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O Brasil vive um momento raro: muitas empresas em dificuldade, juros nas alturas e retornos históricos para quem souber escolher onde investir. A avaliação é de Rafael Fritsch, sócio e diretor de investimentos da Root Capital, gestora especializada em crédito.
Para ele, o cenário atual é propício para quem tiver método e coragem. “Nunca foi tão fácil ler o cenário. É um cenário arriscado, mas é um cenário que tem prêmio”, afirmou.
Fritsch foi entrevistado por Lucas Collazo no programa Stock Pickers e trouxe casos reais que mostram como a gestora aplica essa estratégia na prática — inclusive em situações que, à primeira vista, pareceriam perdidas.
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A Root Capital administra R$ 8 bilhões em fundos de crédito com perfis variados de risco e prazo. Ao contrário da maioria dos fundos, que carregam entre 100 e 150 papéis diferentes, os fundos da Root têm no máximo 30 a 50.
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A correia que valia mais do que parecia
Um dos casos mais curiosos citados pelo gestor envolveu a Samarco, empresa controlada em partes iguais pela Vale (VALE3) e pela BHP (BHPG34). Após o rompimento da barragem em Mariana, em 2015 — tragédia que matou 19 pessoas e gerou um passivo ambiental bilionário —, a mineradora entrou em recuperação judicial.
A Samarco era financeiramente relevante: gerava US$ 500 milhões por ano em dividendos e valia cerca de US$ 5 bilhões. Mas carregava US$ 3 bilhões em dívidas, e um banco queria se livrar de uma fatia delas — R$ 300 milhões — garantida por um equipamento incomum: a correia transportadora da mina.
A correia é a estrutura que leva o minério de ferro do interior da mina até o ponto de embarque. Sozinha, quase não tem valor no mercado. Mas para a Samarco, ela era indispensável: sem ela, toda a operação pararia — e junto com ela, os US$ 500 milhões anuais em dividendos.
“Imagina mandar meu advogado tomar aquela correia toda. Vai botar onde? No quintal da Root Capital?”, brincou Fritsch. Por trás da piada havia uma estratégia séria: a simples ameaça de executar a garantia foi suficiente para garantir tratamento privilegiado nas negociações.
Posição pequena, resultado grande
Mesmo representando apenas R$ 300 milhões diante de uma dívida total de US$ 3 bilhões, a Root Capital conseguiu ser tratada de forma prioritária. “A ameaça de tomar aquela garantia importante para a empresa nos deu um assento grande na mesa”, disse Fritsch.
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No final, a gestora recebeu integralmente o que tinha a receber, com juros. O gestor atribui o resultado à leitura correta de que Vale e BHP tinham interesse em manter a Samarco funcionando.
O caso virou exemplo de uma lição simples e poderosa: não é o valor de mercado do bem que importa — é o quanto ele faz falta para a empresa devedora.