Publicidade
O juro dos títulos do Tesouro americano próximo dos maiores níveis das últimas duas décadas devolveu ao investidor brasileiro um argumento que havia perdido força: o de que é possível contratar renda em moeda forte sem abrir mão de retorno. As taxas estão bem acima do ciclo de 2012 a 2021, quando a mesma exposição rendia pouco – criando, portanto, uma oportunidade para travá-las agora e minimizar o risco cambial, defende a XP.
Lucas Genoso e Mayara Rodrigues, do time de renda fixa da casa, defendem que os rendimentos das Treasuries criam as condições para a construção gradual de uma posição em renda fixa denominada em dólar, focada na diversificação estrutural do patrimônio. “A função da dolarização não é superar a renda fixa local em todos os períodos, mas adicionar uma fonte distinta de retorno e proteção à carteira como um todo”, escrevem os analistas em relatório publicado na segunda-feira (31).
A recomendação combina quatro objetivos: gerar renda em moeda forte, reduzir a concentração em riscos domésticos, ampliar o acesso a emissores e estruturas com presença limitada no Brasil e adicionar proteção em episódios de aversão a risco local, quando o real e os ativos brasileiros tendem a cair simultaneamente.
A XP selecionou sete períodos de depreciação acentuada do real desde 2002 e em todos a posição dolarizada superou o juro local. Entre abril de 2014 e janeiro de 2016, por exemplo, o câmbio saiu de R$ 2,20 para R$ 4,16, e uma posição em dólar com cupom acumulou 97,1%, ante 24,1% do CDI. Na janela de janeiro a maio de 2020, a diferença foi de 54,0% contra 1,5%.
Leia também: Brasil está mais sujeito a risco cambial em cenário de estresse fiscal, alerta UBS
Além disso, afirmam os analistas, o retorno mensal de uma posição em dólar guarda pouca relação com o CDI, o que reduz a concentração da carteira em uma única fonte de risco – benefício que tende a ficar mais evidente em períodos de maior percepção de risco doméstico, como episódios de volatilidade eleitoral ou incerteza fiscal.
Há ainda o argumento de poder de compra. Em dez anos, R$ 1 aplicado no CDI rendeu 159% em termos nominais, mas apenas 64% quando o resultado é medido em dólar. No mesmo período, a cotação avançou cerca de 58%, de R$ 3,30 para R$ 5,20, o que equivale a uma perda de aproximadamente 36% no valor da moeda brasileira.
Entre os riscos da estratégia, está o risco cambial. Como a taxa e o fluxo são conhecidos em dólar, mas o resultado convertido para reais depende do câmbio, uma valorização do real pode reduzir ou anular a renda contratada. Mas, segundo a XP, o carrego atual amplia a margem para absorver esse movimento à medida que o prazo aumenta.
Em uma simulação com o título soberano brasileiro em dólar Global 2036, que oferece 6,4% ao ano, cerca de 2,2 pontos percentuais acima do papel americano de prazo equivalente, uma alta do dólar de R$ 5,20 a R$ 6,00 em três anos resultaria em ganho de 39% em reais. Já em um movimento de queda para R$ 4, o resultado seria de perda de 18% em doze meses, mas em cinco anos voltaria ao positivo, com 5% de ganho.
Continua depois da publicidade
Na prática, a XP concentra as recomendações em fundos internacionais, títulos soberanos e bonds corporativos. A parcela sugerida é de 15% da carteira total em ativos globais, com 54% em renda fixa, 42% em renda variável e o saldo em caixa. “O dólar a R$ 5,20 não representa um ponto de entrada inequivocamente atrativo”, diz a XP, que recomenda aportes graduais para reduzir a concentração em uma única cotação.
Leia também: Virando emergente? Por que os EUA podem precisar “imitar o Brasil” para domar dívida
