Um não à Petrobras

Essas gestoras não investem em ações de estatais. Melhor assim?

Entenda por que fundos de casas como IP Capital Partners e Fama Investimentos não têm papéis de empresas controladas pelo governo

SÃO PAULO – Eles perderam a valorização de mais de 40% das ações da Petrobras e do Banco do Brasil no ano passado, em meio às eleições presidenciais, ao anúncio de mudanças na gestão, à recuperação dos preços do petróleo e à expectativa de venda de ativos pelo BB.

Por outro lado, seus fundos se blindaram da queda em torno de 28% dos papéis das duas empresas em 2015, quando a ex-presidente Dilma Rousseff deu início ao segundo mandato, interrompido no ano seguinte com seu impeachment.

As estatais podem ter ajudado e prejudicado boa parte dos gestores de fundos brasileiros no passado e também neste ano, mas há uma pequena parcela, difícil até de ser encontrada, que está fora desses grupos.

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Trata-se de casas que preferem correr o risco de se descolar dos referenciais de seus fundos e manter uma estratégia focada em nomes de maior valor, menos expostas a interferências públicas e, em muitos casos, menos sujeitas à volatilidade.

Dentre essas gestoras está a IP Capital Partners, fundada em 1988 como uma empresa independente e com o primeiro fundo lançado em 1993. Pedro Andrade, sócio da casa, explica que a aversão às estatais existe desde o início da gestora, mas admite que já investiu nelas em situações “muito especiais”, que representaram percentuais pequenos dos fundos. O último investimento em estatal que esteve entre as 15 maiores posições da casa foi feito em 2009, representando apenas 1,9% do fundo.

“No passado, era difícil evitar totalmente, por falta de opções no mercado brasileiro. Com os IPOs no Novo Mercado na década de 2000 e a chegada dos BDRs [recibos de ações de empresas estrangeiras negociados na bolsa brasileira], que adotamos amplamente, foi mais viável ficar longe das estatais”, conta.

Andrade ainda faz menção à questão de oportunidade. “Por que perder tempo investindo em empresas que por natureza (e estatuto) não buscam maximizar seu valor? Quantos bons investimentos em empresas livres para serem bem geridas perderíamos com nossa atenção desviada para pescar estatais?.”

Ele conta que a IP já foi questionada por cotistas a respeito da decisão de evitar as empresas de controle público diversas vezes, e que sempre lembra que o objetivo da gestora não é bater o Ibovespa em janelas curtas, mas gerar retorno ajustado ao risco para janelas de cinco anos – e, para isso, prefere colocar seus esforços em empresas privadas, inclusive no exterior, a “adivinhar” o impacto do ciclo político sobre o valor das estatais.

“Para empresas que historicamente destroem valor, quanto mais tempo você investe nelas em busca de um rally momentâneo, maior a chance de queimar o seu dinheiro”, diz.

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A decisão de não ter no portfólio empresas controladas pelo governo embute o risco de se perder movimentos de forte de alta quando o cenário político favorece. Por outro lado, é uma forma de evitar perdas permanentes de capital. “Pioras de política para estatais podem surpreender o investidor com destruições grandes e irrecuperáveis de valor. Buscamos evitar ao máximo esse tipo de risco”, assinala.

Empresas “faça chuva ou faça sol”

Com uma história também longeva na área, iniciada em 1993 e então focada nas chamadas small caps, a Fama Investimentos se une à IP no grupo de gestoras sem ações de estatais na carteira.

“Em 26 anos de trabalho, a gente já aprendeu o que o Brasil é. Não consigo ficar mais tão otimista nem tão pessimista. O Brasil não é nem tão bom nem tão ruim”, diz Fabio Alperowitch, gestor e um dos fundadores da gestora.

Distante do que chama de mercado “maníaco-depressivo” para não perder saúde ou dinheiro dos cotistas, Alperowitch acompanha de perto uma parcela de empresas que considera ir bem independentemente da trajetória da economia brasileira.

O gestor conta que a Fama não pode investir em companhias estatais e/ou reguladas ou que dependam mais do cenário macro que do microeconômico. Desde o princípio tem sido assim, com um portfólio muito focado no mercado doméstico e em ações de setores maduros.

São empresas que fazem a lição de casa em momentos de crise, pouco alavancadas, com crescimentos consistentes e investimentos. Nomes como Localiza, M. Dias Branco, Klabin, CVC e Multiplan figuram entre as escolhas da casa.

“O Brasil está numa encruzilhada. Ainda estamos numa bifurcação: ou o Brasil vai numa trajetória de crescimento e volta a suspirar, ou degringola de vez. Tenho que estar preparado para os dois momentos. Prefiro estar nas empresas boas”, observa Alperowitch, que complementa que, qualquer que seja o desfecho, o portfólio da Fama não vai mudar. “Buscamos empresas com potencial de valor.”

Na opinião do gestor, a reforma da Previdência é o mínimo necessário para o país neste momento, mas não é o suficiente para fazer a economia deslanchar de vez.

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Embora não tenha adotado como uma política a restrição de investir em papéis de estatais, a Perfin Investimentos passou anos sem ter uma alocação nas empresas e hoje dedica apenas cerca de 5% a elas. O gatilho para voltar a comprar estatais (hoje representadas no portfólio apenas pelas ações da Copasa) partiu do resultado das eleições de 2018 e da mudança no cenário político.

“Foi quase uma mudança de controlador com o novo governo, que também se refletiu nos níveis executivos e fez com que a gente considerasse empresas para investirmos”, diz o gestor Alexandre Sabanai, lembrando que a Perfin passou quase quatro anos praticamente “zerada” em estatais.

Pragmatismo na gestão

A preocupação com a influência na gestão, contudo, persiste, o que limita um aumento da exposição. A ideia é agir com pragmatismo e não reagir a eventos macroeconômicos, o que explica a baixa rotatividade da carteira, segundo o gestor.

Historicamente, Sabanai conta que a Perfin teve no máximo 10% de alocação em ações de estatais. A gestora tem um processo de avaliação qualitativa das empresas que conta com uma lista de cerca de 25 itens, em que dá uma nota para elas seguindo critérios referentes à indústria na qual está inserida, à análise da própria companhia e à liquidez das ações. A gestora prioriza ou restringe o universo de investimento a empresas com nota próximas de 4 para cima.

As notas específicas de uma empresa avaliada têm maior peso na análise final e é justamente nessa parte que as estatais patinam, ao não atenderem critérios relativos à gestão e governança, com decisões de alocação de capital e de alinhamento com os acionistas minoritários questionadas, diz Sabanai.

“As estatais seguem de alguma forma uma racionalidade do mercado, mas não uma lógica de mercado stricto sensu. Não foi à toa que a gente viu o momento de estresse da Petrobras”, aponta o gestor, que chama atenção para o maior grau de imprevisibilidade. “A empresa estatal está suscetível à lógica política, de seguir às vezes a demanda da sociedade ou de certos setores/classe, o que acaba criando um desalinhamento [de interesses].”

O InfoMoney elaborou um infográfico com o desempenho das principais empresas estatais nos últimos anos e eventos que impactaram o mercado. Confira abaixo: