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O desempenho do Ibovespa vem surpreendendo no ano, mas os fundos de ações não ficam atrás. Pelo contrário: eles superam o índice da Bolsa com folga, mas o resultado depende muito da estratégia e dos ativos que compõem a carteira.
Impulsionada pela forte entrada de investidores estrangeiros, que já chega a R$ 68,5 bilhões em 2026, R$ 14,7 bilhões apenas em abril até dia 15, a classe como um todo rende mais de 4% no mês até dia 14, abaixo dos 5,97% do Ibovespa. No entanto, os ganhos podem alcançar 8,42% no caso dos fundos setoriais, puxados pelas ações de Petrobras (PETR4) diante da disparada do petróleo, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Já em 2026, o ganho alcança quase 35%, com destaque para os fundos FGTS e mono ações de Petrobras, contra 23% do Ibovespa — ou seja, uma diferença de cerca de 50%. Enquanto isso, na outra ponta, aparecem os fundos de ações de empresas de menor porte, as small caps.
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| Tipo de fundo de ação | Rentabilidade 2026* (%) | Rentabilidade abril* (%) |
|---|---|---|
| FMP-FGTS | 34,75 | 6,80 |
| Mono Ação | 33,82 | 3,73 |
| Indexados | 22,40 | 5,87 |
| Índice Ativo | 20,63 | 5,93 |
| Dividendos | 20,59 | 5,79 |
| Valor/Crescimento | 15,41 | 5,77 |
| Livre | 12,41 | 5,67 |
| Small Caps | 9,13 | 4,78 |
| Invest. no Exterior | 7,55 | 6,12 |
| Setoriais | 5,65 | 8,42 |
| Ibovespa | 23,29 | 5,97 |
| Ind. Dividendos | 21,14 | 5,22 |
| Small Caps | 10,93 | 4,92 |
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Apesar dos ganhos, o momento é de saques nos fundos de ações em geral, que registram saídas líquidas até 14 de abril de R$ 1,7 bilhão no mês e R$ 7,1 bilhão no ano, segundo a Anbima. Enquanto isso, os estrangeiros dominam o mercado, respondendo por 61% do volume negociado no ano na Bolsa, o que explica a alta concentrada em papéis preferidos por esses investidores e que influencia o desempenho dos fundos locais.
| Tipo de fundo de ação | Captação 2026* (R$/milhões) | Captação abril* (R$/milhões) |
|---|---|---|
| FMP-FGTS | -1.726 | -857 |
| Mono Ação | -1.460 | -581 |
| Indexados | -372 | -174 |
| Índice Ativo | -12.302 | -2.307 |
| Dividendos | -1.201 | -77 |
| Valor/Crescimento | -2.933 | -594 |
| Livre | -9.780 | -6.473 |
| Small Caps | -752 | -120 |
| invest. no Exterior | 38.731 | 7.955 |
| Setoriais | -1.471 | -883 |
Cenário macro favorável
A renda variável tem tido uma performance realmente de destaque este ano, afirma Fabiano Cintra, head da área de Análise de fundos da XP. Ele lembra que, no ano passado, a performance também foi muito positiva para a bolsa local e o Ibovespa subiu 33,95%, em linha com a melhora significativa dos mercados emergentes, que fez o índice internacional MSCI Emergentes subir 30,58%.
“Vemos um cenário macro muito bem delineado, em que as economias centrais como Estados Unidos enfrentam algum tipo de ajuste perante essa reorganização do comércio global”, explica. Com isso, muito do capital internacional está sendo realocado e o Brasil aparece como um potencial receptor pois os preços estavam bem descontados.
Ao analisar as estratégias de investimento, Cintra destaca que os fundos passivos ou com cotas em bolsa, os ETFs, acabaram se beneficiando desse movimento macro de alocação por acompanharem o Ibovespa e o MSCI Brasil. “A gente vê os fundos passivos como uma grande forma de ter essa exposição”, destaca.
