Gestoras veem cenário mais desafiador para real frente ao dólar no curto prazo

Algumas casas têm optado por atuar de maneira mais tática no câmbio, diante de um cenário de fortes incertezas

Bruna Furlani

Ilustração fotográfica de uma nota de dólar
17/07/2022
REUTERS/Dado Ruvic
Ilustração fotográfica de uma nota de dólar 17/07/2022 REUTERS/Dado Ruvic

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A disparada do dólar nos últimos dias trouxe dúvidas a investidores sobre a direção da moeda americana e como preparar a carteira para esse cenário de maiores incertezas locais e externas. Dentro de gestoras ouvidas pelo InfoMoney, a visão é de que o momento é desafiador para uma eventual valorização do real frente à moeda americana, diante de ataques especulativos de integrantes do Governo contra Fernando Haddad (PT), atual Ministro da Fazenda, além de dúvidas sobre o fiscal e sobre os próximos passos da política monetária americana.

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O dólar comercial encerrou o dia a R$ 5,40 pela primeira vez em cerca de 18 meses. A moeda começou o dia bastante pressionada após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o cenário fiscal e derrota do Governo na véspera, mas a alta foi amenizada depois da decisão do Federal Reserve (Fed, banco central americano).

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Na avaliação da Persevera Asset Management, há um ciclo vicioso no curto prazo em que a piora das expectativas de inflação e da sensação de risco sobre o fiscal levam a uma corrida por ativos de maior segurança, como o dólar, o que torna a batalha mais difícil para que o real consiga se valorizar frente à moeda americana. Já no médio e longo prazos, a casa avalia que o real está “desvalorizado” demais e vê chance de recuo do dólar.

“É uma questão de desancoragem das expectativas e temor dos investidores sobre a ancoragem fiscal. Começou com um governo mais gastador e depois ganhou contornos maiores com o Banco Central”, afirma Guilherme Abbud, sócio-fundador da Persevera Asset Management.

O executivo defende que as falas recentes de diretores e do próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre a política fiscal ajudaram a adicionar preocupação a agentes financeiros nos últimos dias.

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“Não é uma crítica. A entrada do BC nessa discussão sobre fiscal foi de boa fé, mas ela fez mais mal do que bem, porque os agentes reajustaram essas expectativas para cima”, diz. “Quando tem um turbulência no avião, todos olham para os comissários. Se eles estiverem nervosos, há desespero. Com o BC funciona da mesma forma”, acrescenta Abbud.

Já Guilherme Preciado, sócio e membro da equipe de gestão do Opportunity Total, acredita que as declarações do BC sobre fiscal não tiveram tanto peso no mercado, mas avalia que a divisão entre os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) indicados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por Jair Bolsonaro (PL) na reunião de maio adicionou mais incertezas ao cenário.

“Se o mercado passa a enxergar um BC mais dividido, isso gera dúvidas se ele será mais leniente com a inflação após a transição. O BC fica menos ‘crível’. Agora, vemos uma tentativa dos membros de passar uma mensagem de coesão depois do último Copom”, observa Preciado.

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Táticos em câmbio

Apesar de acreditar que o cenário será mais “desafiador” para o real se valorizar frente ao dólar no curto prazo, a Opportunity tem atuado de forma mais tática no câmbio por deter uma visão mais neutra sobre a moeda.

Preciado diz que o real tem se mostrado menos resiliente neste ano na comparação com o ano passado. Segundo ele, um dos fatores que poderiam gerar maior alívio para a moeda brasileira no curto prazo é o exterior, mas o executivo lembra que há dúvidas sobre os próximos passos do Fed. Na avaliação da casa, o cenário parece ser de crescimento resiliente nos Estados Unidos e de convergência mais lenta da inflação.

Hoje pela manhã, uma estabilidade nos números do índice de preços ao consumidor (CPI) de maio nos Estados Unidos animou agentes financeiros, que esperavam uma ligeira alta. Apesar de mais um dado melhor do que o esperado, o Fed optou por ser cauteloso e manter a taxa de juros nos EUA no patamar entre 5,25% e 5,50% ao ano. A autoridade monetária também indicou que deve realizar apenas um corte neste ano.

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Há dúvidas também sobre as eleições. Preciado lembra que, se o debate eleitoral nos Estados Unidos ficar mais acentuado e levar a uma postura mais hostil de tarifações sobre produtos da China, isso poderia levar ao fortalecimento da moeda americana frente a outras divisas.

Como se beneficiar do cenário de dólar mais alto

Em meio a um cenário que tende a ser favorável para o dólar frente ao real, a sugestão de Gustavo Spinola, estrategista chefe da RB Investimentos, é que o investidor aproveite o momento atual para montar ou aumentar a posição em fundos de renda fixa, multimercados e renda variável com alocação no exterior e sem hedge (proteção) cambial, o que poderia garantir retornos que se beneficiam da desvalorização do câmbio atual.

De olho no maior estresse nos mercados locais, a recomendação da RB Investimentos é que o investidor também aumente o peso de alocações na renda fixa local, com destaque para papéis atrelados à inflação, ou ao CDI.