Gigante TSMC bate estimativas, mas ação cai e derruba Nasdaq; é hora de sair?

Fabricante taiwanesa de chips viu suas ações caírem junto com as de outras empresas de semicondutores, e expõe nervosismo do mercado com os gastos com infraestrutura de IA

Ativos mencionados na matéria

O logotipo da TSMC é exibido em um prédio em Hsinchu, Taiwan, em 15 de abril de 2025. REUTERS/Ann Wang/Foto de arquivo
O logotipo da TSMC é exibido em um prédio em Hsinchu, Taiwan, em 15 de abril de 2025. REUTERS/Ann Wang/Foto de arquivo

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A TSMC (TSMC34), maior fabricante de chips do mundo e fornecedora de peças essenciais para empresas de inteligência artificial, divulgou nesta quinta-feira (16) um resultado trimestral acima do esperado pelo mercado. Ainda assim, suas ações caíram, e arrastaram consigo papéis de outras companhias do setor de semicondutores nos Estados Unidos.

Por volta das 14h (horário de Brasília), o Nasdaq Composite recuava 0,94%, e o Nasdaq 100, índice mais concentrado em tecnologia, caía 1,33%. O S&P 500 tinha perda mais moderada, de 0,29%, enquanto o Dow Jones, menos exposto a empresas de tecnologia, subia 0,09%.

O que explica o movimento, que à primeira vista parece contraditório? A resposta está em dois pontos específicos do balanço da TSMC que preocuparam os investidores, mesmo com o lucro e a receita vindo acima do esperado, em uma temporada de resultados que, até aqui, vem surpreendendo positivamente na maioria dos casos. Das 40 empresas do S&P 500 que já divulgaram balanços, mais de 87% trouxeram números acima do esperado.

De olho na margem

A TSMC reportou alta de 77% do lucro por ação no segundo trimestre, 11% acima do que o mercado projetava. A receita também veio em linha ou acima das estimativas. Mas o mercado olhou com lupa a margem bruta da empresa, métrica que mostra quanto sobra da receita depois de descontar os custos diretos de produção.

A margem veio acima do piso da própria projeção da companhia, mas abaixo do que a parte mais otimista do mercado esperava, e o guidance para o terceiro trimestre indica que essa margem deve encolher um pouco à frente. Em teleconferência com analistas, o presidente do conselho da TSMC, C.C. Wei, explicou a origem dessa pressão. “Esperamos que a rápida entrada em produção da nossa tecnologia de 2 nanômetros dilua nossa margem bruta em cerca de 3 a 4 pontos percentuais”, falou.

Para investidores acostumados a projeções cada vez mais altas de lucratividade no setor, mesmo uma leve piora de expectativa pode pesar mais do que um lucro recorde no trimestre que já passou.

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Investimento pesado gera dúvida

O segundo ponto de atenção foi o forte aumento no capex, termo usado no mercado para o capital que uma empresa investe em ativos como fábricas, equipamentos e infraestrutura, que a TSMC pretende destinar a 2026. A empresa elevou sua projeção do ano de uma faixa entre US$ 52 bilhões e US$ 56 bilhões para US$ 60 bilhões a US$ 64 bilhões, além de anunciar um aporte adicional de US$ 100 bilhões em fábricas no Arizona, que eleva o compromisso total da companhia nos Estados Unidos para US$ 265 bilhões.

Em condições normais, mais investimento seria lido como sinal de confiança da empresa no crescimento futuro, e essa é justamente a leitura que a própria companhia tenta reforçar junto ao mercado. Wei defendeu essa lógica na teleconferência: “um nível mais alto de capex está sempre correlacionado a oportunidades de crescimento maiores nos anos seguintes”. Ele também reforçou a confiança da empresa na demanda por chips ligados a inteligência artificial nos próximos anos: “acredito que, deste momento em diante, até provavelmente 2029 e 2030, a demanda será muito forte. A tendência é tão robusta que acredito estarmos testemunhando uma espécie de nova indústria”.

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Mas esse tipo de anúncio também alimenta uma pergunta que vem incomodando investidores em todo o setor, até que ponto esse volume de capex vai gerar retorno proporcional, e até que ponto ele está sendo financiado de forma sustentável, sem comprometer a geração de caixa das empresas no curto prazo.

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O que dizem os analistas

Esse comportamento ajuda a explicar por que ações como Arm Holdings (ARM), Micron Technology (BDR: MUTC34), Advanced Micro Devices (A1MD34), Broadcom (AVGO34) e os recibos americanos da SK Hynix caíram junto com a TSMC nesta quinta, com quedas que foram de 3% a mais de 7%. O ETF de semicondutores VanEck (SMH) recuou mais de 2%. Não são empresas diretamente afetadas pelo balanço da TSMC, mas fazem parte da mesma cadeia de investimentos em inteligência artificial, e por isso reagem em bloco a sinais que colocam esse ciclo de gastos em xeque.

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Mas, mesmo com a reação negativa dos papéis no pregão desta quinta, os principais bancos que acompanham a TSMC mantiveram recomendação de compra após o resultado.

O Goldman Sachs elevou seu preço-alvo para os próximos 12 meses de NT$ 3.000 para NT$ 3.100, o que implica um potencial de valorização de 25,5% frente ao fechamento mais recente da ação. O JPMorgan também recomenda compra (overweight), com preço-alvo de NT$ 3.100 e potencial de alta de cerca de 27%. Já o Itaú BBA atualizou seu preço-alvo para NT$ 3.113, um potencial de valorização de 26%, mantendo recomendação de compra (outperform).

Nos três casos, a leitura dos bancos segue direção parecida. O aumento no capex é visto como reforço à tese de demanda por chips ligados a inteligência artificial nos próximos anos, enquanto a pressão pontual sobre a margem bruta é tratada como algo temporário, que não muda a avaliação de longo prazo sobre a companhia.

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Desconforto monitorado

O mercado já apontava que a tese de investimento em inteligência artificial segue de pé, mas alertava para riscos que vêm se acumulando: preços de ações já esticados no setor, um volume crescente de emissão de dívida das empresas ligadas ao tema para financiar essa expansão, e um posicionamento de mercado muito concentrado nesses papéis. Segundo o Morgan Stanley, esses fatores tendem a gerar mais oscilação nos preços das ações, sem necessariamente mudar a direção de longo prazo dos retornos.

Outra fonte de atrito que vem crescendo é a resistência de comunidades americanas à construção de novos data centers, motivada por preocupações com o impacto nas contas de energia, no uso de água e no transtorno das obras. Segundo o Morgan Stanley, cerca de US$ 156 bilhões em projetos de data center foram cancelados ou adiados em 2025, e outros US$ 130 bilhões passaram pela mesma situação apenas no primeiro trimestre de 2026. Esse tipo de entrave tende a encarecer e atrasar a construção da infraestrutura de inteligência artificial nos EUA, ainda que não represente, segundo o banco, um risco de parar o processo por completo.

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Paulo Barros
Onde Investir | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos