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SÃO PAULO – Com a contínua queda da cotação do dólar, que na última sexta-feira (17) atingiu seu ponto mais baixo desde o último mês de março, muita gente já se pergunta qual é o ponto de sustentação da moeda norte-americana. Afinal de contas, a cotação do dólar é uma variável importante para determinar uma estratégia de investimentos mais rentável.
A desvalorização da moeda norte-americana, além de afetar diretamente quem investiu em fundos cambiais e fundos Fiex, que são referenciados pelo dólar, já começa também a afetar a estratégia de investimento em bolsa, com os papéis de muitas exportadoras não conseguindo acompanhar o bom desempenho do Ibovespa nos últimos pregões.
Mercado aponta dólar a R$ 3,02 no final do ano
Antes de mais nada, é interessante checar qual a expectativa dos analistas para a moeda norte-americana no final do ano. De acordo com o relatório Focus, compilado pelo Banco Central com base nas projeções de mais de cem analistas, o mercado espera que a cotação do dólar encerre o ano a R$ 3,02, o que corresponde a uma valorização de cerca de 5% em relação aos valores atuais.
A pergunta agora é saber se este valor será atingido. A favor conta o fato que o mercado brasileiro é bastante sofisticado, com as projeções dos analistas geralmente se confirmando. Por outro lado, porém, algumas variáveis podem ter mudado, alterando o equilíbrio do mercado de câmbio.
Fluxo de recursos pode se intensificar
O principal fator que determina as cotações do dólar é o mesmo que afeta a grande maioria dos preços da economia: oferta e demanda. Assim, dentro de uma situação de maior oferta de dólares, como a atual, a forte queda da moeda norte-americana frente ao real parece justificada.
Neste contexto, a oferta de dólares corresponde a dois fatores principais: recursos que entram em função dos elevados superávits cambiais que o país tem acumulado, e entradas de capital, tanto na forma de novos investimentos na economia como fluxos financeiros, como, por exemplo, investimentos estrangeiros na bolsa ou captações de empresas brasileiras no exterior.
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Embora o fluxo comercial siga mais ou menos em linha com o esperado, os fluxos financeiros se intensificaram, refletindo a percepção do mercado de que os juros devem subir de forma gradual nos EUA. E, com juros baixos nos Estados Unidos, os investidores buscam alternativas mais rentáveis, como, por exemplo, investimentos em países emergentes, como o Brasil.
Juros baixos nos EUA e altos no Brasil
Além dos juros baixos nos EUA, com instituições como o banco de investimentos Merrill Lynch acreditando que a taxa básica norte-americana, os Fed Funds, não ultrapasse 2%, outro fator torna os investimentos no Brasil mais atrativos: a perspectiva de novos aumentos na Selic.
Este cenário atrai mais investidores de renda fixa, que buscam se aproveitar do elevado diferencial de juros, contribuindo também para puxar para baixo as cotações do dólar. Assim, a mudança das expectativas de juros nos EUA (para baixo) e no Brasil (para cima) podem ainda não ter sido “precificadas” nas projeções da cotação do dólar para o final do ano.
Intervenção à vista?
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Por outro lado, o Governo tem interesse em evitar que as cotações do dólar caiam de forma acelerada. Os efeitos negativos sobre a balança comercial, já que os produtos brasileiros perdem competitividade no exterior, ficam entre as principais preocupações. O setor externo, afinal de contas, foi quem sustentou a economia no ano passado e que pode fazer a diferença em 2005, quando o crescimento doméstico deve mostrar desaceleração.
Deste modo, não deve causar surpresa se, caso o dólar siga em sua trajetória de queda, o Banco Central volte a intervir no mercado de câmbio, como registrado em janeiro e fevereiro de 2004, período de forte otimismo no mercado e fortes pressões sobre o dólar. Vale lembrar que a intervenção ocorreu na forma de leilões onde o BC entrava comprando dólares, evitando uma queda ainda maior da moeda norte-americana.
Expectativas podem ser revistas
Deste modo, caso o cenário atual se mantenha, a possibilidade de diversos analistas revisarem para baixo suas previsões para a taxa de câmbio no final do ano é grande, com uma chance considerável de o dólar encerrar o ano abaixo do patamar psicológico de R$ 3,00. Vale lembrar que a moeda norte-americana encerrou 2003 a R$ 2,89, uma queda de 18,2% em relação ao fechamento de 2002.
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Um fator que deve ser levado em consideração, por outro lado, é que a perspectiva do mercado com um tom “gradualista” do Federal Reserve, ou seja, aumentos suaves nos juros dos EUA, pode ser revertida rapidamente, caso indicadores mostrem aceleração da economia e/ou da inflação nos EUA.
Neste contexto, vale a pena ficar de olho nas cotações do dólar na hora de montar sua estratégia de investimentos, já que, mesmo que a queda do dólar possa ser menos intensa daqui em diante, um patamar ainda mais baixo da moeda norte-americana pode ser um dos fatores para determinar quem vai ganhar ou perder dinheiro no mercado financeiro.