posição menor”, explica Maueler. Nesse caso, se o mercado volta rápido, como aconteceu em alguns dias, esses fundos recuperam menos as perdas, pois estão com aplicações menores e correndo menos risco. Já aqueles que acharam que a crise era provisória ou não tiveram queda tão grande e puderam manter as posições, caso o cenário seja de recuperação, com desescalada gradual da crise e o petróleo voltando ao normal, podem ter uma recuperação maior. “Mas o cenário é ainda bastante incerto, temos um risco de cauda (risco de eventos menos esperados) elevado e se a crise escalar ela pode virar um choque mais duradouro de oferta de petróleo, com cenário de estagnação econômica com inflação alta e aí seria preciso mudar toda o portfólio”, afirma Maueler.

Para ele, o investidor precisa neste momento pensar nos multimercados como uma estratégia que agrega um diferencial em sua carteira, que traga um desempenho diferente das NTN-Bs, dos ativos isentos ou da bolsa. “Ter algum investimento que se mexe de forma diferente é extremamente valioso para otimizar uma carteira”, diz.