IA derrubou ações de software demais? Gestor da IP Capital vê exagero

Gabriel Raoni, gestor da IP Capital, diz que investidores exageraram ao punir todo o setor de software pelo avanço da IA

Osni Alves

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A onda de pessimismo que varreu o mercado de ações de empresas de software nos últimos meses foi longe demais — e ignorou diferenças fundamentais entre negócios que pouco se parecem. Essa é a avaliação de Gabriel Raoni, sócio e cogestor da IP Capital Partners, uma das mais respeitadas gestoras independentes do Brasil.

Para ele, o mercado errou ao punir todas as empresas do setor da mesma forma, sem distinguir as vulneráveis das praticamente insubstituíveis. A lógica por trás da queda generalizada era simples: se a inteligência artificial pode escrever código, ela pode substituir programas inteiros.

O raciocínio tem algum fundamento — mas só para uma parte do setor. “O segmento de software é muito heterogêneo, mas o mercado bateu igualmente em todas”, criticou Raoni. A distinção que ele aponta é entre um software de assinatura digital, facilmente trocável, e um sistema que opera hospitais ou redes de ensino.

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“Você desliga aquele software, acabou o negócio. E geralmente ele representa apenas 1% do custo do cliente. Ele não troca do dia para a noite por um software que uma inteligência artificial gerou”

— Gabriel Raoni, sócio e cogestor da IP Capital Partners.

A análise foi apresentada no programa Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo. É justamente nos chamados softwares de missão crítica — aqueles dos quais uma empresa simplesmente não pode prescindir — que a IP Capital concentra suas apostas.

A gestora também carrega posição na Microsoft (MSFT34), que chegou a cair 20% no ano antes de recuperar parte das perdas. “Ela voltou para avaliações de preço não vistas desde 2018, com o negócio crescendo cerca de 20% ao ano. Há uma assimetria favorável na mesa”, disse o gestor.

A lição que o Nubank deu ao Itaú

Para explicar como empresas já estabelecidas podem sair mais fortes de uma ruptura tecnológica, Raoni buscou um exemplo mais próximo do cotidiano brasileiro: a chegada do Nubank (ROXO34) ao sistema bancário.

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“A melhor coisa que aconteceu com o Itaú (ITUB4) foi o advento do Nubank. O banco viu que tinha um concorrente com custo de atendimento baixíssimo, mais de 100 milhões de clientes e apenas 10 mil funcionários. E teve que mudar”, afirmou.

O paralelo com a Microsoft é direto. A gigante americana não tem fama de inovar — sua marca é a de seguir rápido quem está na frente. Foi assim com a computação em nuvem, quando a Amazon Web Services dominava o mercado.

Agora, a estratégia se repete com a inteligência artificial. “Ela não precisa ter o melhor produto. O Teams não é melhor que o Google Meet nem o Zoom. Mas está enraizado no mundo corporativo, que tem conformidade regulatória, exigências legais e segurança cibernética. É um animal diferente.”

O ambiente corporativo, reforça o gestor, funciona em ritmo próprio. Grandes empresas não trocam sistemas da noite para o dia — há contratos, treinamentos, riscos legais e resistência interna.

“O mundo corporativo é mais evolucionário do que revolucionário”, disse Raoni. E essa inércia, paradoxalmente, é o que protege os incumbentes: enquanto o mercado antecipa uma revolução imediata, as grandes empresas têm tempo de se adaptar sem perder clientes.

Engenheiros de software: ameaçados ou valorizados?

Uma das maiores preocupações em torno da inteligência artificial é o impacto sobre os profissionais de tecnologia — os engenheiros de software, em especial. A narrativa dominante sugere que parte dessas funções será automatizada.

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Raoni discorda da conclusão catastrófica. “A demanda por esses profissionais nos Estados Unidos está inflexionando para cima. Um engenheiro de software agora pode virar um super engenheiro. Nunca se demandou tanto”, disse.

A visão do gestor é que a inteligência artificial amplifica a capacidade humana, em vez de substituí-la — ao menos por enquanto, e ao menos para quem souber usá-la.

O raciocínio vale também para as empresas de software bem posicionadas: não se trata de ignorar a tecnologia, mas de reconhecer que a transição leva tempo, que clientes corporativos são conservadores e que sistemas críticos não são trocados por impulso.

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Para a IP Capital, é nessa lacuna entre o barulho do mercado e a realidade operacional das empresas que mora a oportunidade de investimento.