Janela de oportunidade?

Gestores aumentam exposição na Bolsa brasileira de olho em reabertura no 2º semestre

Garde, Opportunity, Mauá e UBS Consenso estão mais confiantes com o desempenho do mercado local no curto prazo

bolsa mercado brasil índices indicadores
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Conforme a vacinação tem avançado no país, ainda que lentamente, as perspectivas para a reabertura da economia e para a consequente e tão aguardada recuperação da atividade doméstica começam a melhorar para o segundo semestre de 2021.

No mais recente relatório Focus, as estimativas dos economistas compiladas pelo Banco Central para o Produto Interno Bruto (PIB), em alta há seis semanas, apontam para um crescimento de 3,96% neste ano.

Soma-se ainda aos efeitos da imunização da população a redução do risco fiscal, ao menos na percepção de parte do mercado, bem como a atuação vista como mais assertiva do BC para controlar a inflação, com uma combinação que faz com que as oportunidades na Bolsa local ganhem cada vez mais destaque nas carteiras de gestores de fundos multimercados e de patrimônio ao longo das últimas semanas.

Entre as gestoras de recursos que têm adotado um viés mais construtivo com o país e, por consequência, com a Bolsa brasileira, se destacam nomes como Garde, Opportunity e Mauá Capital, além da gestora de patrimônio UBS Consenso.

Estão no radar desses profissionais desde setores que ainda não conseguiram se recuperar completamente dos danos causados pelo isolamento social, com destaque nesse caso para o varejo físico, mas também áreas da renda variável local com força há um pouco mais de tempo, como os papéis de commodities e do setor financeiro.

Para fazer o incremento da exposição na Bolsa local, a saída tem passado por uma redução da alocação nas bolsas globais, em especial americanas, frente a uma avaliação de que os ganhos por lá já precificam boa parte da melhora prevista para a economia do país nos próximos meses.

Como base de referência, no acumulado de 2021, até 27 de maio, o S&P 500 sobe 11,8%, em dólar, com ganhos que chegam a 48,6% no intervalo de 24 meses. No caso do Ibovespa, a alta, também em dólar, é de 2,7% no ano, com uma leve queda de 0,2% em 24 meses, segundo dados da plataforma Economatica.

Virada de mão

Na Garde, Edoardo Biancheri, gestor de renda variável, conta ter aumentado no início de maio em cerca de 40% a exposição em ações brasileiras dentro das carteiras dos multimercados.

A aprovação do Orçamento de 2021 com o respeito ao teto de gastos, junto a uma atuação firme do BC para conter a pressão inflacionária, e tendo ainda como pano de fundo a reabertura acelerada da economia doméstica até o fim do ano, compõem o cenário ideal para sustentar a expectativa positiva quanto à performance do mercado local, explica Biancheri.

PUBLICIDADE

Para fazer o movimento, a gestora reduziu a exposição no índice americano S&P 500, por enxergá-lo em níveis já mais bem precificados do que as ações domésticas.

Com isso, hoje a alocação na Bolsa brasileira está entre as maiores convicções nos fundos da Garde, representando, na média, cerca de 11% da exposição líquida das carteiras. A exposição internacional, por outro lado, está mais próxima de 2%.

“A Bolsa brasileira é uma das que mais tem potencial de valorização frente aos pares”, diz Biancheri, que aponta entre as preferências no momento nomes do setor financeiro que se beneficiam do processo de popularização do mercado de capitais, bem como do crescimento dos hábitos digitais. B3, BTG Pactual e PanAmericano estão entre as apostas no grupo.

O aumento dos gastos dos brasileiros com serviços de saúde, com destaque nesse caso para ações de Rede D´or e Hapvida, também está entre as principais alocações no radar da Garde, junto ainda ao setor de mineração no campo das commodities.

Embora os preços das matérias-primas negociados no exterior tenham passado por uma queda nas últimas semanas, o gestor entende se tratar mais de um ajuste natural em meio à forte valorização, do que uma mudança de tendência de médio prazo.

Preços esticados no exterior

No Opportunity, Marcos Mollica, gestor dos fundos multimercados, diz também ter realizado em maio um incremento do risco no portfólio destinado às ações brasileiras, sustentado pelas melhores perspectivas de curto prazo para o país, seja no fronte sanitário ou no político.

“Quando vimos uma tendência de melhora da pandemia com a vacinação avançando e a segunda onda dando sinais de arrefecimento, e com uma melhora do clima político, enxergamos uma janela de oportunidade para o Brasil”, afirma Mollica.

Ele acrescenta se tratar de uma aposta ainda de viés mais tático, frente às rápidas mudanças de cenário que caracterizam o país, mas que faz sentido frente ao desconto da Bolsa ante os pares comparáveis.

