Fundos cambiais: por que retorno difere do dólar?

Fundos aplicam em títulos da dívida pública, atrelados à variação da moeda norte-americana, e não em dólares

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SÃO PAULO – O dólar vem registrando sucessivas altas em 2002, batendo recordes de cotação desde a implementação do Plano Real. A procura pela moeda norte-americana se intensificou neste ano em parte por causa das instabilidades no cenário econômico externo, frente à dúvida dos investidores quanto ao ritmo de recuperação da economia norte-americana e, mais recentemente, com a possibilidade de uma guerra entre EUA e Iraque.

Instabilidades levam dólar a registrar fortes altas

No mercado interno, o quadro sucessório presidencial soma-se às turbulências externas, aumentando o pessimismo dos investidores. Isso porque, segundo as pesquisas de opinião, a candidatura de José Serra (PSDB), preferido pelo mercado por simbolizar a continuidade da atual gestão político-econômica, não consegue registrar bom desempenho.

Recentemente, o temor do mercado elevou-se ainda mais com a possibilidade de o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ser eleito já no primeiro turno, uma vez que obteve 48% dos votos válidos nas últimas pesquisas divulgadas recentemente.

Assim, alguns investidores aproveitaram a tendência de alta da moeda norte-americana para investir em fundos cambiais, tentando assim auferir maiores ganhos. Porém, apesar de tais fundos terem obtido bom rendimento nos últimos meses, a rentabilidade não foi idêntica a do dólar comercial.

Por que os fundos não acompanharam o dólar?

Primeiramente, o investidor deve estar ciente que um fundo cambial, por imposição da lei, não pode comprar dólares. A moeda norte-americana é utilizada apenas para remessas de dividendos ou divisas por empresas, ou ainda em transações comerciais de exportação e importação, entre outros.

Assim, os fundos cambiais concentram seus movimentos basicamente na compra de títulos do governo atrelados à variação da moeda norte-americana e na operação de contratos no mercado futuro de câmbio da BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros). Porém, tanto os títulos do governo como os contratos futuros, além de remunerarem a variação do dólar, embutem uma taxa implícita de juros, conhecida no mercado como cupom cambial.

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A origem do termo cupom refere-se aos selos que alguns títulos de dívida possuíam, na época em que eram transacionados na forma de papel. Assim, caso o investidor comprasse uma debênture de uma empresa, por exemplo, recebia um comprovante com vários desses selos. No ato do pagamento dos juros pela empresa, o credor se dirigia ao banco, retirava um selo e trocava-o pelos recursos provenientes do investimento.

Cupom cambial disparou de 4% para 50%

Porém, frente às incertezas nos quadros interno e externo, a taxa do cupom cambial disparou, saindo de cerca de 4% em janeiro para atingir 49% durante o pregão da BM&F na última quinta-feira.

Para entender o impacto da alta do cupom vale lembrar que se o fundo onde você aplicou o dinheiro comprou títulos do governo, será remunerado de acordo com a variação cambial no período mais os 4% do cupom cambial, como era negociado no início do ano. Porém, como o cupom disparou, o preço dos títulos caiu para refletir a maior taxa de juros, uma vez que o preço do título e o cupom são inversamente proporcionais. Assim, se por um lado o investidor ganhou com a alta do dólar, por outro a alta do cupom colaborou para desvalorização dos títulos.

Além disso, outro motivo que fez com que os fundos cambiais não acompanhassem a forte alta do dólar nos últimos meses foi o fato de que o comportamento da moeda norte-americana no mercado futuro também não chegou perto das cotações infladas do mercado à vista.

Finalmente, vale lembrar que os administradores de fundos de investimentos cobram uma taxa de administração sobre o patrimônio do fundo, independentemente de o dólar cair ou subir.

Fundos cambiais podem superar o dólar no longo prazo

Assim, deve também ficar claro para o investidor que os fundos cambiais tendem a acompanhar o dólar no longo prazo, podendo até superá-lo. Isso devido à taxa de juros implícita nos contratos de títulos da dívida pública que os fundos compram, o cupom cambial.

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Essa é, na verdade, a grande vantagem que o investidor tem quando pretende aplicar o dinheiro em algum investimento atrelado ao dólar. Ao invés de comprar fisicamente a moeda, seja no mercado comercial, seja no mercado paralelo, o investidor pode aplicar seus recursos num fundo cambial, que inclusive tende a superar a variação do dólar devido ao cupom, e ainda contará com a expertise dos profissionais que administrarão seus recursos.

Finalmente, é necessário ressaltar que investimentos em dólares, independentemente de serem feitos via fundos ou através de compra física de moeda, são bastante arriscados e, da mesma forma que podem auferir grandes lucros, podem também resultar em grandes perdas.

Assim, tais investimentos são recomendados para quem quer manter parte do patrimônio em dólares, seja para quitar uma dívida atrelada à variação da moeda norte-americana, seja para uma viagem ao exterior ou para outro propósito. Quem pretende especular, deve estar ciente do elevado grau de risco, já que o dólar é um dos ativos mais voláteis do mercado, ou seja, um dos que registra maiores oscilações.