Entrevista Luiz Fernando Figueiredo

O Brasil está cada vez menos dependente das turbulências que ocorrem no exterior, sejam as alterações na taxa de câmbio nos Estados Unidos, sejam eventuais problemas na Argentina”.

Por  Equipe InfoMoney

Diretor de Política Monetária do Banco Central

“O Brasil está cada vez mais independente”
“O Brasil está cada vez menos dependente das turbulências que ocorrem no exterior, sejam as alterações na taxa de câmbio nos Estados Unidos, sejam eventuais problemas na Argentina”. A opinião é do diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, em entrevista ao InfoMoney. Para ele, “a situação do Brasil, hoje, é totalmente diferente daquela que caracterizou a crise de 1997, já que temos fluxo de capital para financiar nosso balanço de pagamentos. Não precisamos, não temos e não queremos o fly money, o dinheiro volátil, de curto prazo”, afirmou Figueiredo.

InfoMoney – A taxa de juros no Brasil ainda é uma das mais altas do mundo. Como o Sr. vê isso?

Luiz Fernando Figueiredo – É natural. Não se pode imaginar que o Brasil prosseguiria a consolidação da economia com taxas reais de juros de 5% ao ano. Passamos por dois anos de dificuldade e recessão. Então, as coisas começaram a melhorar. O risco agora é a euforia porque, sem inflação, as pessoas passam a consumir e financiar. Mesmo assim, nossa meta é uma taxa real de juros primários mais baixa. Mas a taxa final para o consumidor ou para a empresa é outro problema, que não está associado apenas à nossa situação interna e à taxa de juros básica. Isso está ligado à atrofia do mercado de crédito brasileiro, que é muito pequeno. Em todos os países emergentes, o volume de crédito equivale a uns 70% do PIB. No Brasil, a margem é de 30% e, nos Estados Unidos, de 160%. A média, nos países desenvolvidos, é de 120% a 130% do PIB. Nosso mercado é atrofiado, não há concorrência e isso não tem nada a ver com a política monetária.

InfoMoney -Falando em juros, aparentemente o FED, o Banco Central norte-americano, vai manter uma posição estável até o final do ano. Quais os desdobramentos disso, para o Brasil?

Luiz Fernando Figueiredo – A questão da taxa de juros está associada a todo o ambiente econômico, interno e externo. Para o Brasil, no passado, a taxa de juros estava quase que totalmente associada à situação externa. Hoje, não. Há um fluxo de capital para financiar o nosso balanço de pagamentos. Vivemos uma situação totalmente distinta daquela que sucedeu à crise asiática, em 1997. Não precisamos, não temos e não queremos dinheiro de curto prazo, dinheiro volátil, o chamado fly capital. Ele afeta muito menos o país, e portanto, a nossa política monetária, que está absolutamente focada na inflação. A economia brasileira está se tornando cada vez mais sólida, mais forte. Sofre, então, menor influência de qualquer choque vindo de fora do país, principalmente os negativos. Em abril, por exemplo, aconteceu um grande choque de liquidez e de turbulência, com as bolsas americanas caindo muito, diante de um brutal grau de incerteza. O que aconteceu aqui? Não houve nenhum problema maior.

InfoMoney -Em sua opinião, qual é o efeito de longo prazo, sobre o mercado de capitais brasileiro, da recente tendência de fechamento de capital por diversas empresas, sobretudo subsidiárias de grupos estrangeiros?

Luiz Fernando Figueiredo – A tendência é de redução das dimensões do mercado de capitais. Se as empresas fecham o capital, diminuem os ativos para o sistema investir. O fato é que a lei das Sociedades Anônimas simplesmente não funciona. As empresas estão fechando capital, porque o empresário controlador vê o preço – muito alto – das ações e acredita que não vale a pena vendê-las. E acaba por aumentar sua própria participação na empresa. Já o investidor minoritário, que não tem direito nenhum, nem ao dividendo mínimo, não está disposto a pagar um preço maior pelas ações. Seus títulos valem pouco, quando comparados aos títulos do controlador. Quando se vende o controle acionário de uma empresa no Brasil, o ágio sobre o patrimônio é enorme, porque o controlador tem condições de comprar barato o resto das ações. Há um desequilíbrio na relação entre o minoritário e o controlador. É necessário, com urgência, quebrar esse círculo vicioso, aprovando a nova Lei das S.A.

InfoMoney -Como o minoritário poderia aumentar sua participação?

Luiz Fernando Figueiredo – Alguns analistas acreditam que o minoritário não pode ter muito poder. Não há contra-indicação nisso porque está nas mãos do empresário controlador a decisão de abrir ou não o capital. Há um problema adicional, no Brasil: a cultura de “controlador”. Veja o caso da Microsoft, nos EUA. Qual é a porcentagem que Bill Gates tem na empresa? Uns 5%, talvez. Nunca 51%. E isso aumenta muito a capacidade de investimento da empresa. Mas não é possível ouvir o nome Microsoft sem associá-lo ao nome de Bill Gates.

InfoMoney -O sr. acha que a nova Lei das S.A. será aprovada?

Luiz Fernando Figueiredo – Não há dúvida. E acho que isso vai acontecer até o fim do ano.

InfoMoney -Quais seriam as conseqüências, sobre o Brasil, de uma crise envolvendo a moeda Argentina?

