Prêmio por ficar parado

Fundo de ações de Lírio Parisotto rende 121% em 12 meses com commodities e estatais (e pouquíssimas mudanças na carteira)

Confira os principais papéis na carteira concentrada do fundo Geração Futuro L Par FIA

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InSummit 2020

SÃO PAULO – O empresário gaúcho Lírio Parisotto é um dos maiores investidores da Bolsa brasileira. O fundo Geração Futuro L Par FIA, criado em 2007 para investir parte de seu patrimônio, tinha em dezembro de 2020 um total de R$ 3,85 bilhões aplicado em ações.

Recentemente, esse fundo descolou de seus pares. Segundo dados da Economatica, nos 12 meses terminados em 11 de junho, a rentabilidade acumulada chegou a 120,7%, bem mais que os 36,7% do Ibovespa e acima dos fundos de ações monitorados pelo InfoMoney (saiba mais).

A maior parte do retorno, explica Parisotto, se deveu ao ciclo positivo das commodities — em especial, a quatro ações de empresas que se beneficiam do aumento da demanda (e dos preços) de matérias primas: Vale, CSN, Usiminas e Braskem.

“O fundo não faz grandes movimentações, seguimos a filosofia buy and hold, sem trocas espetaculares de um ano para o outro”, disse ao InfoMoney. “O mercado premia a vagabundagem.”

Outra parcela importante veio do investimento nas ações das estatais Eletrobras e Banco do Brasil. “Petrobras eu nunca tive, a minha cota de “Bras” eu pago via Eletrobras, e também com o Banco do Brasil, posições que representam juntas cerca de 20% do fundo.”

O fundo tem uma carteira concentrada com quase 90% do patrimônio nas seis ações e acumula um rendimento anual composto de 24% desde o início. Parisotto assinala que os investimentos começaram a ser feitos originalmente em setembro de 1998 por meio de uma empresa de participações e posteriormente transferidos para o fundo com a incorporação do ganho anterior, calcados na expectativa de que os setores mais tradicionais da economia ainda seguirão relevantes por bastante tempo.

“Eventualmente pode até ter algum ajuste, mas acho que a tendência é mais de alta do que de baixa”, afirmou o investidor, sobre as perspectivas para os preços das commodities em meio à retomada acelerada das grandes economias globais.

Em 2018, Parisotto foi condenado à prestação de um ano de serviço social por agressões à sua então namorada, a atriz e modelo Luíza Brunet.

Na entrevista abaixo, o empresário, que comanda a petroquímica Innova, fala de estratégia de investimento, IPOs “anabolizados” e a crise de 2020. Leia os principais trechos:

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Quais investimentos mais contribuíram para o retorno dos últimos 12 meses?

As maiores responsáveis por essa alta destacada são as empresas de commodities, mais especificamente quatro ações, que, pelo que andaram nos últimos meses, representam hoje algo em torno de 70% a 75% do total de investimento do fundo, que são Vale, Braskem, CSN e Usiminas.

A carteira tem esse viés voltado para commodities desde que comecei a fazer esses investimentos. O fundo não faz grandes movimentações, seguimos a filosofia “buy and hold”, sem trocas espetaculares de um ano para o outro.

Quais as perspectivas para as commodities no segundo semestre do ano?

Não tenho bola de cristal e é muito difícil prever o futuro, mas pelas informações gerais que temos até aqui, o mercado espera um crescimento de quase 9% para a China, e algo como 6% a 7% nos Estados Unidos.

Então, considerando só o crescimento dessas duas economias, sem nem levar em conta os outros países que também estão crescendo, não vejo como as commodities poderiam cair drasticamente.

Eventualmente pode até ter algum ajuste, mas acho que a tendência é mais de alta do que de baixa, em função do crescimento dessas grandes economias, que, se for como está sendo previsto, vai demandar muita commodity para todos os projetos de infraestrutura.

