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Os fundos de direitos creditórios (FIDC) são o investimento que mais cresce no Brasil em 2026 e se aproximam de R$ 1 trilhão em patrimônio com uma multidão de investidores atraída por taxas altas em uma aplicação sem come-cotas e marcação a mercado. Nem mesmo eventos como a recuperação judicial da Casas Bahia foi capaz de frear o apetite, mas o excesso de procura começa a trazer um efeito negativo: a remuneração vem caindo a um nível que já preocupa o mercado.
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Segundo gestoras do setor, algumas cotas seniores de FIDCs já começam a pagar taxas que chegam a CDI+2%, faixa que deixaria de compensar o risco maior de inadimplência devido à saúde financeira debilitada das empresas. As cotas seniores, vale lembrar, são pagas primeiro e por isso têm menor risco, mas também rendem menos. As mezanino ficam no meio do caminho, com risco e retorno intermediários, e as subordinadas são as últimas a receber e as primeiras a absorver eventuais perdas do fundo, por isso costumam pagar mais.
“Todo mundo está investindo, seja varejo, institucional, bancos, fundações ou fundos, está todo mundo indo para FIDCs”, diz Lucas Marrese, gestor do fundo de crédito da Fator Administração de Recursos. Ele vê a relação risco-retorno mais descasada. “Há empresas em dificuldades, entrando em recuperação judicial, e as taxas desses fundos estão ficando cada vez menores”, alerta.
Com mais dinheiro disputando um número limitado de operações de crédito privado, as gestoras aceitam pagar menos para garantir espaço nos FIDCs mais buscados. Ao mesmo tempo, a oferta de novas operações não cresce no mesmo ritmo, freada por uma economia mais fraca e por empresas com menos recebíveis para ceder. O resultado é um mercado com mais gente querendo entrar do que crédito disponível para sustentar as taxas anteriores.
No ano passado, a Fator conseguia comprar cotas de FIDCs remuneradas em CDI+4%, mas as taxas despencaram desde então. “Com a taxa atual, nossos fundos de FIDCs pagariam CDI+2% ao ano ao investidor final, abaixo do que gostaríamos e ainda com risco do cenário macro. Por isso, optamos por deixar o dinheiro em caixa”, diz. A casa diz só aceitar hojee operações com taxas de pelo menos CDI+3% e baixo risco, e mantém 20% a 25% da carteira em caixa, priorizando a proteção de capital.
“Sobra dinheiro em todo lugar”, e a relação risco-retorno “não fica tão interessante”, afirma Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX. Ele cita um fundo da casa está trocando de gestor e terá o prêmio reduzido de 4,5% para 3,5% acima do CDI. “Quanto menor a taxa da operação, menor a proteção contra perdas com devedores”, destaca. Diante do quadro, a gestora está indo mais para operações estruturadas, com garantias em imóveis, por exemplo.
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FIDCs de bancos com crédito consignado para o setor público chegam pagar apenas CDI+0,8%, aponta Conrado Rocha, sócio da Polo Capital responsável pela área de crédito privado. “É uma remuneração baixa para um instrumento com pouca liquidez, prazo de cinco anos e pouca negociação no mercado secundário”, lembra. “O benefício dos FIDCs é ter um pouco mais de taxa, mas os melhores estão aproveitando para captar a custos mais baixos, assim como ocorre com as debêntures de grandes empresas”.
Inadimplência e fraude preocupam
A maior preocupação hoje no investimento em FIDCs é com inadimplência e fraude, afirma Rocha, da Polo Capital. A saída é alinhar ao máximo os interesses da gestora com os do originador e da empresa que cede os recebíveis. Para isso, a Polo busca fazer com que o crédito seja cedido na mesma taxa da originação ou que a cedente entre na cota subordinada do fundo.
A gestora também ampliou a cobertura dos FIDCs, colocando duas pessoas para acompanhar as carteiras, ante uma há dois anos. A mudança se deve à amplitude de possibilidades dos regulamentos dos FIDCs, que exigem atenção especial. “Criamos um roteiro com 40 perguntas para avaliar os FIDCs, incluindo caráter e governança do cedente e da gestora, o que tem ajudado a minimizar inadimplência e fraudes”, diz.
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Marrese, da FAR, diz que também reforçou o monitoramento da inadimplência dos FIDCs em que investe e já saiu de alguns que apresentaram aumento nas recompras de recebíveis ou em que as perdas chegaram perto do limite. “Há uns quatro meses também estamos visitando os gestores dos FIDCs e fazendo mais reuniões”, explica, esclarecendo que não está pessimista com FIDCs, mas reconhecendo que a expansão rápida e a piora do mercado de crédito são sinais de alerta. Ele diz evitar estruturas sem histórico de desempenho. “Preferimos esperar, mesmo que a remuneração seja menor depois”, afirma.
Já a Ouro Preto Investimentos diz ter um sistema de gestão e monitoramento de risco que acompanha mais de 40 parâmetros, incluindo provisões para perdas, vencimentos, recompras, amortizações e liquidez. “Isso permite identificar deteriorações antes que elas apareçam apenas como inadimplência consolidada e agir preventivamente, restringindo novos recebíveis, ajustando critérios de elegibilidade ou reforçando proteções”, afirma Leandro Turaça, sócio-gestor da casa.

O que investidor deve fazer?
Para Turaça, cotas seniores na faixa de CDI+2% a CDI+4% ao ano, que ainda existem no mercado, seguem atrativas ao investidor, dependendo da qualidade da carteira, prazo, liquidez e nível de subordinação. Segundo ele, não existe uma taxa média única para a indústria, porque dois FIDCs pagando o mesmo percentual do CDI podem ter riscos completamente diferentes. “Por isso, a remuneração precisa sempre ser analisada em conjunto com a qualidade dos recebíveis e a proteção estrutural”, recomenda.
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O principal conselho para o investidor em FIDCs, portanto, é não escolher o fundo apenas pela taxa: é preciso entender quem origina o crédito, quais setores e regiões concentram a carteira, o nível de pulverização, o tamanho médio das exposições, a qualidade dos sacados e como funcionam as proteções da estrutura. “Hoje isso é ainda mais importante porque alguns segmentos estão mais pressionados por juros, atividade econômica ou mudanças tarifárias”, lembra Turaça.
Também é necessário observar subordinação, histórico de perdas, critérios de elegibilidade, liquidez e prazo de resgate. “Em um ambiente de crédito mais seletivo, uma carteira com milhares de devedores e tickets menores tende a ter uma dinâmica de risco muito diferente de um FIDC concentrado em poucos sacados”, diz o gestor. “A taxa importa, mas a estrutura que protege essa taxa importa mais”, acrescenta.

