Fundo perde 84% em 5 dias – e gestora agora quer 9 meses para resolver o problema

Vanquish argumenta que a Infinity, antiga gestora do Vanquish Pipa, comprou opções IDIs flexíveis sem garantia e sem liquidez não honradas no vencimento

Bruna Furlani

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Após congelar os resgates do seu fundo com mais cotistas pela segunda vez neste ano, a gestora Vanquish Asset Management está pedindo mais tempo aos investidores para tentar resolver a situação.

Os saques no fundo de renda fixa Vanquish Pipa – antigo Infinity Select, com pouco mais de 5 mil cotistas – foram suspensos há cerca de dez dias devido à falta de liquidez de um dos ativos mais relevantes da carteira: uma posição em opções IDIs flexíveis.

O ponto é que a operação de compra e venda de opções só poderia ser exercida na data de vencimento, no dia 17 de maio, o que não ocorreu. Na ocasião, a Vanquish tentou exercer as opções, mas a contraparte – até agora não identificada pela gestora – não cumpriu com o pagamento, conforme consta em registro da Cetip. A partir daí, o fundo passou a ser credor da contraparte.

Oportunidade com segurança!

Nesta semana, a Vanquish apresentou um plano de negociação com a contraparte à RJI Corretora, responsável pela administração do fundo. Na noite desta quinta-feira (25), a RJI enviou comentários sobre a proposta aos cotistas – que discutirão as possibilidades apresentadas em uma assembleia agendada para dia 7 de junho.

No documento da RJI, ao qual o InfoMoney teve acesso, a Vanquish propõe que a contraparte liquide as opções IDIs flexíveis até o dia 12 de fevereiro de 2024 – ou seja, com nove meses de atraso em relação ao vencimento original. A garantia, nesse caso, seria feita por meio de uma Stand by Letter of Credit, ou SBLC, na sigla em inglês.

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Conforme especialistas consultados pelo InfoMoney, uma SBLC é uma garantia que bancos brasileiros costumam oferecer para operações ou contratos de determinadas transações internacionais.

Na avaliação da RJI, é fundamental que o banco emissor obedeça as normas do Banco Central e que a emissão seja em moeda local. Nesse sentido, a administradora solicitou a apresentação de um instrumento do banco emissor da SBLC com detalhes sobre a sua qualificação, o valor, além das condições e dos termos gerais e excludentes do contrato.

“O simples envio das informações solicitadas não gera nenhum tipo de concordância automática por parte da RJI CV em função da necessidade de análise e crítica do seu respectivo conteúdo”, ponderou.

Entenda a transação

Como a transação com as opções IDIs flexíveis do fundo da Vanquish não possuía qualquer garantia – fiduciária ou real, a RJI atribuiu valor zero para os ativos, após a falta de pagamento na data do vencimento.

Dessa forma, a administradora registrou uma provisão para crédito de liquidação duvidosa (PCLD) de 100%, o que levou a perdas de 84% para o Vanquish Pipa. Nos cinco dias entre o fechamento do fundo para resgates e a última segunda-feira (22), o valor das cotas caiu de R$ 1,72 para R$ 0,26.

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As opções IDIs flexíveis negociadas pelo fundo são instrumentos em que o principal objetivo é tentar “acertar” o ritmo de altas ou quedas de juros que será adotado nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) até a data de vencimento.

Segundo a Vanquish, elas já compunham a carteira do fundo quando a casa assumiu a gestão – originalmente, o fundo pertencia à Infinity Asset, tradicional gestora brasileira fundada em 1999.

A diferença entre as opções flexíveis e as tradicionais é o fato de não terem características padronizadas pré-definidas pela Bolsa. Nesse caso, as definições ficam a cargo das partes (comprador e vendedor) e podem envolver o tamanho do contrato, o vencimento etc.

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Por isso, em caso de calote, como o que ocorreu, a B3 não atua necessariamente como a contraparte garantidora – papel que assume no caso das opções padrão. Nesse caso, vale o que ficou acordado entre as partes.

Walter Xavier da Cunha Filho, um dos advogados que representam um grupo de investidores da Infinity Asset na Justiça, chama atenção para o fato de que os fundos transferidos para a Vanquish eram oferecidos ao público como investimentos conservadores – ao mesmo tempo em que a maior parte da exposição dos produtos se concentrava em ativos sem liquidez ou garantia.

