Alocação na renda fixa

Gestora de US$ 2 trilhões, Pimco prioriza título emergente grau de investimento a papel de maior risco americano

Segundo Joachim Fels, diretor e consultor da gestora, injeção trilionária de capital não impedirá o forte aumento da inadimplência entre as PMEs americanas

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SÃO PAULO – A agilidade e a potência na resposta à pandemia do coronavírus têm rendido elogios dos agentes de mercado ao governo e ao banco central americano. Os estímulos diretos anunciados às empresas e famílias nos Estados Unidos já somam cerca de US$ 2 trilhões, com um potencial multiplicador que pode aumentar a cifra para US$ 6 trilhões.

“O governo americano foi veloz e furioso”, disse Joachim Fels, diretor e consultor econômico global da gestora californiana Pimco, durante live promovida nesta quarta-feira pela XP Investimentos.

Por conta dessas medidas, o mês de abril deve ter sido a pior fase da pandemia nas economias desenvolvidas, afirmou Fels, que não descarta alguma realização das bolsas americanas após a recuperação das últimas semanas embalada pelo socorro financeiro – o S&P 500 subiu 12,7% no mês passado, mas ainda cai 11,8% no ano.

Contudo, mesmo com todo o apoio estatal para suavizar a queda e com o pior talvez tendo ficado para trás, o tombo será feio, levando muitas empresas à inadimplência, quando não à falência, principalmente as de menor porte, disse o especialista, que prevê o Federal Reserve concentrando sua atuação nos ativos high grade (com menor risco de crédito).

A Pimco projeta uma queda ao redor de 10% do PIB americano no segundo trimestre na margem, em um cenário que vai impor dificuldades financeiras para uma série de companhias, afirmou o diretor, apontando o setor de energia como um dos mais frágeis no contexto atual.

“Por essa razão, temos dado preferência aos títulos emitidos por governos e grandes corporações de mercados emergentes, em detrimento aos títulos high yield [de rating mais baixo e, portanto, maior risco] dos Estados Unidos”, afirmou Fels, que é membro do comitê de investimentos da Pimco. “Os ativos emergentes devem entregar um retorno maior que os high yield americanos em um horizonte de um a dois anos.”

Estão no radar da gestora apenas os títulos emitidos em moedas fortes, como o dólar ou o euro. Apesar de reconhecer que a forte desvalorização das moedas emergentes pode ter sido exagerada, Fels disse também que o valor justo das divisas pode não ser mais o mesmo de antes da crise.

Além disso, o cenário atual tem impedido os bancos centrais de aumentar os juros para defender suas divisas, disse Fels, que, antes de entrar na Pimco, em 2015, foi economista-chefe global do Morgan Stanley em Londres.

Pela incerteza quanto ao comportamento das moedas emergentes, a Pimco tem sido mais cautelosa nesse nicho do mercado. “Temos algumas posições de longo prazo em moedas do Brasil, México e Rússia, mas pequenas e concentradas nas estratégias que podem assumir mais risco.”

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Durante sua apresentação, Fels falou que espera também por uma queda da inflação no curto prazo, com a retração econômica induzindo as pessoas a consumir menos.

No longo prazo, contudo, a tendência é que os preços voltem a subir, na esteira das políticas monetária e fiscal altamente estimulativas.

E, quando isso ocorrer, os bancos centrais não gozarão da mesma autoridade dos dias atuais para acionar a política monetária, afirmou o economista. “Muitos governos estarão com suas dívidas subindo de maneira íngreme.”

Fels prevê ainda que a crise vai acelerar os processos de “desglobalização” e protecionismo que já estavam em andamento antes da pandemia.

“As empresas devem buscar cadeias de suprimento mais simples”, disse o diretor, acrescentando que o crescimento dos governos populistas também contribui para o aumento das barreiras. “Nas crises, tendências que estavam em desenvolvimento se fortalecem.”

No início da década passada, recorda Fels, quando os governos inauguraram a era da inflação e dos juros baixos e das compras gigantescas de ativos, a leitura da Pimco foi a de que começávamos a viver um “novo normal” nas economias e nos mercados.

“Agora estamos no novo ‘normal 2.0’, tendência que não veremos apenas nos desenvolvidos, mas cada vez mais nos mercados emergentes também.”

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