Mercado em crescimento

Ganhos dos gestores vão às alturas com boom dos multimercados

Com juros menores que a inflação, investidores estão dispostos a pagar taxas de administração e performance para tentar obter retornos mais elevados

(Bloomberg) — Enquanto os fundos de hedge encolhem em todo o mundo devido aos baixos retornos e às altas taxas de administração, um país está contrariando essa tendência: o Brasil, onde os gestores estão deixando seus empregos nos bancos para tentar a sorte em busca de potenciais recompensas multimilionárias.

“Você tem hoje tanto dinheiro à disposição das gestoras independentes que elas conseguem ter lucro super rápido, então elas têm muito dinheiro para pagar os gestores”, disse Leon Goldberg, sócio da XP Inc., a maior corretora do Brasil, em uma entrevista. “Muitas delas estão tirando talentos dos bancos e uma da outra também.”

Executivos sêniores estão abandonando suas longas carreiras em grandes bancos, incluindo JPMorgan Chase & Co., Credit Suisse Group AG e Itau Unibanco Holding SA, para criar suas próprias gestoras de fundos multimercados, a versão brasileira dos fundos de hedge, e de fundos de ações, atraídos pela chance de mais independência e ganhos mais polpudos.

Um gestor de fundo multimercado pode ganhar mais de R$ 25 milhões por ano no Brasil em uma empresa independente, enquanto um punhado de estrelas do mercado podem fazer até R$ 100 milhões em compensação total, de acordo com pessoas familiarizadas com a remuneração do setor.

Executivos de banco que chefiam uma gestora de recursos de terceiros ou a tesouraria raramente ganham mais de R$ 15 milhões, disseram as pessoas, pedindo para não serem identificadas discutindo políticas de compensação privada.

As gestoras independentes também têm outras vantagens.

“Quando você é dono de sua gestora, você não tem um limite de remuneração como teria em um banco”, disse Ricardo Amatto, sócio da empresa de busca de executivos Heidrick & Struggles no Brasil.

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“Além disso, todos os bancos praticamente diferem a remuneração variável, em geral por três a quatro anos, enquanto em uma gestora você recebe todo o seu dinheiro de uma vez.”

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Há vantagens fiscais, também. Os sócios de uma gestora recebem a maior parte de sua remuneração por meio de dividendos, disse Amatto, e esses pagamentos são isentos de Imposto de Renda no Brasil. No banco, a remuneração é tributada em 27,5%.

“Então você pode ver por que tantas pessoas seniores deixaram os bancos para se tornarem empreendedores no setor de gestão de fundos de investimento”, disse Amatto.

Entre as principais saídas: Sylvio Castro, ex-diretor de investimentos da unidade de private banking do Credit Suisse no Brasil, que deixou o banco para criar sua própria gestora de fundos multimercado, e Jorge Oliveira, ex-executivo do JPMorgan, que foi para uma gestora fundada pelo veterano do JPMorgan Giovani Silva substituindo um executivo que saiu para criar sua própria empresa.

O setor de gestão de fundos de investimento local no Brasil, de R$ 5,75 trilhões, é o maior da América Latina e é historicamente controlado por grandes bancos que investiam o dinheiro dos clientes em produtos de renda fixa de curto prazo.

Isso era bom o suficiente quando os retornos giravam em torno de 14% há quatro anos. Agora que a taxa básica de juros no país caiu para apenas 2%, abaixo da inflação, os investidores estão mais do que dispostos a pagar até 2,5% ao ano em taxas de administração, mais 20% em taxas de performance, para tentar obter retornos mais elevados em um fundo multimercado.

“As baixas taxas de juros estão alimentando o sonho de crescimento dos gestores no Brasil”, disse Patrick O’Grady, presidente da Vitreo, uma empresa de investimentos e corretora com R$ 7 bilhões sob gestão.

O boom dos multimercados se manteve mesmo durante a pandemia, também graças ao Banco Central, que injetou R$ 1,1 trilhão de liquidez no sistema financeiro do país e evitou uma crise bancária, reduzindo depósitos compulsórios e exigências de capital.

Os fundos multimercado tiveram ingressos líquidos recordes de R$ 88,8 bilhões este ano até outubro no Brasil, depois de captar R$ 77,3 bilhões no ano passado, de acordo com a Anbima, a associação dos mercados de capitais do país.

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“Ainda há cerca de R$ 7 trilhões investidos em produtos de renda fixa no Brasil, com retornos reais negativos, então a migração para ativos mais arriscados, como ações, deve continuar”, disse Sara Delfim, que ajudou a fundar a Dahlia Capital em 2018 após nove anos na Bank of America Corp. “As perspectivas para a indústria local de fundos permanecem positivas.”

É um grande contraste com o que está acontecendo globalmente. Em todo o mundo, os fundos de hedge registraram neste ano quase US$ 55 bilhões em resgates até outubro, depois de perder US$ 102 bilhões em 2019, de acordo com dados compilados pela eVestment. Os investidores globais têm buscado produtos passivos e mais baratos, após anos sofrendo com os retornos que ficaram atrás dos índices de referência.

No Brasil, empresas como a Genoa Capital Gestora de Recursos estão colhendo os frutos. Lançado em junho, o fundo multimercado da empresa levantou quase R$ 7 bilhões em dois meses e agora está fechado para novos investimentos.

Fundado por Andre Raduan, Mariano Steinert e Emerson Codogno, veteranos que eram da unidade de gestão de recursos de terceiros do Itaú, o fundo cobra 1,9% a 2,5% em taxas de administração e 20% em taxas de performance.

Os pioneiros da indústria também estão levantando mais recursos, como a JGP Asset Management, de Andre Jakurski, que tem mais de R$ 27,5 bilhões sob gestão, e a Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger, com mais de R$ 46 bilhões.

Embora novas gestoras sejam abertas em um ritmo vertiginoso, sua lucratividade e sobrevivência não são garantidas.

“A gestão de fundos é um negócio de escala”, disse Amatto, o recrutador de executivos. “Você precisa crescer para ser lucrativo e ter um bom desempenho. Então eu vejo muita gente que começa com custos fixos muito altos, subestimando os riscos e a concorrência”.

Noventa novas gestoras foram criadas apenas este ano no Brasil, segundo a Anbima, mas cerca de 28 fecharam no mesmo período. Para sobreviver, algumas empresas podem precisar se juntar com outras por meio de fusões para ganhar força.

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“Sempre há espaço para gestoras que geram retorno”, disse o veterano da indústria José Tovar, presidente da Truxt Investimentos, que administra cerca de R$ 18 bilhões. “O desafio é entregar – e rápido”.

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