Dólar cai mais e Selic não chega a 15%? As apostas de gestores em ajuste a “tarifaço”

Diversas casas mostram consenso por um real valorizado e chance maior de o BC subir a Selic em menor grau do que é precificado atualmente pelo mercado

Paulo Barros

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Diante de um cenário internacional marcado pela imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos e pela crescente incerteza fiscal no Brasil, gestoras locais de renome ajustaram suas estratégias e projetam um real mais valorizado, além de uma trajetória menos agressiva de alta da Selic, sinalizando crença de que a taxa básica de juros pode não atingir 15% em 2025.

Apesar da retomada parcial da atividade econômica, as projeções de casas como Ibiúna, Legacy, Genoa, Adam e Vinland convergem para um cenário de maior seletividade nos investimentos e cautela nas apostas direcionais, tanto no Brasil quanto no exterior.

A Adam Capital destacou que, apesar da saída líquida de US$ 7,5 bilhões no mercado de câmbio à vista em março, o real teve um dos melhores desempenhos entre moedas globais, com valorização real efetiva de 4,7%. A casa também sinalizou que, diante do dilema entre combate à inflação e o peso da rolagem da dívida pública, o Banco Central brasileiro não deve sancionar todas as altas de Selic precificadas pelo mercado.

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As posições compradas em dólar também foram reduzidas na Genoa, que interpreta que o choque tarifário promovido pelos EUA tende a ser desinflacionário para o Brasil. O canal de transmissão, segundo a gestora, deve ocorrer menos por impacto direto nas exportações e mais pela queda nos preços das commodities, o que pode pressionar menos o câmbio local.

Apesar de perdas nessa fatia da alocação em março, a gestora manteve exposição ao mercado de juros local, interpretando que o choque externo justificaria uma postura mais branda do BC.

Já a Ibiúna destaca que, embora o cenário interno exija juros elevados por mais tempo, opta por manter uma postura mais neutra ou defensiva, considerando os desequilíbrios fiscais e o ambiente de incerteza global. Dessa forma, reduziu suas posições tomadas em juros nominais no Brasil, o que indica menor aposta em alta da Selic.

Na Legacy, o fundo macro da casa manteve sua posição vendida em dólar, apostando na valorização de moedas de países emergentes, com a aposta de que o “tarifaço” de Trump deve provocar desaceleração global e pressionar a inflação dos EUA. Ainda assim, a gestora acredita que o Federal Reserve só deve voltar a cortar juros mediante sinais mais claros de desaquecimento do mercado de trabalho.

Nos juros locais, a gestora manteve posições aplicadas, ou seja, apostando na queda das taxas, refletindo a leitura de que o BC poderá interromper o ciclo de alta, mesmo com inflação elevada, diante dos impactos da desaceleração global. A gestora também vê espaço para ampliar essas posições, dependendo da evolução dos dados de atividade e inflação.

A Vinland, por sua vez, mantém posições aplicadas em juros locais, ou seja, apostando na queda, mas com postura cautelosa, diante da volatilidade nos ativos de risco e da falta de clareza na condução da política tarifária norte-americana. Para abril, a gestora mantém uma visão atenta a oportunidades táticas, especialmente após o aumento do prêmio na taxa terminal da Selic ocorrido no mês anterior.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)