Cunha Filho também dá destaque para o prazo adicional pedido pela gestora para a resolução da questão: são 271 dias até 12 de fevereiro de 2024, o que pode colocar em risco os cotistas do fundo, já que protelaria mais uma vez o cumprimento das obrigações e dos resgates que foram solicitados.

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O advogado lembra que, desde o dia 3 de março, a solicitação para o resgate do valor integral passou a ter prazo de cotização de 75 dias corridos.

A visão da administradora

Além de comentar sobre a extensão do prazo de liquidação dos ativos, o documento da RJI também aborda a proposta da Vanquish de distribuir – de forma equitativa – o caixa líquido do fundo em cinco dias após a realização da assembleia do dia 7 de junho.

Para isso, a gestora afirmou que seria feito o levantamento do valor possível de ser distribuído sem que isso comprometesse o pagamento das despesas do fundo.

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Na resposta, a administradora solicitou detalhes sobre a estimativa de valor, assim como os critérios que seriam estabelecidos para o recebimento imediato dos montantes devidos aos cotistas.

A RJI também pediu para que a gestora esclareça se o fundo Vanquish Pipa continuará fechado para novos aportes ou para resgates de cotas, e se os valores destinados às despesas serão mantidos em caixa ou em aplicações com liquidez.

A Vanquish foi procurada pelo InfoMoney para prestar esclarecimentos sobre os comentários feitos pela administradora e respondeu apenas que só vai falar depois que procurar novamente a RJI.

Resgates congelados e cotistas insatisfeitos

O Vanquish Pipa encontra-se congelado para resgates desde o dia 17. Após receber a minuta de negociações da gestora, alguns cotistas destacaram que toda a situação é “nebulosa” – tanto é que o valor da operação com opções IDIs flexíveis nem sequer foi relevado. O mesmo argumento também foi defendido por advogados.

“É uma operação box que não releva quem é a contraparte, ou a moeda utilizada”, acrescenta Cunha Filho, que representa alguns investidores.

Ao todo, quatro fundos da antiga Infinity foram fechados na última semana: além do Vanquish Pipa, também o Vanquish Coral, o Vanquish Forte e o Vanquish Safira. Todos são carteiras de renda fixa.

Atualmente, a Vanquish possui sete fundos sob gestão, sendo que cinco vieram da Infinity Asset. Em dezembro do ano passado, a gestora possuía R$ 521,8 milhões sob gestão, enquanto no fim de abril o volume havia crescido para R$ 604,0 milhões, após a transferência dos fundos para a nova casa.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) diz que acompanha o caso, mas que não comenta situações específicas. Apesar disso, na pauta da comissão, está previsto o julgamento de outro processo referente à Infinity Asset para o dia 20 de junho deste ano.

Segundo informações disponíveis na CVM, o processo trata da apuração de irregularidades em operações com contratos derivativos realizadas por fundos de investimentos geridos pela gestora, em infração a dispositivos das Instruções CVM nº 306/1999, nº 409/2004, nº 555/2014 e nº 558/2015.

Entenda o caso

Todo o imbróglio começou em fevereiro quando a conhecida gestora Infinity Asset, fundada em 1999, anunciou o fechamento para resgates e aplicações de três fundos de renda fixa da casa: Infinity Tiger Alocação Dinâmica, Infinity Lotus e Infinity Select.

A medida foi tomada em razão do “aumento repentino e atípico, considerando o histórico do fundo, de pedidos de resgate por parte dos cotistas”, segundo fato relevante divulgado na época. Os saques na gestora começaram após a casa perder o selo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em dezembro de 2022.

De acordo com informações da associação, a casa foi desligada por causa do descumprimento de melhores práticas, como a realização de investimentos em violação aos limites previstos nos regulamentos; falhas no processo de acompanhamento dos riscos de crédito das operações realizadas nos fundos; falhas na administração de potenciais conflitos de interesses; falta de independência na área responsável por gestão de risco e compliance e falhas no processo de rateio de ordens.

A perda do selo da Anbima não impedia a gestora de continuar operando, já que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é o órgão responsável por autorizar o funcionamento e registro da instituição.