Crescimento dos FIDCs é só “ponta do iceberg”, dizem gestores  

Desintermediação financeira e maior procura de investidores e empresas devem impulsionar a securitização de recebíveis mesmo em cenário desafiador

Angelo Pavini

(Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)
(Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)

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Os FIDCs vieram para ficar e, apesar de dobrarem de tamanho em poucos anos e se aproximarem de R$ 1 trilhão de patrimônio, esse tipo de fundo ainda está só arranhando a ponta do iceberg. A avaliação é de Bruno Spilberg, gestor de crédito da SPX Capital.

“Os próprios bancos entenderam que o FIDC é um instrumento interessante para alocação de capital, as empresas estão entendendo que o fundo pode ser melhor que o crédito do banco e o investidor está vendo uma opção que permite planejamento tributário e diversificação, com relação de risco retorno muito interessante”, afirmou Spilberg em participação na Expert XP 2026.

O próprio Banco Central vem ajudando o mercado de capitais ao estimular a redução da concentração do crédito nos bancos, hoje centrada em cinco grandes instituições, diz Delano Macedo, socio-fundador e diretor de crédito da Solis Investimentos. “A decisão da Comissão de Valores Mobiliários de liberar os FIDCs para o investidor de varejo é um sinal de maturidade do mercado, e vemos o número de investidores triplicar de 2005 para cá”, afirmou no mesmo debate no evento da XP. “E essa estratégia vai continuar crescendo, pois mesmo em uma economia em dificuldades os FIDCs podem encontrar setores mais resilientes para investir”, acrescenta Macedo.  

 O crescimento dos FIDCs está ligado ao tema da desbancarização, que é uma tendência inevitável no Brasil como foi em outros países, como nos Estados Unidos, com o mercado de capitais assumindo o papel de fornecedor de crédito e de capital para o setor privado, afirmou Gustavo Cortes Sócio gestor de private credit Vinci Partners. “E esses fundos também estão trazendo novas tecnologias para levar o crédito para a ponta, para setores diversos, por isso estamos superotimistas com o mercado”, disse, na mesma discussão. “Vamos ver cada vez mais o mercado de crédito privado florescer”, acrescentou.

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Para Delano Macedo, os bancos têm procurado as gestoras de FIDCs para oferecer operações em que não querem atuar diretamente, como empresas pequenas e médias, crédito consignado privado, para pessoas físicas ou em segmentos em que a escala não compensa. “E os FIDCs tem a vantagem de poderem ser customizados para esses tipos de ativos”, explica. “É como canivete suíço, que atende a cada ativo, e isso aumenta a procura por nichos de mercado, que são menores, mas não necessariamente mais risco”, diz. Isso faz com que os FIDCs também fiquem mais perto da economia real, atendendo de maneira mais adequada diferentes tipos de empresa e oferecendo mais opções para o investidor. “E os próprios bancos estão cedendo não só ativos, como investidores também, e entrando como investidores juntos, em cotas subordinadas, investindo também recursos de suas próprias tesourarias”.  

Para Gustavo Cortes, o cenário econômico é desafiador, mas ele lembra que os FIDCs já passaram por várias crises desde seu surgimento nos anos 2000. “Ele traz o componente da segregação das tranches, que renova as carteiras com riscos diferentes, e as cotas subordinadas, que amortecem a inadimplência da carteira”. Ele recomenda, porém, que o investidor avalie o histórico do gestor e como o setor em que o FIDC atua se comportou ao longo de crises. “Temos segmentos mais sensíveis e outros menos, como o consignado público, mas é preciso reconhecer que não é um investimento fácil, apesar de apresentar uma oportunidade em termos de risco e retorno mesmo em cenário adverso”.     

Bruno Spilberg diz que “preocupa quando 11 em cada 10 pessoas” falam de FIDCs e todos se perguntam se cresceram demais e se o investidor está entrando “no fim da festa, para apagar a luz”. Para ele, porém, o segmento já passou por outras crises e se saiu bem pela própria estrutura das securitizações. “Não é que não teve problema, mas teve o problema e a estrutura conseguiu suportar”, defende. Já Delano Macedo observa que os FIDCs viraram “popstars” por sua menor volatilidade e retorno robusto mesmo em momentos de crise.

Mas ele destaca que o crescimento exige disciplina, respeito aos valores e regras rígidas para concessão de crédito. É preciso também governança e acompanhamento constante. “Se você compra laranja, o originador tem de entregar laranja, não pode mudar o perfil do recebível porque está difícil de achar”, diz. Além disso, o prazo dos recebíveis tem de ser compatível com o dos investidores. “Não dá para ter fundo com resgate em 30 dias e recebíveis de um ano”, acrescenta.   

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