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O ciclo que transformou empresas de software em queridinhas do mercado financeiro global — crescimento acelerado, margens gordas e avaliações estratosféricas — chegou ao fim. Essa foi a conclusão mais contundente de um debate entre três gestores experientes que acompanham de perto o impacto da inteligência artificial sobre os modelos de negócios e sobre as estratégias de alocação de capital.
A sentença partiu de Paulo Passoni, managing partner da Valor Capital Group, com sede em Nova York, e não deixou espaço para relativizações. Na sua leitura, o mercado ainda não assimilou a extensão da mudança — e quem demorar a entendê-la vai pagar um preço alto, seja como investidor, seja como gestor de empresa de tecnologia.
O diagnóstico foi apresentado no programa Stock Pickers Aftermarket, com apresentação de Lucas Collazo. Participaram do debate Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, e Christian Keleti, CEO da Alpha Key. Os três discutiram os efeitos da inteligência artificial sobre valuations, estratégias de investimento e a capacidade do mercado de distinguir vencedores de perdedores num ambiente de ruptura acelerada.
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“Todo mundo acreditava em software e achava que ia construir uma empresa e ia conseguir sair num múltiplo de dez vezes a receita. Acho que isso acabou agora”, afirmou Passoni. Para ele, o problema não é cíclico — não se trata de um momento de correção que o setor atravessa antes de retomar a trajetória anterior. A mudança é estrutural: a inteligência artificial corrói a escassez que justificava aquelas avaliações.
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Reinventar ou ser atropelado
Na avaliação de Passoni, as empresas de software que sobreviverão a essa transição serão as que encontrarem novas formas de gerar valor mensurável — possivelmente migrando para modelos que combinem tecnologia com serviços financeiros ou outras receitas mais tangíveis. Quem insistir no modelo antigo verá suas avaliações de mercado minguarem de forma permanente, não temporária.
O desafio, segundo os gestores, é que essa reinvenção precisa acontecer num ambiente de enorme incerteza sobre quem, afinal, serão os vencedores. Reider alertou que o mercado ainda não desenvolveu os instrumentos analíticos necessários para fazer essa distinção com segurança. Subsetor por subsetor — seguros, serviços de informação, logística, entretenimento, meios de pagamento —, a pergunta sobre quem sobrevive à automação se repete sem resposta clara.
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“Tem vencedores e perdedores, e quem são os vencedores e perdedores está mudando muito rápido”, disse Reider. O gestor descreveu um cenário em que lideranças de mercado conquistadas ao longo de anos podem ser revertidas em questão de meses, à medida que novas ferramentas de inteligência artificial redistribuem vantagens competitivas de forma imprevisível. “Quem é vencedor um dia é perdedor. Está um mundo bem difícil de investir. Odeio essa experiência.”
Para Passoni, a única resposta possível — tanto para empresas quanto para profissionais — é a imersão imediata e intensa nas ferramentas disponíveis. Quem não o fizer por escolha será forçado a fazê-lo pela necessidade, ou simplesmente ficará para trás. A recomendação que ele tem feito publicamente é radical: parar de trabalhar por três meses e dedicar esse tempo exclusivamente a aprender a operar a inteligência artificial no cotidiano.
Aprender agora ou se arrepender depois
A lógica por trás da recomendação é simples e implacável. Num mercado em que as ferramentas evoluem em velocidade exponencial, a curva de aprendizado não espera. Quem está sobrecarregado demais para aprender hoje estará defasado demais para se recuperar amanhã. “Se você está muito ocupado e não consegue aprender, você vai ser mandado embora”, disse Passoni.
O executivo reconhece que a recomendação soa extrema — e é exatamente por isso que a faz. A maioria das pessoas, na sua avaliação, ainda subestima a velocidade da transformação porque as ferramentas de dois anos atrás eram apenas uma sombra do que existe hoje. Quem brincou com o ChatGPT no lançamento e concluiu que a tecnologia era interessante, mas limitada, está tomando decisões com um mapa desatualizado.
A mensagem final foi um aviso sem eufemismos: “Se você não aprender esse negócio, vai se arrepender daqui a dois anos.” Não como previsão especulativa, mas como constatação de quem observa diariamente, do epicentro do mercado de venture capital americano, o ritmo com que empresas reformulam estruturas, cortam equipes e redistribuem funções a partir da automação.