Dividendos em promoção: correção da Bolsa abre oportunidade em “vacas leiteiras”

Desconto em gigantes como a Vale reflete cenário macroeconômico, e não piora operacional, segundo analistas; saiba os papéis na mira e como aproveitar

Leonardo Guimarães

Ativos mencionados na matéria

Com a correção da Bolsa que deixa o Ibovespa a cerca de 11% abaixo da máxima histórica registrada em abril, analistas identificam uma janela para o investidor de renda passiva: grandes pagadoras de dividendos estão sendo negociadas a preços atrativos, e a reprecificação dos papéis gerou distorções favoráveis a quem busca proventos.

“Ainda há muitas empresas descontadas na B3”, afirma Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos. “Quando olhamos para a capacidade de geração de caixa de várias companhias brasileiras, fica claro que há grandes distorções de preço, o que cria boas assimetrias e excelentes oportunidades de dividendos”.

A visão é compartilhada por Felipe Beys, planejador financeiro e sócio da Warren Investimentos. “Boa parte das ações brasileiras que ainda parecem relativamente baratas hoje está justamente entre as grandes pagadoras de dividendos”, destaca. Ele explica que esse refúgio em papéis defensivos é uma proteção natural do mercado: “empresas maduras, com geração forte de caixa e crescimento mais lento acabam devolvendo muito lucro ao acionista”.

Diante da volatilidade, as atenções se voltam para as empresas que costumam distribuir dividendos. Beys destaca que esse é um movimento natural: “boa parte das ações brasileiras que ainda parecem relativamente baratas hoje está justamente entre as grandes pagadoras de dividendos. Isso ocorre por um motivo estrutural: empresas maduras, com geração forte de caixa e crescimento mais lento acabam devolvendo muito lucro ao acionista”. 

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Para os analistas, a explicação para o preço descontado dessas companhias vem do cenário macroeconômico adverso, e não necessariamente de falhas na operação das empresas. 

“O mercado não está inteiramente barato, mas setores consolidados como grandes bancos, utilities, petróleo e seguridade estão negociando abaixo do seu valor justo em virtude do aumento das incertezas globais e da manutenção de juros restritivos no cenário doméstico”, diz Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos.

Tobias Camargo, planejador financeiro e especialista em investimentos, ressalta o peso da política monetária. “O problema é que a Selic em 14,50% com tom hawkish (do Banco Central) mantém o custo de oportunidade alto. Há janelas genuínas, mas exigem seletividade e horizonte mínimo de 12 a 18 meses”, explica.

Camargo complementa que, para alguns setores essenciais (como energia e seguros), o desconto é meramente um movimento técnico de realocação de capital da Bolsa para a renda fixa: “Boas pagadoras de dividendos costumam ficar mais baratas quando os juros sobem, sem que o fundamento tenha mudado”.

Ações no radar 

Entre os nomes destacados pelos especialistas está o da Vale (VALE3). “A empresa se preparou para surfar o super ciclo da eletrificação global, extraindo cobre e níquel, materiais necessários para fabricação de veículos elétricos, baterias e infraestrutura de energia renovável. Além da eficiência operacional que a Vale construiu nos últimos anos”, detalha Minotto.

O analista também cita Itaú (ITUB4), argumentando que o banco vem conduzindo “uma das reestruturações internas mais bem sucedidas do setor corporativo brasileiro”. O concorrente Bradesco (BBDC4) é citado por Régis Chinchila, que destaca a recuperação operacional como principal gatilho para a ação.

Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3) também são lembradas como grandes geradoras de caixa com preço descontado, explicado por um prëmio de risco político embutido nessas estatais, conforme lembra o analista da Terra Investimentos. 

No setor de energia, “Engie Brasil (EGIE3) e Isa Energia (ISAE4) entregam yield acima de 8% com receita contratada e reajustada por inflação”, lembra Camargo. Chinchila também vê gatilhos de valorização na “expansão de seguros e previdência em BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3)”.

Ganho duplo

A grande vantagem de comprar pagadoras de dividendos na baixa é capturar o destravamento de valor da empresa enquanto recebe os proventos. “Ações baratas de dividendos não são interessantes apenas pelo yield. Muitas vezes o yield alto é justamente consequência de um preço deprimido. E se o preço volta para algo mais próximo do valor justo, o ganho de capital pode acabar sendo até maior que os próprios dividendos”, ensina Felipe Beys.

Camargo reforça que o foco não pode ser unilateral. “Na minha visão, focar apenas no dividendo pode ser um erro. Dividendos são importantes, mas o investidor não deve ignorar o potencial de valorização da empresa ao longo do tempo”, defende. Ele argumenta que “muitas dessas companhias estão baratas justamente porque o mercado está exigindo um prêmio maior de risco. Se parte dessas incertezas diminuir, o investidor pode ganhar nas duas pontas: recebendo proventos e capturando valorização das ações.”

Chinchila conclui o raciocínio mostrando o impacto do desconto histórico na carteira: “muitos papéis combinam dividend yield elevado com potencial de valorização estimado entre 15% e 35%, segundo nossas previsões em carteiras da Terra”.