Luiz Fernando Figueiredo – Hoje, a Argentina não tem problemas de caixa, já que conta com um fundo de reserva estimado em US$ 27 bilhões. A grande dificuldade é a cotação fixa do peso argentino em relação ao dólar. No fundo, é uma questão fiscal que não tem a ver com a moeda em si, mas com alguma subvalorização que existe por lá. As empresas acabam não tendo a rentabilidade apropriada, a economia não cresce, diminui a confiança e não há investimentos. É um regime monetário com pouca flexibilidade, absolutamente oposto ao brasileiro. Aqui, se a taxa de câmbio subir 3% só vai aparecer na televisão que a taxa de câmbio subiu 3% e pronto. Não que o modelo argentino seja insustentável. Há uma certa fadiga, porque existe demora em superar os problemas. Isso diminui a confiança e, em conseqüência, o investimento. Mas eles estão no caminho certo. O que acontece é uma certa frustração porque o país se recuperou menos rapidamente do que era esperado.

InfoMoney -O sr. acredita em uma crise grave de confiabilidade na Argentina?

Luiz Fernando Figueiredo – Não acredito nisso. Acho que eles vão ser testados e que vai haver algum mal estar durante um certo tempo. Existe alguma discussão política sobre se o modelo deve ou não ser mantido. Mas, no final da linha, se for feita uma pesquisa, os argentinos preferem o sistema atual. O problema é que eles estão enfrentando o ajuste, com um nível alto de desemprego e conscientes de que o processo não acabou. Não é de uma hora para outra que a economia vai crescer 5% ou 7%. Mas o fato é que a Argentina é muito bem vista pelos investidores, e com razão. Porque faz 15 anos que eles cumprem aquilo que prometem. Então, mesmo que eles cheguem a uma situação delicada, é muito provável que haja mais ajuda internacional.

InfoMoney -Até janeiro do ano passado, se dizia muito que os exportadores brasileiros não tinham boa performance em função do câmbio, relativamente fixo e sobrevalorizado. No começo do ano passado, houve uma desvalorização grande e o crescimento das exportações não foi tão significativo. Sabe-se que muito do déficit em conta corrente tem sido fechado pela conta de capitais, que apresentou um desempenho bastante satisfatório. Até quando isso vai ocorrer?

Luiz Fernando Figueiredo – Com relação à conta de capitais, não existe indício que esses investimentos vindos do exterior sejam um fenômeno temporário. É algo permanente e crescente. Seria um fenômeno temporário se derivasse apenas de um ciclo de privatização, por exemplo. Não é o caso. É impressionante o crescimento do volume de investimentos diretos no Brasil.
Hoje, os fundamentos da economia brasileira são sólidos. Nossa taxa de juros ainda é muito alta, mas é de 10% ao ano, a mais baixa desde 1986. Isso alavanca mais investimento. Os EUA são o melhor exemplo disso. Eles recebem investimentos diretos há décadas. No Brasil, o volume de capital externo gira em torno de 35% do PIB. No Chile, a margem é de 70%. Na China, de quase 40%. Nosso país ainda é muito fechado. Sobre a balança comercial, o fato é que o Brasil nunca foi um exportador permanente, sempre eventual. Só exportava o excedente, numa situação de bons negócios ou de necessidade específica. Só se exportava quando não havia espaço no mercado interno. É uma questão cultural.

InfoMoney -Explique melhor isso.

Luiz Fernando Figueiredo – Para começar, toda a logística do país está voltada para o mercado interno. É preciso aprender, saber o que é uma guia de exportação, como é o financiamento. É necessário ter profissionais qualificados para vender o produto e entregá-lo no prazo. Precisamos de embalagens próprias para exportação, saber como entregar no porto, quanto tempo demora, enfim, todo um processo de aprendizado, que demora muito tempo. O Brasil tem uma pauta muito diversificada de exportações, não negocia só commodities. O que cresce mais, hoje, é a exportação de produtos manufaturados. Pode-se até dizer que os produtos brasileiros não têm alto valor agregado e concentram pouca tecnologia, mas isso está mudando. Antes, a exportação brasileira se limitava à América Latina. Agora, estamos direcionando a exportação para países da Europa e Ásia.

InfoMoney -Fala-se muito na necessidade de independência do Banco Central. Como o Sr. vê isso?

Luiz Fernando Figueiredo – O Banco Central não pode ser independente para decidir os seus objetivos. Quem decide isso é a sociedade. Se a sociedade estabelece que o objetivo é manter a inflação baixa, o BC apresenta ao presidente da República, ou a quem quer que seja, uma meta de inflação de 6% ao ano 2000. Isso colocado, o Banco Central tem que ter independência para implementar seus planos. Veja o caso dos EUA. A sociedade deu ao Federal Reserve, o Banco Central de lá, os objetivos gerais para o país, que são manter a inflação no patamar mais baixo possível e com o maior crescimento possível. Está na Constituição deles. No nosso caso não é assim. Temos que construir isso.

InfoMoney -No livro Irrational Exuberance, de Robert Schiller, o autor sustenta que o fato de a imprensa hoje ter acesso a muito mais informação e, obviamente, tentar trazê-las a público, de uma exacerbando os movimentos e a volatilidade do mercado. O Sr. concorda com isso?

Luiz Fernando Figueiredo – Acho que é um processo natural e não controlável. Não se pode controlar a forma de as pessoas agirem. Hoje, as pessoas estão sabendo muito mais. Antigamente, tudo era muito velado, embora provavelmente houvesse até mais safadeza do que em nossos dias.

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