Fundos ativos
Já entre os fundos long only, fundos ativos que tentam superar o Ibovespa com uma carteira diferenciada, uma boa parte bateu o índice, apesar de os resultados serem bastante heterogêneos. “É natural quando os gestores fazem a seleção de papéis em um ambiente com grande dispersão entre setores e empresas”, diz Cintra. Outra estratégia, os fundos long biased, que tentam ganhar tanto na alta quanto na baixa do mercado, e que podem ser mais defensivos em momentos de volatilidade, também tiveram performance positiva. “Eles têm mandatos mais flexíveis e podem ter uma alocação mais tática que os long only nesse ambiente de maior volatilidade” explica.
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Cintra observa que os fundos de dividendos não conseguiram acompanhar o Ibovespa, e o IDIV, o índice do setor, sobe menos este ano, 20%, ante 22% do Ibovespa até esta segunda-feira, dia 20. “Mas sempre há a possibilidade de o investidor se beneficiar ao longo do tempo de um cenário de juros mais altos e de uma tese mais defensiva, e a estratégia combinou bem retorno razoável com volatilidade mais controlada”, acrescenta.
Já os fundos de ações small caps, por natureza, são mais voláteis e sensíveis à atividade doméstica e ao crédito. Por isso tendem a sentir um pouco mais os períodos de juros elevados e a aversão ao risco. O índice do segmento o SMLL, sobe 11% no ano, metade da alta do Ibovespa. “Mas em contrapartida eles têm a tendência de uma recuperação mais forte quando o ciclo melhora”, afirma.
Fluxo dita o mercado
O que vimos nos últimos 12 meses foi mercado muito guiado por fluxo bem forte e por fatores macroeconômicos, afirma Marcelo Boragini, sócio e especialista em renda variável da Davos Investimentos. Isso acabou favorecendo algumas estratégias e, entre as que melhor performaram, estão os fundos com viés mais direcional e concentrados em large caps, principalmente bancos, Petrobras e ligadas a commodities, tudo pela volta com força dos estrangeiros buscando liquidez, valores descontados e exposição a juros reais elevados.
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Fundos de dividendos tiveram desempenho interessante pelo perfil defensivo e pelo nível da taxa de juros que mantém o investidor mais sensível à geração de caixa. Já os ETFs, fundos passivos, acompanharam bem esse movimento justamente porque o índice foi puxado pelas grandes empresas.
Os fundos de small caps, porém, ficaram para trás. A explicação, diz Boragini é que são empresas com menor liquidez, mais sensíveis ao ciclo doméstico e menos beneficiadas pelo fluxo estrangeiro, que se concentra em grandes companhias.
Gestão ativa versus fundos passivos
Nos últimos 6 a 12 meses, investidores posicionados em fundos passivos que acompanham o Ibovespa e o IDIV, índice que reúne as principais empresas pagadoras de dividendos, obtiveram retornos expressivos, destaca Eduardo B. Marocke, head de Fundos de Investimento, Previdência e Alternativos da Faz Capital. O desempenho foi impulsionado, em grande parte, pelos grandes bancos e pelas commodities.
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“Historicamente, quando esses setores performam bem, os instrumentos passivos tendem a capturar esse movimento com eficiência e custo reduzido”, explica. Segundo ele, em uma janela de dois anos, essa dinâmica se confirma: os fundos passivos mostraram consistência frente a boa parte da indústria de gestão ativa.
No entanto, ao ampliar o horizonte para 36, 48 ou 60 meses, o cenário apresenta nuances importantes, afirma Marocke. Ele dá como exemplo o fundo Real Investor Ações, da gestora Real Investor Asset, com histórico desde 2012.
“Um fundo tradicional long only, com foco em value investing (investimento em valor) nos moldes de Warren Buffett, entregou retornos de 96,33%, 90,37% e 92,52% nessas janelas, respectivamente — contra 86,30%, 70,42% e 64,60% do Ibovespa no mesmo período.”
Segundo Marocke, o desempenho de longo prazo “evidencia a capacidade da gestão ativa de agregar valor quando avaliada no horizonte adequado”.
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Cuidados na entrada
Sobre os cuidados para o investidor que quer entrar na onda da bolsa, Fabiano Cintra, da XP, recomenda primeiro considerar horizonte e perfil de risco. Fundos de ações são instrumentos de longo prazo, tem horizonte de cinco anos ou mais, e o tamanho da alocação em ações deve ser combatível com a tolerância ao risco, à volatilidade, e estar de acordo com o perfil de risco da carteira.
