FIDCs ganham força e prometem mudar o mercado de crédito no Brasil

"O grande mercado no mundo é o mercado de dívida"

Osni Alves

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O crédito no Brasil está passando por uma transformação silenciosa, mas de enorme alcance. Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, estão ocupando um espaço que antes era exclusivo dos bancos — e isso está abrindo tanto oportunidades quanto riscos para quem investe.

O tema foi destrinchado no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, em conversa com João Peixoto Neto, fundador e presidente da Ouro Preto Investimentos, gestora com quase R$ 17 bilhões sob gestão.

A lógica por trás do movimento é simples. Historicamente, só os bancos podiam emprestar dinheiro e captar recursos de terceiros. Com o tempo, o mercado de capitais foi absorvendo essas duas funções, permitindo que empresas emitissem debêntures, notas comerciais e outros títulos diretamente para investidores.

Os FIDCs são o passo seguinte: transformam carteiras de crédito em fundos acessíveis ao público.

O maior mercado do mundo

“O grande mercado no mundo é o mercado de dívida”, afirmou Peixoto Neto. “Dívida pública e dívida privada. Só que essa dívida privada está saindo de dentro dos bancos e vindo para o mercado de capitais.”

Oportunidade com segurança!

Para o executivo, há três formas de investir: comprar participação em negócios, como ações; comprar bens esperando valorização, como imóveis; ou comprar dívida. E a dívida é, de longe, a maior das três.

Um FIDC funciona como uma carteira de crédito empacotada dentro de um fundo. Ele é “revolvente” — o dinheiro que entra com o pagamento dos empréstimos é reinvestido em novos créditos.

A estrutura tem duas camadas principais: a cota sênior, que oferece uma rentabilidade-alvo parecida com renda fixa, e a cota subordinada, que absorve as perdas primeiro, mas também fica com o lucro quando as coisas vão bem.

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Quem usa e por quê

Os clientes dos FIDCs são variados. Fintechs que querem financiar um nicho específico, como antecipação de comissão de corretores de imóveis ou crédito estudantil, são um perfil comum.

Grandes montadoras de veículos também entraram nesse mercado. “Por que as montadoras no Brasil têm bancos? Porque não tinha outra forma”, explicou Peixoto Neto.

“Hoje, ao invés de montar um banco, elas montam um FIDC.”

— João Peixoto Neto, fundador e presidente da Ouro Preto Investimentos.

Esse movimento de tirar o crédito de dentro dos balanços bancários tem um nome técnico: desintermediação. E já aconteceu nos Estados Unidos, onde as gestoras independentes cresceram tanto que hoje são maiores do que os próprios bancos.

A BlackRock (BLK), por exemplo, tem US$ 11 trilhões sob gestão, contra US$ 3,5 trilhões do JPMorgan (JPM), o maior banco americano. A Vanguard, segunda maior gestora, supera em quatro vezes o Bank of America.

Os riscos que vêm pela frente

Para Peixoto Neto, o crescimento dos FIDCs no Brasil inevitavelmente vai trazer turbulências. “O mercado de FIDCs explodiu e vai aparecer muita coisa que vai dar errado”, admitiu. “Você vai ter operações bem estruturadas, vai ter gente dando golpe, vai ter picareta no negócio. Você vai ter grandes oportunidades e coisas ruins.”

A principal armadilha, segundo ele, é a concentração de risco. O FIDC ideal seria uma carteira pulverizada, com muitos devedores pequenos, de modo que a inadimplência de alguns não comprometa o todo.

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Mas a estrutura permite montar fundos concentrados em um único devedor ou credor — e aí o risco sobe muito. “Cada FIDC é diferente do outro. É como se você estivesse comprando uma debênture de uma empresa: o risco de uma é diferente do risco de outra”, comparou.

O que o gestor evita — e o que busca

Ao falar sobre critérios de seleção, o executivo defendeu teses escaláveis, com taxas atraentes e prazos curtos. Um exemplo que ele aponta como promissor é o crédito trabalhador, o chamado consignado privado, que em pouco mais de um ano atingiu R$ 100 bilhões e, na sua avaliação, pode chegar a R$ 600 bilhões. “É um crédito altamente escalável”, disse.

Já o financiamento de veículos é visto com ceticismo. Para Peixoto Neto, o carro não é uma garantia confiável no Brasil. “Quando você vai recuperar o veículo, o cara já depenou o veículo.” Ele cita como exemplos os problemas enfrentados pelo banco Digimais e, anos atrás, pelo Banco Votorantim — ambos com raízes em carteiras de crédito veicular problemáticas.

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Uma revolução comparável à mídia

Para ilustrar o tamanho da mudança que prevê no mercado de crédito, Peixoto Neto recorreu a uma analogia com a comunicação. Ele lembrou que, quando jovem, sua janela para o mundo era a TV Globo e as revistas da Abril.

“Você vê a revolução que teve no mercado de imprensa. Hoje você tem milhões de pessoas no YouTube produzindo conteúdo”, disse. “Eu acho que a gente pode estar vivendo uma revolução parecida no mercado de crédito.”

O fundador da Ouro Preto acredita que as gestoras independentes brasileiras podem repetir, com o tempo, a trajetória americana de superar os bancos em volume de recursos administrados. Mas reconhece que o caminho será mais lento por aqui, dado o ambiente regulatório mais complexo e porque os próprios bancos já estão se movimentando para comprar gestoras.

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“Os bancos vão se defender desse movimento comprando as gestoras. Muitos bancos já estão comprando”, observou. Mesmo assim, para ele, a descentralização do crédito no Brasil é uma tendência irreversível — com altos e baixos pelo caminho.