Chama atenção o fato de não haver Petrobras em uma carteira bastante voltada para commodities. Por quê?

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Petrobras eu nunca tive, a minha cota de “Bras” eu pago via Eletrobras, e também com Banco do Brasil, posições que representam juntas cerca de 20% do fundo.

Dependendo da evolução da chamada de capital que está em andamento, pode ser que haja mais espaço para a ação da Eletrobras continuar subindo, mas essa é assim como as outras uma empresa que tenho na carteira desde sempre. Idem no caso do BB. São companhias boas pagadoras de dividendos que gostamos bastante de ter no portfólio.

Como o senhor avalia a governança nas estatais?

A verdade é que a governança melhorou muito nas maiores estatais, no BB, na Eletrobras, na Petrobras.

Agora, não existe estatal excelente, o que existem são estatais boas, mas excelente não tem nenhuma, devido à ingerência política possível do acionista controlador. Algumas são boas, mas a maioria é ruim. E são ações que sempre vão ter algum desconto por serem de empresas estatais, esse ônus de ser estatal já está no preço.

Quais são as principais características a empresa precisa ter para entrar na carteira do fundo?

Gostamos de empresas da economia tradicional, que gerem lucro ou com boa perspectiva de lucro.

Como enxerga a onda de IPOs na B3, com muitas empresas de tecnologia vindo a mercado?

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Não digo que todos os IPOs sejam ruins, mas entendo que a maioria deles não vale a pena olhar.

De todas as aberturas de capital que ocorreram na B3 nos últimos anos, só entrei em uma, e que era uma derivada de um investimento que já tinha, que foi a CSN Mineração. O fundo vendeu um pouco da posição em CSN e comprou CSN Mineração, que são de segmentos relacionados.

Os IPOs infelizmente sempre são um pouco anabolizados, colocam em um preço forçado porque tem muita comissão no meio para abrir o capital, e esse custo no fim quem paga é o investidor.

O fundo fez alguma alteração recente na composição da carteira?

Não fizemos grandes movimentos, só aumentamos um pouco ainda no ano passado, começo deste ano, a participação de Braskem. Só que como Braskem teve um desempenho muito forte, acabou se tornando o principal papel da carteira hoje.

Alguma redistribuição de peso está no radar?

Costumo dizer que o mercado premia a vagabundagem. O que quero dizer com isso é que o mercado premia quem não se movimenta. Entendo que não há porque sair porque subiu muito, nem comprar porque caiu demais. Não é um fundo que fica se movimentando.

Como foi atravessar a crise de 2020?

Foi um momento muito triste, e sabe por quê? Porque eu estava com pouco dinheiro para comprar mais ações. Sabia que essa recuperação ia acontecer, só não sabia quando, e não esperava que fosse tão rápida, mas não tinha dúvida de que as ações estavam baratas, e se estivesse com o caixa um pouco melhor seguramente teria comprado mais.

Não fizemos nenhuma mudança por conta da crise. Em momentos assim, o melhor a se fazer é se recolher à posição fetal, porque as pancadas doem menos. Não tem o que fazer. A única coisa que não se pode fazer é sair nessa hora.

Sempre apregoo isso, venda a hora que quiser, menos quando estiver na bacia das almas, para que vai sair nesse momento? Espere que as coisas voltam, e quando voltam, é sempre superando o pico anterior. Veja onde está a Bolsa, perto dos 130 mil pontos.

O que significa dizer que, mesmo que alguém tenha entrado no pico, se tiver paciência, uma hora vai se recuperar de eventuais perdas.

Falam que o mercado de renda variável tem risco, mas acho que o risco é estar fora, tem que entrar. Não tem nada mais gostoso do que ser sócio da empresa sem ter que se incomodar com a gestão, lidar com os clientes, aguentar toda espécie de aborrecimento que não é fácil. Sou um grande defensor da renda variável, todo mundo deveria fazer sua aposentadoria comprando algumas ações.

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