Em segundo lugar, o investidor deve sempre prezar por diversificação, evitar concentrar em uma única ação, um único fundo, um único gestor. “O foco é sempre na construção de carteira, na seleção de gestores com performance comprovada, capacidade de geração de resultado no longo prazo, e que tenham negócios e gestoras perenes”, recomenda.
Fundos passivos e ativos
Para os fundos passivos, a recomendação é entender a característica do índice, como ele se comporta, qual concentração setorial, se ele tem poucas ações ou muitas. E sempre olhar a liquidez e o desempenho do fundo ou ETF versus o índice de referência, se estão “coladinhos” ou se tem dispersão. E para os fundos ativos, conhecer o estilo de gestão. Ele recomenda também olhar como o fundo se comporta em diferentes ciclos, de alta, de queda, expansionistas e contracionistas.
Dividendos e small caps
Nos fundos de dividendos, Cintra recomenda que o foco tem de ser em retornos sustentáveis, e não apenas o dividendo alto que algum papel pagou em um período. E nos small caps, o cuidado é com a volatilidade maior. “São às vezes valuations mais erráticos, a liquidez é mais baixa e o risco é mais elevado que as médias e grandes empresas, por isso o tamanho da posição tem de ser bem calibrado, com um horizonte mais longo e que se alinhe com o apetite de risco do investidor”.
É preciso também seguir monitorando principalmente o cenário internacional, alerta Cintra. Para o Brasil, ele acredita em um vento positivo na medida em que os preços das commodities sobem e o país fique mais competitivo, assim como sua moeda. Mas ele lembra que existem desafios domésticos também, como o ano eleitoral e o ajuste fiscal. “Então não se deve olhar só o rali, é preciso entender fundamento, cenário macro e sempre adotar uma abordagem diversificada”.
Evitar olhar o retrovisor
Para Assis, da Asset Bank, depois de um ciclo recente de forte valorização em parte da bolsa e de juros ainda elevados, o principal cuidado do investidor é não confundir retorno passado com previsibilidade futura. Nos fundos de ações, o risco está em entrar no movimento já esticado sem avaliar fundamentos. “O cenário atual exige seletividade, com foco em empresas que tenham geração de caixa, balanços sólidos e menor dependência de financiamento”, reforça.
Outro ponto crítico é a liquidez. Em momentos de estresse, fundos com ativos menos líquidos podem sofrer mais com resgates, impactando a cota. Por isso, alinhar prazo de investimento com a estratégia do fundo é essencial.
Relação risco-retorno
Para quem busca exposição à renda variável com perfil de risco mais controlado em horizonte de longo prazo, o IDIV tem apresentado uma relação risco-retorno relevante — em diversas janelas, com retorno similar ou superior ao Ibovespa e menor volatilidade, avalia Marocke, da Faz Capital. Em 60 meses, por exemplo, o IDIV acumulou 107,54%, contra 64,60% do Ibovespa. “Para investidores em processo de reposicionamento em bolsa, essa pode ser uma entrada mais adequada do que a exposição direta a small caps sem clareza sobre o prazo”, explica.
Marocke defende a importância do horizonte de investimento na análise de fundos de ações. “Avaliações inferiores a 12 meses capturam apenas ruído de mercado e para que uma estratégia de ações revele seu potencial real — e seus riscos — são necessários pelo menos três a cinco anos, a depender do mandato”.
Olho na geração de caixa
Entre os fundos de ações ativos, o melhor desempenho recente tem aparecido nas estratégias mais seletivas, com foco em empresas com geração de caixa forte, valuation ainda descontado e menor fragilidade financeira, afirma Gustavo Assis, CEO da Asset Bank. Olhando para frente, ele acredita que o cenário ainda favorece gestão ativa, com maior dispersão entre empresas. Dividendos devem continuar relevantes, enquanto small caps tendem a ganhar força em um ciclo de queda de juros, mas ainda com volatilidade no curto prazo, afirma.