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SÃO PAULO – O mercado de debêntures existe há muito tempo, sendo uma forma de captação de recursos para as empresas de capital aberto ou fechado. Mas, longe de serem populares entre investidores pessoa física, que sempre preferiram os títulos públicos federais ou as próprias ações das empresas, as debêntures estavam esquecidas, principalmente nos últimos três anos, segundo o professor de Economia e Finanças da Fucape e FGV, Paulo César Coimbra.
“Não tivemos muitas emissões de debêntures nos últimos anos, apesar do regulamento da Bovespa permitindo a negociação desses papéis”, justifica. “É uma alternativa para o investidor um pouco mais arrojado, mas que não está disposto a arriscar com ações. A rentabilidade é superior aos de fundos de renda fixa ou DI”, acrescenta Coimbra.
Este ano, empresas como a Telemar Norte Leste (Oi) e a Tractebel Energia emitiram debêntures ao público de varejo. A primeira por R$ 1 mil cada debênture, com retorno de 115% do CDI na primeira série e de 120% do CDI na segunda. Já as debêntures da Tractebel foram vendidas por R$ 10 mil cada uma, com retorno de 117% do CDI.
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Para quem vale a pena
As debêntures são, basicamente, títulos de renda fixa de médio e longo prazos emitidos por empresas. Segundo Coimbra, valem a pena especialmente aos investidores de renda fixa que acreditam que o movimento das taxas de juros já chegou ao seu limite, impedindo uma rentabilidade maior das aplicações em renda fixa.
“Acredito que o cenário atual está mais para a continuação de queda da taxa de juros. É claro que, dependendo do ritmo de recuperação da economia e do preço do dólar, a inflação pode pressionar o aumento da Selic”, analisa o professor da FGV.
O professor de Finanças do Mackenzie, Wesley Mendes, explica que, na comparação com as ações, as debêntures oferecem um risco menor, no que diz respeito à volatilidade do mercado e das taxas de juros. “A remuneração é acertada de antemão, constando no prospecto da operação”.
Desvantagens
Porém, antes de apostar nesse tipo de investimento, se faz urgente conhecer seus pontos negativos. Mendes afirma que a principal desvantagem das debêntures é o desenho voltado aos investidores institucionais – gestores de fundos de pensão ou de investimentos – em detrimento do pequeno investidor. O resultado disso é a baixa liquidez.
O professor de Finanças da FIA-USP, Ricardo Almeida, também chama a atenção para a questão da liquidez. “Debêntures possuem um prazo padrão de cinco anos e não é tão fácil vendê-las. Existe pouca demanda e mesmo aqueles que conseguem vender correm o risco de ter de aceitar um preço baixo. Assim, geralmente, o investidor pessoa física precisa esperar até o vencimento”, explica. Em outras palavras, o investimento em debêntures pode se tornar verdadeiro motivo para dor de cabeça.
Almeida critica a forma como a Bovespa lida com a emissão de debêntures. “Se o objetivo é popularizá-las, então deveria ser criado um mercado de negociação de debêntures em home broker. No formato atual, não há liquidez”.
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Risco de default
Outro grande problema que envolve as debêntures é o risco de crédito dos títulos, o que significa que a empresa emissora pode não conseguir pagar o comprador da debênture. E esse risco aumenta em um período de crise econômica. “Se a empresa emissora tornar-se inadimplente, será um grande problema para o investidor”, alerta o professor de Finanças da FIA-USP.
Mendes diz que o risco de default é real e o tipo de debênture que oferece maior risco é o sem garantia. Para entender melhor, as debêntures podem ser divididas nos quatro grupos abaixo:
- Com garantia real: são garantidas por bens dados em hipoteca, penhor ou anticrese, pela companhia emissora, por empresas de seu conglomerado ou por terceiros;
- Com garantia flutuante: possuem privilégio geral sobre o ativo da empresa, o que não impede, porém, a negociação dos bens que compõem esse ativo;
- Quirográficas: não possuem as vantagens dos dois tipos citados acima;
- Subordinadas: são aquelas que não oferecem garantia e que preferem apenas aos acionistas no ativo remanescente, em caso de liquidação da companhia.
O principal problema, segundo ele, são as incertezas que rondam o rating dado pelas agências de classificação de risco a operações de emissão de debêntures. Incertezas estas que aumentam em períodos de turbulência no campo econômico.
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“A empresa que vai emitir as debêntures paga a uma agência para classificar o risco da operação. Vejo um conflito de interesses nesse fato. Quem garante que a agência contratada não sofrerá pressão? Além disso, já vimos crises financeiras sérias acontecerem em empresas que tinham uma ótima classificação de risco”, diz o professor de Finanças do Mackenzie.
Alternativas de investimento
Ricardo Almeida, da FIA, recomenda ao investidor de varejo aplicar em títulos públicos do governo federal ou em ações, no lugar de comprar debêntures. “A liquidez dos títulos públicos do governo é maior e o risco é praticamente zero”, explica. “Ao mesmo tempo, a dor de cabeça é menor”, sublinha.
A diferença básica entre comprar ações e debêntures é que, no primeiro caso, o investidor se torna acionista da empresa, ficando sujeito às oscilações diárias do valor de seus papéis no mercado. No segundo caso, ele vira credor, de forma que o ganho é, até certo ponto, mais garantido, já que é previsto no prospecto da operação de emissão das debêntures.
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O que analisar antes da compra
O professor do Mackenzie recomenda, antes de comprar debêntures, analisar com minúcia o prospecto da operação e observar a classificação de risco da mesma, o que pode ser encontrado no site da Bovespa. Seria uma forma de se proteger contra os riscos desta alternativa de investimento.