PUBLICIDADE

“No ambiente internacional, os preços já estão em níveis bem mais desafiadores”, diz o gestor, que conta ter diminuído de maneira marginal a exposição às ações americanas nas últimas semanas.

Segundo Mollica, o aumento do debate sobre a pressão inflacionária nos Estados Unidos e o eventual ajuste nos juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começam a ser monitorados cada vez mais de perto, embora ainda não sejam vistos como motivos suficientes para deixar de ter uma exposição global relevante.

Após os ajustes recentes, a exposição na renda variável local está hoje perto de 15% nos multimercados do Opportunity, percentual próximo ao destinado às ações no exterior.

O gestor não quis entrar em detalhes sobre os níveis de exposição nas duas classes antes do rearranjo por se tratar de uma gestão bastante dinâmica da carteira dos multimercados, mas ressaltou que, de modo geral, a alocação global era “muito maior” do que a local.

Ele conta ainda que, até então, a carteira de ações brasileiras era destinada basicamente às commodities por meio da Vale, que segue até hoje como uma exposição importante, devido à continuidade do reaquecimento global aguardada à frente.

Nas últimas semanas, contudo, a mineradora passou a dividir parte do espaço com o varejo de vestuário, representado por papéis como das Lojas Renner, além de ações de administradoras de shoppings. “Avaliamos aumentar mais a alocação na Bolsa local, conforme formos ganhando mais confiança com o controle da pandemia no país”, diz Mollica.

Prazo de validade

Em linha com os pares, na Mauá Capital, o CIO Luiz Felipe Laudari cita a melhora do quadro político em Brasília, bem como do controle da pandemia, ao justificar o aumento gradual de risco que tem sido realizado nos multimercados desde meados de abril.

“Vemos um upside muito significativo para a Bolsa em um horizonte de seis a nove meses”, diz o gestor da Mauá, lembrando que, conforme se acentuar no início de 2022 o debate sobre as eleições, a volatilidade e o risco também tendem a subir.

PUBLICIDADE

De todo modo, até lá, entre os setores que têm sido privilegiados pelo time da Mauá na Bolsa, Laudari aponta como um dos destaques o varejo. O CIO prevê que a retomada da economia doméstica no segundo semestre tende a beneficiar tanto os canais de venda físicos, como os digitais de empresas na carteira dos fundos.

Em abril, Magazine Luiza, Lojas Renner e Lojas Americanas estavam entre as principais apostas, junto com o setor de commodities por meio de Vale, Usiminas e Suzano.

Além da recuperação da atividade local e global frente aos estímulos dos governos e da vacinação, o gestor entende que outro fator um pouco menos visível também pode contribuir para a valorização das ações locais: um eventual arrefecimento da onda de IPOs.

Com a entrada constante de novos nomes na B3, boa parte dos recursos que têm ingressado para o mercado de ações acaba sendo drenada por esse grupo, sugere Laudari. “Quando a leva das aberturas perder força, a Bolsa tende a apresentar uma performance positiva destacada em um curto espaço de tempo”, prevê.

Reformas e privatizações

Além das gestoras de recursos, no universo das grandes instituições especializadas na recomendação de investimentos para clientes de elevado patrimônio, a Bolsa brasileira também tem tido lugar de destaque no leque de opções.

“Acreditamos que a dinâmica do coronavírus melhorará nas próximas semanas e meses, e as ações são a melhor classe de ativos para se beneficiar em tal ambiente”, escreve Ronaldo Patah, estrategista de investimentos da gestora de patrimônio UBS Consenso, em relatório publicado no dia 24 de maio.

Se por um lado o debate sobre uma possível nova extensão do auxílio emergencial é negativo para títulos de renda fixa devido ao aumento do risco fiscal, por outro, gera um impacto positivo para o setor de varejo, por contribuir com as expectativas de crescimento do consumo, defende o estrategista.

Nesse contexto, Patah avalia que, apesar da valorização recente, as ações brasileiras não estão caras, em especial no caso dos setores de commodities e finanças. “O que o Brasil deve fazer para surfar essa onda de commodities enquanto ela dura é muito simples: reformas e privatizações”, aponta o estrategista do UBS Consenso.

Ele escreve ainda no relatório que o fato de o real seguir desvalorizado frente aos pares emergentes na visão dos estrangeiros pode representar uma vantagem ao país. “Essa janela de oportunidade não deve ser perdida.”

Em curso gratuito de Opções, professor Su Chong Wei ensina método para ter ganhos recorrentes na bolsa. Inscreva-se já.