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O movimento recente de saída de investidores do mercado internacional de crédito privado foi maior do que os fundamentos sugeriam. Essa é a avaliação de Vinicius Raggio, especialista do Morgan Stanley com 13 anos de casa. Segundo ele, dois indicadores públicos — acessíveis a qualquer pessoa com acesso à internet — indicam que a leitura de “crise” não se sustenta nos dados disponíveis.
O primeiro desses indicadores mede o prêmio exigido pelos investidores para emprestar recursos a empresas de maior risco nos Estados Unidos. Na prática, funciona como um termômetro de percepção de risco: quando o número sobe, a aversão aumenta; quando cai, o ambiente é visto como mais benigno. Esse indicador chegou a 4,5% no auge das tensões em torno das tarifas do governo Trump, em 2025 — e hoje se encontra em 2,8%.
“Se a pergunta é se existe um grande risco que o mercado está enxergando, a resposta é não”
A análise foi feita durante a Semana da Renda Fixa, da XP Investimentos, em entrevista à analista Mayara Rodrigues.
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O segundo indicador citado por Raggio reforça a mesma leitura: os empréstimos corporativos negociados abertamente na bolsa — uma categoria comparável ao crédito privado, mas com preço visível a qualquer momento — estão sendo transacionados a 95% do valor original.
Mesmo a parcela ligada a empresas de tecnologia, que concentra boa parte dos temores, está a 88%. “O mercado aberto não está precificando uma catástrofe”, observou.
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Isso não significa, porém, que o investidor pode entrar de olhos fechados.
Raggio listou três perguntas que qualquer pessoa deve fazer antes de colocar dinheiro nessa categoria:
“Quanto o fundo está endividado? Qual é a proporção de empréstimos comprados no mercado aberto, em vez de concedidos diretamente a empresas? E qual é a fatia de dívida que as empresas tomadoras estão adiando para pagar no futuro?”
“Se não for fácil encontrar essas informações, eu ficaria longe desse gestor”, disse.
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Nem todo pagamento adiado é sinal de empresa quebrada
Sobre a dívida adiada, Raggio fez uma distinção que a imprensa tem ignorado. Uma empresa em expansão pode, com a concordância do gestor do fundo, optar por reinvestir o caixa no próprio negócio em vez de amortizar a dívida naquele momento.
Isso pode ser saudável. O problema aparece quando o adiamento acontece porque a empresa simplesmente não tem dinheiro — e não por uma decisão estratégica de crescimento.
A diferença entre os dois casos muda completamente a leitura do risco. No primeiro, o investidor está bancando uma empresa que cresce e, ao final, terá mais capacidade de pagar.
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No segundo, está carregando uma empresa que patina — e que pode não honrar o compromisso lá na frente. Identificar em qual situação cada fundo se encontra é, segundo Raggio, mais importante do que olhar o retorno passado.
Também ajuda a contextualizar o momento saber que o retorno médio dessa categoria nos últimos 20 anos é de 9,5% ao ano em dólar.
Para comparar: mesmo as maiores empresas brasileiras, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), quando captam recursos no exterior, raramente conseguem pagar mais do que 7% ao ano — limitadas pela classificação de risco do Brasil.
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“A gente vê títulos de empresas brasileiras lá fora rendendo 6%, algumas 5,5%, 7%”, observou a analista Mayara Rodrigues.
O paralelo com o crédito privado brasileiro tem limite, porém. Lá fora, esses fundos emprestam para financiar a compra e a expansão de empresas — com horizonte de cinco anos e aposta em crescimento.
Aqui no Brasil, o crédito privado serve, na maioria dos casos, para cobrir necessidades de caixa imediatas. São lógicas diferentes, riscos diferentes, prazos diferentes.
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