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A renda fixa americana nunca pagou tanto em quase duas décadas, e mesmo assim, se o dólar ficar parado, o investidor brasileiro ganha menos do que ficaria no CDI. A conta só melhora em cenário de alta da moeda americana, o que torna a operação uma proteção contra a desvalorização do real – especialmente para quem está mais pessimista com o pós-eleições.
A discussão voltou ao radar na última semana, após o Federal Reserve (Fed) subir os juros pela primeira vez desde julho de 2023 e o Copom cortar a Selic pela quinta vez seguida. Com o movimento, a diferença entre as taxas dos dois países caiu meio ponto percentual em um único dia, para 9,875 pontos.
O movimento deixou a renda fixa americana mais rentável. Quem compra hoje trava quase um ponto percentual a mais de retorno em dólar do que há seis meses, o que torna o ativo mais interessante para quem pensa em patrimônio de longo prazo.
O título de 10 anos do Tesouro americano paga hoje 4,95% ao ano em dólar, mas, depois de IOF, spread de câmbio e Imposto de Renda, sobram cerca de 2,2% em 12 meses, segundo cálculos de Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital. Para empatar com o CDI, o dólar precisaria subir perto de 10% no período, para algo em torno de R$ 5,65. Com os Treasuries pagando 3,95%, na mínima do ano, o dólar teria que disparar para mais de R$ 5,70 para igualar a renda fixa brasileira.
A renda fixa americana ficou mais atrativa, mas isso não significa que o CDI perdeu o posto. Gabriel Magno, chefe de alocação e sócio da AW Capital, classifica a redução de meio ponto como insignificante diante do carrego oferecido no Brasil, e Marcelo Cabral, fundador da Stratton Capital New York, também não vê nela motivo para mudar de estratégia, dado o risco cambial.
Compare o rendimento da renda fixa americana X brasileira:
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| Cenário | Dólar em 12 meses | Valor líquido final | Ganho líquido | Rentabilidade líquida |
|---|---|---|---|---|
| Treasury, dólar estável | R$ 5,14 | R$ 51.087 | R$ 1.087 | 2,2% |
| Treasury, dólar sobe 10% | R$ 5,65 | R$ 55.446 | R$ 5.446 | 10,9% |
| Tesouro Selic | – | R$ 55.600 | R$ 5.600 | 11,2% |
A vantagem brasileira deve continuar grande mesmo com novos cortes da Selic, já que as projeções dos especialistas colocam a diferença entre 8 e 9 pontos em 12 meses. Para Trevisan, uma virada relevante só viria abaixo de 8 pontos, enquanto Magno lembra que, historicamente, a alocação passa a mudar quando a Selic descontada da inflação se aproxima de 4% a 5% ao ano. Cabral vai além e avalia que, sem espaço fiscal para uma queda forte dos juros no Brasil, a distância pode até voltar a crescer.
Veja a seguir o que o investidor deve fazer diante desse cenário – e quanto de fato a queda no diferencial de juros entre EUA e Brasil abre de janela de rentabilidade.
Quanto investir e por quanto tempo
Para o investidor moderado, Trevisan sugere manter entre 15% e 20% do patrimônio em dólar, ante cerca de 10% no início do ano. Magno é mais contido e lembra que o mercado americano é mais voltado à renda variável. Em uma carteira com 30% nos EUA, ele colocaria “no máximo 10% desses 30%” em renda fixa, fatia que pode aumentar se o Fed continuar subindo juros.
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Pelas contas de Trevisan, o retorno líquido do Treasury sobe para cerca de 3,5% ao ano em um horizonte de três anos. Magno estima os custos de entrada em perto de 2%, o suficiente para consumir metade do ganho, e por isso recomenda deixar o dinheiro aplicado por pelo menos 18 a 24 meses.
Como investir
Para valores menores, como R$ 50 mil, Trevisan recomenda abrir conta em uma corretora no exterior e comprar ETFs de Treasury, mais práticos que os títulos diretos, que passam a fazer sentido conforme o patrimônio lá fora cresce. Cabral também defende a conta internacional. Quem prefere evitar custos e burocracia pode recorrer aos BDRs de ETFs negociados na B3, alternativa que Magno considera boa, embora Trevisan aponte a liquidez menor e o fato de o ativo continuar custodiado no Brasil.
O ponto de consenso é evitar produtos com proteção cambial (hedge). Sem exposição ao dólar, a operação perde o sentido. “O investidor estaria simplesmente trocando uma taxa de 13,75% ao ano por 4% ao ano, somente trocando o risco dos países”, explica Magno. Trevisan acrescenta que muitos fundos de renda fixa global negociados na B3 fazem hedge e cobram taxas mais altas.
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Quando entrar
Trevisan e Magno recomendam começar aos poucos, e o CEO da Gravus Capital sugere dividir o aporte em três ou quatro etapas ao longo dos próximos meses. A lógica é não esperar o Fed deixar clara a trajetória dos juros, já que as taxas podem cair antes disso. “O mercado vive de expectativa e toma as decisões antes do fato ocorrer”, ressalta o sócio da AW Capital.
Dólar decide o resultado
Na prática, quem dolariza a renda fixa aposta menos na taxa e mais na moeda. Trevisan trata a operação como um seguro contra um cenário adverso no Brasil. “O investidor não se protege do cenário médio, se protege do cenário ruim”, diz. Ele vê mais risco de alta do dólar até o fim de 2027.
Para Magno, o rumo do câmbio depende da eleição. Com um ajuste fiscal robusto, o dólar teria mais um ano de queda, enquanto, sem ele, a moeda provavelmente subiria e poderia compensar a diferença de juros. Por isso, ele vê sentido na proteção apenas para quem espera uma reação negativa do mercado ao resultado das urnas.
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Trevisan, por outro lado, considera a dolarização mais do que razoável seja lá quem vença as eleições, desde que como parte permanente da carteira. Cabral também não vê o momento como decisivo e reforça que a decisão deve olhar para a diversificação e a proteção do patrimônio no longo prazo, e não para oportunidades de curto prazo.