Inflação baixa vai derreter ganhos das NTN-Bs, diz o ex-BC Bruno Serra  

Gestor do fundo Itaú Janeiro vê IPCA médio perto de zero nos próximos meses e espera juro menor no ano que vem com retração forte da economia

Angelo Pavini

Bruno Serra, CIO do fundo Itaú Janeiro, participa do Stock Pickers (Foto: InfoMoney)
Bruno Serra, CIO do fundo Itaú Janeiro, participa do Stock Pickers (Foto: InfoMoney)

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As NTN-Bs, mesmo pagando mais de 8% ao ano, devem frustrar o investidor pois, com a inflação em baixa, vão render menos que os prefixados ou as aplicações atreladas à Selic no médio prazo, avalia Bruno Serra, gestor do fundo multimercado Itaú Janeiro, da Itaú Asset, e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central. Ele participou da Expert XP 2026.

Serra trabalha com uma redução acentuada da inflação medida pelo IPCA nos próximos meses. “A NTN-B é aquela em que você se engana que está posicionado em um juro alto pois se a inflação for entre 4% e 5% este ano, você não ganha nada”, diz.

Segundo ele, com um juro nominal em torno de 14,5% ao ano, o prêmio de inflação das LTNs, papéis prefixados do Tesouro, está entre 5,5% e 6% ao ano, um nível muito alto pois, se a inflação ameaçar ficar acima disso, o Banco Central não vai permitir.

A operação, chamada de aplicação em inflação implícita, captura a diferença entre o juro dos papéis privados, em torno de 14,5% ao ano, e o juro real das NTN-Bs, de 8% ao ano. “Por isso estou vendido em NTN-B e usando a posição para financiar a aplicação em juro prefixado”, diz.

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Serra nota que essa inflação implícita em torno de 6% ao ano embutida nos juros do mercado está muito acima do IPCA atual, que rodou em 0,16% no mês passado e deve ficar ainda mais baixo neste mês e no próximo. “A gente acha que este mês a alta do IPCA vai para 0,10% e, mês que vem, acho que é deflação, de -0,40%, e no outro mês é mais 0,45%, o que deve dar uma inflação média de 0,05% ao mês”, estima.

Essa seria a inflação que corrigirá as NTN-Bs nos próximos meses, o que limitará o rendimento praticamente aos juros reais de 8% ao ano, frente a mais de 14% dos juros prefixados e da Selic.

Serra reconhece que haverá pressões inflacionárias mais adiante. “Temos petróleo, El Niño, mas a gente acha que existe o risco de a inflação ser mais baixa do que o que o mercado estima”, diz.

Por isso, não só ele, mas boa parte do mercado não quer comprar as NTN-Bs do Tesouro mesmo com juros de 8% ao ano, preferindo os prefixados ou títulos indexados à Selic, que pagam 14,25% ao ano hoje.

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Para ele, também não há razão fundamental para acreditar que o juro real vai ficar nesse nível no longo prazo além da incerteza do cenário local e internacional. “Tem toda essa volatilidade, tem eleição aqui, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que pode subir o juro na reunião desta semana ou na próxima, o petróleo que pode explodir porque o Trump não consegue se resolver com o Irã, então as taxas de juros estão lá em cima por essas incertezas”, diz.

Serra acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne na semana que vem, vai cortar os juros e repetir a dose na reunião de 15 e 16 de setembro. “Acho que a Selic cai mais duas vezes, 0,25 ponto, e após eleição teremos tempo para ver quem ganhou, qual a agenda”, afirma.

Impactos das eleições

Para ele, se o vencedor for o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Fazenda deve voltar a ser Fernando Haddad, que não deve se eleger ao governo de São Paulo. Nesse caso, Serra acredita que Haddad deve dar uma direção mais moderada para a política fiscal. “Já o Lula perdendo, o mercado vai se animar, mas qualquer mudança de política econômica vai animar o mercado, e essa é a hipótese, tem a chance de o Haddad apresentar algum ajuste” afirma o gestor.

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Para ele, a opinião majoritária hoje é que, se Lula for reeleito, ele deve fazer alguma correção de rota em suas políticas. “Poderá não ser a política fiscal ideal, mas deve ser uma política fiscal mais moderada do que foi nos últimos anos”, diz.

O ex-diretor do BC acredita que em 2027 o juro pode cair mais do que o mercado espera diante de uma desaceleração mais forte da economia. “Acho que vamos falar de Selic na casa dos 10%, pois a atividade está desacelerando rapidamente”, diz. Ele estima que o PIB do próximo ano deve ficar abaixo de 1%, com chance de ficar negativo.

“A conta da política monetária atual está chegando, não sei se vamos escapar de um crescimento de 0,5%, de zero ou menos no ano que vem, não vejo como”, explica.

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Ele lembra que a população brasileira está altamente endividada, o que reduzirá o consumo. Já o governo seguirá sem espaço para gastar e a criação de empregos está desacelerando. “O próximo passo deve ser o aumento da taxa de desemprego”, diz.

“Pirueta monetária”

Serra afirma que não vê um fator que favoreça o crescimento da economia no ano que vem. “Não tem vetor de crescimento, as empresas não conseguem investir porque colocam na conta o gasto fiscal que vai impactar o retorno no futuro, como agora, quando o governo corta incentivos e aumenta a carga tributária das empresas”, diz.

Para o gestor, mesmo um corte de juros mais agressivo pelo Banco Central pode não ser suficiente para a economia retomar o crescimento com força no ano que vem. “Para o juro estimular a economia, a Selic teria de cair muito”, diz. “Foram três anos de estímulos e agora o governo está tentando sustentar esse crescimento por causa da eleição, mas o consumo já estava desacelerando”, observa. “E a conta está chegando, o desenrola faz o inadimplente ter crédito novamente, mas daqui a um mês ele vai ter de pagar e vai consumir menos”, alerta.

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Ele compara a situação atual com fim do governo da presidente Dilma Rousseff, quando o juro bateu 13,75% e, depois, com a desaceleração da atividade, caiu dois anos depois para 6,5%. “A política monetária teria de sair de um lado para o outro para estimular a economia, e falo em Selic a 10% no ano que vem sendo conservador”, diz, acrescentando que há projeções de 8% ou menos. “Haja pirueta na política monetária”, diz.

Ele lembra que a situação na época da Dilma era diferente e havia motivo para um juro alto, com preços da energia elétrica, da gasolina e até o dólar desajustados. “Hoje não tem isso e estamos vendo um pânico com a alta da inflação que não vai ter”, resume.